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quarta-feira, 20 de julho de 2011

Blogs influentes são mais lidos que jornais impressos

Alguns blogs de jornalistas famosos e considerados influentes, mantidos em portais, chegam a superar jornais impressos brasileiros em termos de abrangência. As páginas de Juca Kfouri (UOL), Patrícia Kogut, Fernando Moreira, Ricardo Noblat (O Globo) e Marcelo Tas (Terra), segundo o Comunique-se, são exemplos.

A maioria deles supera a circulação dos dez maiores diários do país, que têm de 125 mil a 295 mil exemplares diários, segundo dados da Associação Nacional de Jornais (ANJ).

Porém, apesar da diferença no número de leitores, os blogs, jornais e portais não são vistos como rivais, mas como complementos editoriais. Grandes veículos impressos também têm endereços virtuais (para os cerca de 73 milhões de internautas no Brasil) que, consequentemente, são bem populares como o Terra, O Globo, e UOL/Folha.

Em primeiro lugar no ranking dos blogueiros fica o endereço virtual de Patrícia Kogut, que possui cinco milhões de leitores por mês (visitantes únicos), com 14 milhões de páginas visualizadas. Juca Kfouri tem três milhões de visitantes únicos mensais; quase cinco milhões de visualizações de página.

Fernando Moreira, dono do Page Not Found tem uma média de quatro milhões de visitas por mês; 1,7 milhão de visitantes únicos.

Já o blog do Ricardo Noblat tem 257 mil visitantes no mês, mais de um milhão de page views). A página deMarcelo Tas é vista por 200 mil internautas em um mês e chega a ter picos de 300 mil.

Para Juca, o motivo principal é a facilidade do acesso, Ele, que é colunista da Folha de São Paulo e da CBN, se define como blogueiro.

Com informações do Comunique-se


Fonte: Adnews

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Globo muda telejornal para tentar salvar ibope e atrair classe C

Por Ricardo Feltrin

A reviravolta das cadeiras que a Central Globo de Jornalismo promoveu em seus telejornais matinais e vespertinos, anunciada ontem pela Folha, tem dois motivos: estancar a perda de participação dos programas em número de TVs ligadas (share) e, mais ainda, popularizar esses produtos de forma a atrair a agora cobiçada classe C.

Para tanto, a emissora agora colocou na bancada Chico Pinheiro, cujo perfil é considerado mais popular, para suceder Renato Machado. Também incluiu nas edições um comentarista policial (Rodrigo Pimentel), e vem priorizando pautas e notícias que atendam também ao interesse da população de baixa renda. O "Bom Dia Brasil" que Machado ancorou nos últimos 15 anos foi considerado elitista demais para o público C. Machado agora será correspondente da Globo em Londres.

Levantamento de audiência desde 2003 mostra que esse telejornal estagnou em ibope, mas perdeu mais de uma em cada cinco TVs ligadas nesse mesmo período. Ou seja, um em cada cinco domicílios pararam de assistir ao jornal matinal da Globo, que é exibido em rede nacional. A mobilização da Globo se deve ao fato de que, a despeito do share cair, o número de TVs ligadas aumentou mais de 50% entre 2003 e 2011 --de 16% para 24%.

A melhoria e avanço da economia nacional e das classes mais desfavorecidas fez com que mais pessoas comprassem TVs nos últimos anos; mais pessoas passaram a assistir jornais matinais na TV, mas, mesmo assim, esse novo público não está sintonizando a Globo.

"Share" é a porcentagem de TVs assistindo a um programa dentro do universo de TV's ligadas. Em 2003, mais da metade das TVs ligadas pela manhã na Grande São Paulo (52,3%) assistiam todos os dias ao "Bom Dia Brasil". Este ano, até o último dia 17, esse índice caiu para 37,2%.

O início da crise no "BDB" da Globo ocorre justamente após 2003, quando a Record estreia o "Fala Brasil" em versão jornalística. Até então o programa era uma espécie de revista eletrônica de amenidades.

Desde que virou telejornal, o "Fala Brasil da Record cresceu mais de 450% no ibope: de 1,1 ponto para 6,1 pontos. O share também cresceu de forma notável, de 6,5% oito anos atrás para 25,3%, crescimento de 289%

Outras emissoras também foram abaladas pela concorrência da Record, especialmente o SBT, que perdeu um quarto do ibope e quase metade do share desde 2003.

Fonte: Folha.com

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Globo terá matérias feitas por telespectadores

Em mais uma atitude que visa estreitar relações com a classe C, a Globo levará para São Paulo o "Parceiro do SP", pelo qual os próprios telespectadores passarão a produzir conteúdo para o telejornal SPTV. Ao todo, 14 pessoas de sete regiões farão coberturas locais, passando informações sobre seus próprios bairros. Moradores com níveis diferentes de instrução e classe social poderão se inscrever a partir da próxima semana, de acordo com o Comunique-se.

O projeto começou no Rio de Janeiro com o RJTV e, depois de São Paulo, irá também ao Distrito Federal. "O ‘Parceiro do SP’ vai estreitar ainda mais a relação do SPTV com a comunidade, trazer os detalhes sobre assuntos importantes de cada região, os temas que mais mobilizam os moradores e revelar para nós um olhar que só quem vive no lugar pode ter", explicou Cristina Piasentini, diretora de jornalismo da TV Globo São Paulo.

Na capital paulista, as inscrições estarão abertas entre 6 e 12 de junho pelo site do SPTV. Os interessados têm de ser maiores de 18 anos, com ensino médio completo e ser morador de Diadema, Franco da Rocha, Freguesia do Ó, Guarulhos, M’Boi Mirim, Osasco ou São Miguel Paulista.

Para conseguir a vaga os candidatos serão avaliados em português, conhecimentos gerais, raciocínio lógico e redação, e passarão ainda por dinâmicas em grupo. Serão jornalistas da emissora que acompanharão o processo e, depois da escolha, os finalistas passarão por um curso sobre técnicas jornalísticas.

Em maio, o Sindicado dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro e a Associação Profissional dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Estado do Rio de Janeiro (Arfoc) questionaram a Globo por causa do projeto, que seria uma tentativa de precarizar o mercado. Mas a emissora respondeu que não houve redução do quadro de funcionários e que todo o trabalho é coordenado por jornalistas.

Fonte: Adnews

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Instituição elabora linha de tempo do fim dos jornais impressos

Redação Coletiva.net

Nos Estados Unidos, o processo deverá ter início em 2017. No Brasil, em 2027. No Uruguai, em 2035. E, na Argentina, em 2039. Estes são os anos em que os jornais impressos deverão começar a se tornar insignificantes como players do mercado de comunicação, na forma em que existem hoje. Em alguns países, a data deverá se estender para além de 2040.

A previsão foi elaborada pela Future Exploration Network, instituição americana que auxilia organizações de mídia a elaborar estratégias e inovações e se ajustar ao futuro. O estudo ressalta que a perda de importância do jornal em sua forma atual não representa a morte de notícias em papel, que deverá continuar existindo em outra variedade de formas – produção mais personalizada de notícias e ocupação de nichos de mercado, por exemplo.


A Future Exploration Network também apontou o que considera fatores-chaves nesse processo, tanto do ponto de vista global como nacional – que, na verdade, poderia ser melhor especificado como regional. No cenário global, estão os avanços de dispositivos móveis e de tabuletas de leitura digital, mudanças na produção e no custo de impressos, desenvolvimento de plataformas abertas, entre outros. No cenário regional, aparecem a consolidação da banda larga, disparidades de riqueza, a redução da regulação por parte de governos, a queda da disposição para pagar por notícias, entre outras.


A percepção de que o destino dos jornais impressos é relativo à realidade de cada país foi apontada em reportagem publicada na edição de 2010 da revista Coletiva Tendências. O fenômeno havia sido apontado tanto pelo diretor de redação do Correio do Povo, Telmo Flor, quanto pelo diretor da Associação Internacional de Marketing de Notícias, Earl Wilkinson, que se manifestou sobre o assunto em novembro, em encontro da entidade em São Paulo. Wilkinson, no entanto, foi mais generoso com o futuro dos jornais impressos brasileiros, prevendo a continuidade da mídia até, pelo menos, 50 anos.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Perfil de Dilma foi notícia mais lida do ano em site de jornal britânico

Redação Terra

Um perfil de Dilma Rousseff publicado antes do primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras foi a notícia mais lida do ano no site do jornal britânico The Independent, segundo uma lista publicada nesta quinta-feira pelo próprio site.

A reportagem, publicada no dia 26 de setembro, previa a eleição de Dilma já no primeiro turno, uma semana depois, e dizia que ela se transformaria com isso na "mulher mais poderosa do mundo".

"A mulher mais poderosa do mundo vai começar a despontar no próximo fim de semana", iniciava o texto, intitulado "Ex-guerrilheira Dilma Rousseff pronta para ser a mulher mais poderosa do mundo".

Apesar do favoritismo indicado pelas pesquisas de opinião uma semana antes da eleição, Dilma acabou não tendo votos suficientes para vencer a disputa no primeiro turno e foi obrigada a disputar o segundo turno com o ex-governador de São Paulo José Serra.

"Forte e poderosa"
A reportagem do Independent, porém, dava sua vitória já no dia 3 de outubro como quase certa. "Forte e poderosa aos 63 anos, esta ex-líder da resistência a uma ditadura militar apoiada pelo Ocidente (que a torturou) está se preparando para tomar seu lugar como presidente do Brasil", dizia o texto.

"Como chefe de Estado, a presidente Dilma Rousseff deixaria para trás Angela Merkel, a chanceler (premiê) da Alemanha, e Hillary Clinton, a secretária de Estado dos Estados Unidos: seu enorme país de 200 milhões de habitantes está se esbaldando em sua nova riqueza petrolífera. A taxa de crescimento do Brasil, que rivaliza com a da China, é uma que a Europa e Washington podem apenas invejar", afirmava a reportagem.

No início de novembro, já depois do segundo turno vencido por Dilma, a presidente eleita foi classificada pela revista americana Forbes como a 16ª pessoa mais poderosa do mundo.

A lista da Forbes traz duas mulheres à frente de Dilma - Merkel, na 6ª posição, e a líder do partido majoritário indiano, Sonia Gandhi, na 9ª. Hillary Clinton era listada como a 20ª pessoa mais poderosa do mundo.

A relação das notícias mais lidas no ano no site do Independent coloca o perfil da futura presidente do Brasil à frente de notícias como a publicação da autobiografia do escritor Mark Twain um século após sua morte (2ª mais lida) e sobre uma pesquisa que poderia levar à cura do resfriado comum (3ª).

Fonte: Terra

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

“Wiki-news”, um dos híbridos da era digital

Por Alberto Dines

Na edição sul-americana do El País de domingo (5/12), as façanhas de Julian Assange ocuparam cerca de 13 páginas, grande parte dedicadas aos desdobramentos das revelações do fim de semana anterior.
Curiosamente, o tópico que mereceu mais espaço e atenção (2 páginas e forte chamada na capa) foi a denúncia de que dois membros da alta hierarquia chinesa (os números 5 e 9 do Politburo) estavam à frente do ciberataque do governo de Pequim contra o Google no fim do ano passado.
A denúncia do Wikileaks não foi contestada, mas também não foi apurada. Tal como entrou nos arquivos do Departamento de Estado – sem qualquer investigação suplementar – entrou no tsunami das especulações e fofocas que tomaram conta da imprensa mundial. "That’s the way it is", diria o cético Walter Cronkite, o famoso âncora da CBS. Coisas do nosso tempo. O ciberespaço é tão vasto e amorfo que nele só se produz barulho.
A prova disso está no próprio estatuto da "coalizão" (ou conluio) dos cinco grandes diários globais que se acertaram com o Wikileaks para publicar as suas bombas: a primeira divulgação seria obrigatoriamente através das respectivas edições digitais. Depois, os vazamentos passariam às edições impressas. E por que não ao contrário? Porque Julian Assange é um publisher digital, sua cabeça e instintos não são analógicos. Se a primazia ficasse com os jornais, o barulho teria outro tipo de vibração. E outros resultados, talvez mais eficazes.
Razão do ministro
A questão que hoje deveria ser discutida relaciona-se com a natureza do Wikileaks – é um canal informativo ou veículo jornalístico? Para ser enquadrado como jornalismo, a primeira exigência seria a de trazer algum tipo de apuração preliminar, de preferência uma contestação. Impossível, o vazamento só tem efeito quando aliado ao fator surpresa.
A verdade é que este rigor conceitual está sendo rapidamente substituído pelo chamado "jornalismo de resultados" – em que primeiro se atira e depois se pergunta quem vem lá. Assange só atira. E com o apoio de veículos como o The New York Times, The Guardian, Der Spiegel e El País, que a ele se associaram, este tipo de jornalismo não levará muito tempo para impor-se ao modelo canônico.
Não importa quanto tempo vai durar a "onda Assange", o que importa é velocidade da hibridização imposta pela explosão dos meios digitais. O híbrido é geralmente estéril, geralmente incapaz de produzir descendência, impasse genético. Impossível dizer se Assange descende de Hearst ou de Pulitzer. O que deveria nos preocupar é que ele é o primeiro de uma série de estranhas combinações entre espécies diferentes que, ao fim e ao cabo, darão razão ao ministro Gilmar Mendes, do STF: jornalismo não é profissão, é oportunidade.
***
A ombudsman da Folha de S.Paulo errou na sua coluna de domingo (5/12): o jornal não publicou com exclusividade os vazamentos referentes ao Brasil. Deu em primeira mão. Exclusividade não existe na era digital.

Fonte: Observatório da Imprensa

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Previsão: jornais vão morrer em 2017 nos EUA

Redação AdNews

Conhecido como "futurista", o australiano Ross Dawon estima má notícias para os jornais. Ele prevê, por meio de gráfico, que em 2017 os impressos estarão exitintos nos EUA, fato que deverá acontecer dois anos depois no Reino Unido, Islândia e Canadá . A informação é do blog The Wall.

Ross atribui a previsão negativa ao avanço de telefones celulares, computadores, tablet, leitores digitais e a própria ida do conteúdo para o online. Além da tecnologia, o australino cita também a economia como fator importante no processo de mudança.

Entretanto, a previsão do australiano é menos drástica para mercados menos desenvolvidos. Países como Argentina e Mongólia, por exemplo, devem manter viva a aposta nos impressos até 2040.

Fonte: AdNews

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

JN e o meteorito de papel

Por Washington Araújo

Ânimos exaltados fazem aflorar ainda mais a partidarização da imprensa no corrente pleito de 2010. Esta é uma campanha presidencial sui generis. Tudo o que não é fato vira notícia e tudo o que tem potencial de notícia deixa de ser divulgado. Chama a atenção o vocabulário corriqueiro dos candidatos à Presidência da República: o adversário é sempre mentiroso, não importa qual seja a situação, a mentira antecede o depoimento, a desfaçatez nubla a face da verdade e o que acusa o outro de mentiroso o faz sem a contração de qualquer músculo facial.

Na tarde da quarta-feira (20/10), no Rio de Janeiro, tivemos o próprio "Efeito Borboleta": uma simples bolinha de papel, pesando não mais que 5 ou 8 gramas, bateu na cabeça do candidato José Serra. Mas foi suficiente para produzido o festejado efeito cinematográfico: ocupou espaço nobre no Jornal Nacional, edição mais que caprichada com direito a inserção de vídeo com foto, de entrevista de médico com áudio de repórter, ampliações desmesuradas com o intuito nada ingênuo de transformar o choque de uma bolinha de papel sobre um ser humano com a gravidade e contundência de meteorito se chocando com o planeta Terra.

Fabricação de realidades

A idéia da TV Globo era usar todos os recursos de dramaturgia acessíveis. Apenas a emissora líder não contava com o baixo desempenho da protagonista... Com uma bolinha de papel não dá para escrever capítulo muito emocionante, algo que seja digno de novela das 9.

A edição pareceu resultante de vitamina de atleta olímpico e tinha de tudo mesmo: bolinha de papel tocando o lado esquerdo da calva do presidenciável, caminhada de 20 minutos, presidenciável atendendo chamada no telefone celular, presidenciável passando a mão levemente sobre o lado direito da calva, presidenciável entrando na van, depois saindo da van, voltando a caminhar, e tudo isso tendo como pano de fundo bandeiras vermelhas e azuis, gritos, gente alvoroçada.

Depois corta para entrada do presidenciável em hospital, sinais de tontura e as primeiras aspas ouvidas por testemunhas de que "estou meio grogue". Depois saindo de clínica de saúde com médico dizendo que "o candidato não sofreu qualquer arranhão... nada externo".

Foi esse enredo que atravessou os programas dos presidenciáveis. O de José Serra, carregado de dramaticidade, tendo a locução de repórter desconhecida emulando a voz de Ilze Scamparini, aquela correspondente da TV Globo para assuntos do Vaticano e também da Itália em geral. O estilo de enunciar crise cardinalícia ou mesmo morte do pontífice ou então a eleição do novo sucessor no trono de Pedro. Impressiona a avidez com que emissoras de televisão se sentem tão à vontade para criar a realidade que lhes pareça melhor, mais adequada, conveniente ou ao menos plausível.

"Misterioso caso"

Na quinta-feira (21/10), temos discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva embrulhando os parágrafos acima e amarrando todo esse minitiroteiro com barbantes apertados. O aperto de quem denuncia o conteúdo do pacote como farsa, nada mais que farsa. Até o goleiro Rojas, aquele que simulou ter sido atingido por foguete em jogo no Rio de Janeiro, foi mencionado na fala presidencial. Uma vez mais o pano de fundo era desmascarar mais mentiras, mais inverdades, mais falsidade, mais realidade fabricadas.

Na edição do Jornal Nacional de quinta-feira (21/10), repetição de cenas do arquivo do dia anterior acrescidas de aula sobre bolinha de papel, rolo de fita crepe e a teoria pouco convincente – penso – de dois eventos estanques, isolados, completamente distintos. A aula foi ministrada com raro didatismo pelo ex-professor da Unicamp Ricardo Molina de Figueiredo em um veículo e em um horário em que cada segundo vale literalmente ouro em pó. Onde a eternidade é condensada aos 5, 10 ou 15 segundos de matéria levada ao ar.

A TV Globo, ao escolher o especialista Molina, deixou claro que neste jogo quer maior protagonismo. Afinal é o mesmo Molina quem vem abastecendo dezenas de matérias produzidas pelo mesmo Jornal Nacional ao longo das décadas: Seu nome se encontra de alguma forma envolvido com casos como a compra de votos para a reeleição de Fernando Henrique Cardoso; o acidente aéreo com os integrantes da banda Mamonas Assassinas; o pagamento de suborno no caso Waldomiro Diniz; as mortes de Celso Daniel e de Paulo César Farias; os atentados do PCC em São Paulo; e o caso da menina Eloá, em São Paulo.

Apesar da notoriedade, em suas aparições na mídia, o ex-professor Molina comumente faz declarações sobre ações da perícia criminal oficial, mesmo sem nunca ter sido perito criminal oficial. Certamente passará a lustrar mais sua fama com este "misterioso caso da bolinha de papel" na reta final da campanha presidencial de 2010.

De joelhos

Chegamos a uma encruzilhada perigosa em que a credibilidade de boa parte de nossa grande imprensa parece uma vez mais afundar: se dispomos das conclusões e se estas parecem sólidas, quase pétreas, por que não montar as variáveis do problema que possam se harmonizar de forma indolor e quase imperceptível com as conclusões? E é um processo retroalimentado diariamente: primeiro surge na coluna do jornalista Merval Pereira, depois ganha mais substância com o comentário da historiadora Lucia Hippolito na rádio CBN e pronto: logo os engenhosos e incompletos raciocínios pautarão as falas do presidenciável José Serra ao longo do dia.

Para chegar a tais conclusões basta um pouco de paciência: visitar os blogs dos citados e conferir vídeos no Youtube do presidenciável, em especial aqueles com suas aparições nos telejornais das TVs Globo, SBT, Record e Band.

O que é mais escasso no episódio é a ausência total de análises profundas sobre o acirramento de ânimos de parte a parte. O excesso de uso dos carimbos contendo palavras como "mentira", "inverdade", "falsidade". Revistas e jornais proclamam completa independência dos partidos postulantes à Presidência da República ao tempo em que os profissionais que assinam as matérias, colunas e também os simulacros de reportagens não fazem outra coisa que fazer diária e semanalmente sua profissão de fé na capacidade e experiência demonstrados por seu candidato ao Palácio do Planalto. Tal profissão de fé é sempre recorrente como recorrente tem sido a demonização do tal "outro lado" que atende também pelo nome de "campanha adversária".

Como linha auxiliar da oposição, parte considerável da grande mídia verbaliza o que pode ser apenas intuído por esta campanha. E se a "campanha adversária" decide não deixar passar em branco tão engenhosa estratégia partidária, então veremos que 10 em 10 vezes esta será atacada como atentatória à liberdade de imprensa, estará mostrando ranço autoritário, demonstrará assimetria entre a liturgia que se espera de detentor de cargo público e a função de militante político.

Ao momento, a profundidade a que me refiro é tal que uma formiga de joelhos poderia atravessar sem o menor risco de afogamento.

Fonte: Observatório da Imprensa

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Mídias impressas no Irã podem ser fechadas caso publiquem matérias sobre oposição

Redação Portal IMPRENSA

O Ministério da Cultura do Irã alertou as mídias impressas do país que, caso publiquem notícias sobre a oposição, serão fechadas. Segundo analistas, a medida pretende eliminar os críticos ao governo do presidente Mahmoud Ahmadinejad.

O Ministério da Cultura iraniano é o responsável por supervisionar as atividades da imprensa local e estrangeira no Irã. O representante do órgão, Ehsan Ghazizadeh, disse que, além de publicar matérias sobre a oposição, os veículos não podem divulgar declarações e fotos dos oposicionistas.

De acordo com informações da Reuters, alguns ativistas que lutam por reformas políticas no país foram presos e condenados a vários anos de prisão nas últimas semanas. Além disso, sites e publicações pró-reformistas foram fechados desde a polêmica eleição presidencial em junho de 2009, que reelegeu Ahmadinejad.

A proibição feita aos veículos impressos do Irã dificulta o contato entre líderes da oposição, como os candidatos derrotados Mirhossein Mousavi e Mehdi Karoubi, e os iranianos.

Na última semana, a correspondente do jornal El País em Teerã, Ángeles Espinosa, teve o visto suspenso no Irã. A jornalista havia sido detida em julho após entrevistar Ahmad Montazerí, filho do falecido ayatolá reformista Hosein Ali Montazerí. Desde que foi presa, Ángeles estava sem sua credencial de imprensa.

Fonte: Portal IMPRENSA

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O protagonismo eleitoral da imprensa e o futuro da indústria jornalística no Brasil

Por Carlos Castilho

A imprensa sempre foi um protagonista relevante em eleições no Brasil, mas, até agora, a sua participação era menos importante do que o posicionamento dos candidatos. As polêmicas sobre o papel da midia se limitavam à sua estratégia editorial. Os candidatos faziam as denúncias e os jornais, revistas, TV e rádios repercutiam.

Em 2010 surgiu um novo enfoque na questão do protagonismo eleitoral da imprensa, pois ela passou a ser percebida como um partido de oposição. Esta percepção é uma consequência do fato de as denúncias terem sido feitas primariamente por orgãos da imprensa, cabendo a repercussão posterior aos candidatos.

Esta inversão de papéis é uma das causas do surgimento da idéia de que a publicação de escândalos de corrupção e de abuso do poder durante a campanha eleitoral de 2010 teria sido o resultado de uma operação coordenada, que equivaleria a uma ação típica de um partido político.

É importante ressaltar que tudo isto ocorre no terreno da percepção, ou seja, a forma como as pessoas percebem fatos, processos ou dados por meio dos seus sentidos. Numa campanha eleitoral, as percepções são alimentadas basicamente pelos veículos de comunicação e pelos formadores de opinião.

Mesmo sendo imateriais, elas (as percepções) são usadas hoje como base para estudos sobre comportamento humano no mesmo pé de igualdade que os fatos concretos. Em politica é corrente o jargão de que as versões (as percepções) podem ser até mais importantes do que os fatos.

Esta "viajada" teórica visa mostrar como o protagonismo eleitoral da imprensa transformou-se num "fato", mesmo sendo fruto de uma percepção. E é isto que gera uma situação nova com desdobramentos imprevisíveis.

Se a imprensa não adotar comportamentos que desmanchem as percepções desenvolvidas durante a campanha eleitoral, a credibilidade e independência de alguns jornais, revistas e emissoras de rádio ficará abalada. Sem credibilidade, o negócio da imprensa perde o seu principal ativo.

A sociedade brasileira não pode abrir mão da imprensa porque ela faz parte do conjunto de meios que levam e trazem informação, para e do público. A internet ocupou um bom espaço daquilo que era uma espécie de monopólio da imprensa escrita e audiovisual, mas não é hegemônica e nem onipresente.

Assim, o que provavelmente começaremos a assistir, passadas as eleições e dependendo dos acontecimentos imediatamente posteriores, é um questionamento do papel das empresas jornalisticas no Brasil, num processo que não tem nada a ver com liberdade de expressão.

Muito pelo contrário, dependendo do tipo de questionamento e da reação dos principais grupos midiáticos do país, o processo pode gerar uma inédita revisão das relações entre empresas e consumidores de informação.

Ninguém quer a ditadura de uma única percepção da realidade — portanto, se as empresas jornalísticas desejarem continuar cumprindo o seu papel de provedoras de informação terão que colocar a diversidade informativa como um dos seus objetivos centrais. Isto pode ajudar a anular a percepção de que a imprensa transformou-se num partido político.

A diversidade informativa levará também as empresas a rever o seu relacionamento com o público, porque ele hoje não é mais um consumidor passivo de noticias, mas um protagonista proativo no processamento de informações — não apenas no papel de cobrador de serviços qualificados, mas também como de fornecedor de matéria prima informativa, como é o caso de alguns weblogs.

Fonte: Observatótio da Imprensa

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Le Monde espionado pelo governo

Por Leneide Duarte-Plon

O presidente francês Nicolas Sarkozy entrou no turbilhão de um "Sarkozygate"?

Desde segunda-feira (13/9), quando o jornal Le Monde publicou uma matéria de capa assinada por Sylvie Kauffmann, diretora da redação, sob o título "Affaire Woerth: o Eliseu violou a lei sobre o segredo das fontes jornalísticas", o "caso Bettencourt" que se tornou "affaire Bettencourt-Woerth" pode se transformar em "affaire Bettencourt-Woerth-Sarkozy" por conta das novas revelações do jornal. Ou, simplesmente, "Sarkozygate", como já o chamam alguns políticos da oposição.

"O Eliseu utilizou o serviço de contra-espionagem para identificar uma fonte do Monde." Sem meias palavras, o jornal de referência da França acusa o Palácio do Eliseu de "ter empregado métodos que infringem a lei de proteção das fontes jornalísticas" quando ordenou aos serviços secretos (Direction Centrale du Renseignement Intérieur – DCRI) uma investigação dos telefonemas dados e recebidos por pessoas que, em julho, haviam tomado conhecimento do depoimento de Patrice de Maistre, administrador da fortuna da dona da L’Oréal, Liliane Bettencourt.

O depoimento, que colocava o atual ministro do Trabalho Eric Woerth em situação difícil, foi comentado no dia seguinte pelo Le Monde em matéria exclusiva, assinada pelo jornalista Gérard Davet. A versão de Patrice de Maistre desmentia a de Woerth sobre o emprego de sua mulher, Florence Woerth, pela empresa que administra os bens da proprietária da L’Oréal.

Apoio incondicional

Daí à caça a possíveis responsáveis pelo "vazamento" foi um pulo. Os serviços de espionagem tiveram acesso às ligações telefônicas dos "suspeitos" e revelaram que um magistrado, David Sénat, assessor especial da ministra da Justiça Michèle Alliot-Marie, teve contato com o jornalista que assinou a matéria.

O Palácio do Eliseu desmentiu qualquer interferência na espionagem do Le Monde. Mas, grande coincidência: o magistrado Sénat foi transferido em agosto para Caiena, capital da Guiana Francesa.

Punição? De modo algum, nega o porta-voz do ministério da Justiça. O magistrado queria voltar a trabalhar "sur le terrain", deixando os gabinetes da burocracia administrativa. Foi mandado para a Guiana para implantar um tribunal. Por acaso, mas isso é apenas uma coincidência, era lá que, no passado, os antigos prisioneiros faziam serviços forçados.

O Le Monde informou que instruiu seus advogados a ajuizar uma ação na qual o réu é desconhecido, que no direito francês corresponde a "déposer une plainte contre X" [apresentar uma queixa contra X].

No affaire Bettencourt-Woerth há suspeitas de financiamento ilegal da campanha de Sarkozy para presidente, uma Legião de Honra concedida ao administrador da fortuna da proprietária da L’Oréal (recomendada por Woerth), um cargo importante na empresa que administra essa fortuna dado à esposa do ministro (em troca da Legion d’Honneur?), evasão fiscal de muitos milhões de euros na Suíça da fortuna de Liliane Bettencourt, entre outros escândalos.

Até hoje, o presidente e seus ministros tentaram formar um cordão de proteção a Eric Woerth negando todas as acusações e garantindo o apoio incondicional ao ministro. Jornalistas americanos e ingleses entrevistados pela televisão foram categóricos desde o princípio do caso: tanto nos Estados Unidos quanto na Inglaterra, Woerth não seria mais ministro há muito tempo.

Financiamento ilegal

O editorial de primeira página da segunda-feira (jornal datado de 14 de setembro) se intitula "Le Monde, l’Elysée et la liberté d’informer" (Le Monde, o Eliseu e a liberdade de informção). O texto lembra que foi sob o governo Sarkozy que o segredo das fontes jornalísticas foi reforçado por uma lei que diz : "O segredo das fontes dos jornalistas fica protegido no exercício de sua missão de informação do público".

No texto assinado por Sylvie Kauffmann, o jornal lembra que a lei afirma expressamente que "é considerado como um atentado indireto ao segredo das fontes o fato de tentar descobrir as fontes de um jornalista através de investigações dirigidas a qualquer pessoa que, por suas relações habituais com um jornalista, pode deter informações permitindo identificar as fontes". Kauffmann lembra, ainda, que jornalistas podem manter o silêncio sobre suas fontes mesmo interrogados no contexto de uma investigação judiciária.

O affaire Bettencourt começou com uma denúncia da filha da milionária de que o fotógrafo François-Marie Banier abusava da fragilidade psicológica de Liliane Bettencourt. Segundo a filha de madame Bettencourt, sua mãe já havia doado ao amigo gay – que ela chegou a pensar em adotar como filho – o equivalente a 1 bilhão de euros.

Em pouco tempo, as investigações em torno das doações da milionária apontavam para financiamento ilegal da campanha de Nicolas Sarkozy, via Eric Woerth, que de tesoureiro do partido do presidente (UMP) se transformou em ministro do Planejamento e, atualmente, do Trabalho.

O Sarkozygate está apenas começando.

Fonte: Observatório de Imprensa

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Sísifo ou fênix?


Por José Marques de Melo*

O mito de Sísifo explica porque a natureza do trabalho jornalístico condena os profissionais da área a recomeçar suas atividades diuturnamente.

Trata-se de manter fidelidade à agenda que satisfaz as demandas cognitivas do público já conquistado e, ao mesmo tempo, subverter a rotina produtiva, pautando temas capazes de despertar o interesse dos destinatários potenciais.

Nesse sentido, a “maldição de Sísifo” impõe dupla jornada aos professores de jornalismo: um turno para educar os futuros profissionais conforme as exigências do mercado de trabalho; outro turno para pesquisar as transformações em processo, sintonizando-os com as tendências previsíveis na sociedade.

Por coerência, inclino-me a buscar o mito da Fênix para expor minha compreensão quanto às perspectivas que se apresentam ao ensino de jornalismo nesta conjuntura.

Durante 40 anos, desde a regulamentação da nossa profissão em 1969, vislumbramos um panorama que parecia estável. Mais do que isso: petrificado, pela garantia da reserva de mercado aos profissionais diplomados. A lei substituía o “vale tudo” estabelecido desde o início do século, reduzindo as oportunidades de acesso ao trabalho com carteira assinada somente aos jornalistas já registrados e àqueles que viessem a obter o registro, comprovando a formação universitária específica.

De repente, a inusitada decisão do Supremo Tribunal Federal, tornando inconstitucional a legislação em vigor, produziu uma reviravolta em nossa categoria, desconcertando mais ainda aos educadores dos futuros jornalistas.

Deixando de ser imperativo, o diploma de jornalista afigurou-se inócuo, ameaçando a existência dos próprios cursos. Sendo facultativa a posse do diploma, os vestibulandos pouco informados tendem a desistir da carreira. Por sua vez, os donos das escolas particulares regidos pelo imediatismo passam a cancelar os vestibulares, mesmo em instituições de qualidade, temerosos de enfrentar déficits orçamentários.

Diante dessa situação de pânico, temos que manter a prudência institucional, lembrando que o diploma de jornalista apenas deixou de ser obrigatório, mas não desnecessário. O Brasil vinha constituindo uma das exceções no panorama mundial, ao tornar compulsória a formação universitária dos profissionais contratados pelas empresas.

Apesar disso, no mundo inteiro, o ensino de jornalismo vem sendo demandado pelos jovens que pretendem ingressar na profissão. Justamente porque desejam obter competência laboral e prontidão cognoscitiva, fundamentais para disputar vagas no mercado de trabalho.

Felizmente, o empresariado tem valorizado a formação superior dos jornalistas. Mesmo aqueles diretores de veículos jornalísticos resistentes à obrigatoriedade do diploma têm declarado que vão priorizar a contratação de jornalistas diplomados.

O argumento é simples e consistente: as empresas não desejam regredir ao estágio em que formavam seus próprios recursos humanos. Obviamente, não renunciam à prerrogativa de recrutar candidatos pelo mérito, privilegiando os portadores de diplomas que atestam habilidades para a profissão.

Esta, aliás, já era a linha vigente na política de pessoal das empresas do ramo, tendo em vista que a mão de obra habilitada a ingressar na profissão inclui uma espécie de exército de reserva, pelo grande número de escolas existentes em algumas regiões. Apesar disso, os departamentos de RH das empresas consideram ilimitada a oferta de repórteres e redatores com prontidão para atuar nas seções de informação geral em comparação com o reduzido estoque de editores e chefes de reportagem capazes de dar conta de funções gerenciais nas editorias especializadas.

Tive oportunidade de ouvir e registrar essa queixa, ao percorrer as principais empresas jornalísticas durante a missão que me delegou o Ministro da Educação. Fui ouvir os anseios da sociedade, na presidência da comissão que elaborou as novas diretrizes curriculares para os cursos de jornalismo.

Certamente aqui está o ponto de partida para delinear as perspectivas do ensino no país. Trata-se de colocar em marcha uma estratégia realista, inspirada pelo mito da fênix, renascendo das nossas próprias cinzas.

Voltamos ao patamar delineado pela Fenaj em Curitiba, quando Luiz Beltrão estarreceu o plenário do congresso de 1953, defendendo a formação superior dos jornalistas profissionais.

Cumpro, aqui, a mesma tarefa que meu mestre desempenhou, há meio século, atualizando naturalmente sua proposta. Para corresponder aos anseios dos novos tempos, é inadiável ampliar a natureza da formação universitária dos jornalistas. Isso significa dizer: precisamos diplomar jornalistas habilitados pela graduação e pela pós-graduação.

A reivindicação de novos instrumentos legais para regulamentar a profissão deve ser abrangente, permitindo que tanto os egressos do ensino médio tenham oportunidades para aprender jornalismo na graduação quanto os portadores de diplomas em outras áreas do conhecimento tenham a chance de estudar jornalismo na pós-graduação, frequentando cursos de mestrado.

Sem esse tipo de abertura, não caminhamos em direção ao futuro. Trata-se de modelo experimentado há um século em outros países, que não podemos ignorar e tampouco resistir. Num caso ou noutro, a universidade continuará a ser fiadora da competência profissional.

Trata-se de estabelecer limites ocupacionais balizados por critérios cognitivos e não corporativos. Vamos reunir a persistência e a paciência de Sísifo à ressurreição e ao rejuvenescimento de Fênix.

* Professor titular da UMESP, professor titular aposentado da USP, presidente de honra da Intercom, presidente da Socicom, presidente da Confibercom e parceiro do Grupo de Pesquisa Cepos. Email: marquesmelo@uol.com.br.

Fonte: Revista IHU Online Edição 341

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Jornalista, teu sobrenome é coragem!

Por Celiana Quintiliano

Nos dias atuais, o jornalista não é mais visto como um intelectual, como ocorria no passado. O jornalista era visto como uma pessoa culta e preparada para passar à sociedade o que ela queria e precisava saber. Na ditadura, muitos jornalistas foram mortos por discordarem do regime e levantarem a bandeira em prol da democracia, o que trouxe uma credibilidade muito grande aos profissionais da área junto à sociedade.

Atualmente, o prestígio da profissão de jornalista vem caindo demasiadamente. Atuações infelizes de alguns profissionais da área trazem constrangimento e vergonha para profissionais sérios que levam à risca os preceitos éticos do jornalismo. A própria sociedade já vê com certa desconfiança o profissional de jornalismo, resultado da atuação de péssimos jornalistas que constituem a chamada imprensa marrom. Estes são especialistas em denegrir a imagem de personalidades, em passar informações construídas de acordo com o interesse do veículo e se preocupam perigosamente em manipular a opinião pública.

Como se o cenário citado acima não fosse suficiente, a profissão ainda sofreu um golpe muito duro no último ano. Em junho de 2009, o STF (Superior Tribunal Federal) decidiu que o diploma do curso de Jornalismo não seria mais necessário para o exercício da profissão. A decisão é extremamente perigosa, pois abre a possibilidade de que um profissional despreparado e com intenção duvidosa possa exercer o ato de informar.

Coragem para ser ético

O profissional de jornalismo é essencial ao exercício da democracia, já que, dentre outras, tem a função de informar o cidadão. O que saberíamos das facetas dos membros do Congresso Nacional se não fosse o jornalista? Este, apesar de imparcial, é formador de opinião, pois traz informação à sociedade, informação esta sofrida, suada, já que estes profissionais são tratados com desrespeito por alguns setores da sociedade.

O jornalista precisa ter coragem para exercer sua profissão de maneira digna, seja rejeitando pautas antiéticas, seja recusando-se a fazer reportagens que tenham como objetivo final denegrir a imagem de alguém desnecessariamente ou que tentem induzir a opinião pública, servindo assim a um jogo de interesses tão comum em nosso país. Ter coragem para ser ético faz a diferença e revela o profissional que você quer ser.

(Texto dedicado à professora Cintia Cerqueira Cunha)

Fonte: Observatório da Imprensa

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Jornalismo não é ridicularizar pessoas

Por Sérgio Spagnuolo

Como diferenciar o que é notícia do que é mau gosto? Parece fácil notar a diferença, mas um, por assim dizer, deslize, no portal Terra na sexta-feira (6/8), mostra o contrário. Em uma chamada do Terra TV, escancarada na home do portal, por um tempo o leitor pode visualizar a seguinte chamada: "Nervosa, namorada de Bruno faz xixi na roupa ao ser presa". Indispensável dizer da falta de seriedade jornalística nessa chamada infeliz.

Após pouco tempo no ar, a chamada da home foi modificada para "Namorada de Bruno tem reação inesperada ao ser presa". Igualmente indispensável notar que essa chamada induz o usuário curioso ao clique. Entrando no link, vê-se que a chamada continua lá, do jeito que estava antes.

No vídeo, um narrador, em off, fala dos infortúnios sobre a prisão da "namorada do Bruno". Nesta narração, consta o incidente do "xixi nas calças" como se fosse fundamental para uma matéria informativa, na qual a prisão da moça, Fernanda Gomes Castro, seria a notícia. Excessos da cobertura do chamado "Caso Bruno" à parte, este episódio merece um destaque especial não só por conta do extremo mau gosto e irrelevância da chamada e de certas informações do vídeo, mas também por demonstrar um "jornalismo" (assim mesmo, com aspas) que busca leitores não pela qualidade e agilidade, mas por ridicularizar pessoas.

Uma linha clara entre humor e jornalismo

Ora, até as paredes de qualquer redação séria sabem que não é o papel do jornalista ridicularizar pessoas, sejam elas culpadas, inocentes, corruptas etc. Não se pode confundir bom-humor com ridicularização. A revista piauí, por exemplo, tem um ótimo bom-humor em suas matérias sem ridicularizar ninguém, assim como as charges do Jornal da CBN de Heródoto Barbeiro. O papel da ridicularização é o do humorista, não do jornalista.

Bill Novach e Tom Rosentiel, no livro Os Elementos do Jornalismo, explicam muito bem, pelo menos na minha opinião, a função real da prática jornalística: "A principal finalidade do jornalismo é fornecer aos cidadãos as informações de que necessitam para serem livres e se autogovernar." Na mosca.

Não desmereço a importância do Caso Bruno, o qual demonstra sérias falhas de políticas públicas na defesa da mulher, na polícia, na relação dinheiro/poder e outras coisas. Mas a ridicularização não é parte do jornalismo e não se pode veicular algo que ridicularize alguém, ainda mais sem motivo algum, apenas para conseguir mais audiência. Não culpo as pessoas que, curiosas, clicaram no link para ver do que se trata. Não é o trabalho delas filtrar bem o imenso conteúdo do noticiário, especialmente o de internet. Como não sou leitor frequente do Terra, nem fico na internet caçando "notícias" como essa, não posso fornecer dados sobre a constância desse tipo de ocorrência. E creio que nem seja preciso, já que em apenas uma breve olhada aleatória na home do portal achei essa chamada.

O caso do Terra TV, contudo, não deve ser visto isoladamente. Todo dia programas de TV, sites e periódicos sensacionalistas – que se julgam jornalísticos – nada mais fazem do que exageros e ridicularizações de seus entrevistados ou alvos de piada. Não se trata de proibir esse tipo de coisa. Claro que não, as pessoas e entidades gozam de certa liberdade hoje em dia para tanto. Mas deve ser traçada uma linha clara entre o que é humor (mesmo que de mau gosto) e o que é jornalismo.

O "xixi" era um aborto

Nessa linha, a lei eleitoral n° 9.504/97, a qual, resumindo, proíbe emissoras de rádio e de TV de ridicularizarem candidatos às eleições, deveria ser mais específica e abrangente: proibir veículos, apenas em sua parte jornalística, de ridicularizarem quaisquer pessoas que sejam e traçar uma linha clara entre jornalismo e humorismo. Isso significa sair da lei eleitoral e entrar para uma lei de vigor nacional.

Veja bem, não há nada para impedir a liberdade de imprensa, de forma alguma, e sim, impedir que as pessoas sejam ridicularizadas gratuitamente por um dito "jornalismo de humor". Obviamente, não se deve extinguir o bom-humor de veículos jornalísticos, como charges, tiradas interessantes e até piadas, mas não absurdos como esse no Terra.

O humorista Helio de La Peña, no jornal Folha de S.Paulo de 8 de agosto de 2010, teve bons argumentos contra essa lei eleitora, como levar o humor ao eleitorado e não enfraquecer o debate pelo desinteresse da população com algo tão sério. Mas que tais argumentos sejam válidos para programas de humor, com essa clara definição.

Soube-se mais tarde que mulher do "xixi" teria sofrido um aborto, conforme informações de diversos veículos no fim de semana subsequente a esse vídeo. Engraçado, não?

Obs.: Atrás do "Fale conosco" do portal Terra, enviei uma mensagem sobre o tema, mas não obtive resposta.


Fonte: Observatório da Imprensa

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Otimismo com o futuro

Por Laurent Houssay

A imprensa mundial está se comportando melhor, segundo a Associação Mundial de Jornais (WAN), que demonstra algum otimismo, apesar de a circulação de jornais ter diminuído ligeiramente em 2009, por causa da crise econômica, com a queda das receitas de publicidade reduzindo o ritmo.

Um quarto da população mundial, 1,7 bilhão de pessoas, lê jornal todos os dias, segundo um relatório anual da associação. Se outros periódicos forem adicionados, 37% da população do planeta lê pelo menos uma publicação por dia.

Ano passado, a difusão de jornais sofreu uma queda de 0,8%, mas ao longo de cinco anos, as vendas de jornais aumentaram 5,7%. Menos jornais são comprados no mundo "desenvolvido", onde os meios de comunicação estão "maduros", segundo a WAN. "Por outro lado, a Ásia continua tendo um aumento significativo na disseminação, com alta de 1% em 2009 e 13% de crescimento nos últimos cinco anos", disse o relatório.

Na liderança, a Índia teve a alta mais forte das vendas com 110 milhões de exemplares vendidos por dia, seguida pela China (100 milhões) e o Japão (50 milhões). Na Europa, a Alemanha é a primeira colocada com 20 milhões de jornais comprados diariamente.

Na África, o mercado é particularmente dinâmico com uma alta média de 4,8% de vendas diárias.

Novos modelos

A Associação registrou 12.477 títulos de jornais em todo o mundo em 2009, um número em alta de 1,7% em comparação ao ano anterior. Esses títulos representam 517 milhões de exemplares vendidos por dia.

Se globalmente os jornais diários se apresentam um tanto ou quanto estagnados, as vendas de revistas registram um crescimento médio de 2,5%, apesar de um recuo marcado na África (-6,2%) e na América do Norte (-1,4%).

A Associação mostra-se mais otimista sobre a recuperação das receitas publicitárias, estimando, com base em estudos realizados pelos compradores do espaço, que um crescimento de 3,5% é possível em 2010. No ano passado, as movimentações publicitárias nos jornais haviam reduzido em 17%, apenas em um ano. Este colapso "reflete, em grande parte, o impacto da recessão internacional em todos os setores industriais".

No mundo, os jornais representam 24% do bolo publicitário, contra 39% para a televisão e 12% para a internet. Mas em termo de eficácia, a publicidade na imprensa escrita é a mais bem colocada: "os estudos parecem provar que a publicidade impressa é mais eficaz do que a publicidade na televisão e na internet".

A Microsoft também estudou a eficácia da publicidade nos meios de comunicação, observando que no Reino Unido "uma libra gasta em publicidade impressa corresponde a 5 libras de receita", enquanto que o retorno da publicidade televisiva é de 2,20 libras e 3,40 para a publicidade on-line.

Quanto ao futuro da imprensa diária, a WAN estima que será necessário pesquisar novos modelos econômicos, considerando que o fornecimento de serviços móveis é uma promessa mais interessante que o serviço "tradicional na internet".

"Os serviços móveis podem atingir 100% da população e a contratação dessa atividade está bem estabelecida na sociedade". O estudo relativiza, porém, considerando "necessário encontrar um modelo de publicidade", já que "aqueles que controlam os canais de distribuição mostram pouco ou nenhum interesse ao conteúdo" que constitui a informação.


Fonte: Observatório da Imprensa

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Agora, o desafio da sobrevivência

Por Leticia Nunes, de Nova York

A venda da Newsweek não foi surpresa – a intenção da Washington Post Company, empresa responsável pelo semanário desde 1961, havia sido anunciada em maio. Para quem acompanha a indústria jornalística americana, o suspense estava por conta de quem seria corajoso o bastante para querer se envolver em um verdadeiro problema. Os números não ajudam. Ao anunciar à redação que colocaria a revista à venda, o presidente da Washington Post, Donald Graham, citou "os números" como motivo: a Newsweek, segundo ele, havia perdido "milhões de dólares" nos últimos anos. O valor ficaria entre 30 e 40 milhões de dólares apenas em 2009.

No início desta semana, o anúncio da compra. O novo dono da Newsweek é Sidney Harman, 92 anos completados esta semana, magnata do setor de equipamentos de áudio. Aos 88, ele deixou o posto de executivo-chefe da Harman International Industries, mas continuou a lecionar administração na Universidade do Sul da Califórnia. Casado com a congressista Jane Harman, ele também participa da organização sem fins lucrativos de pesquisa de políticas públicas Aspen Institute, dirigida pelo ex-editor da Time Walter Isaacson, e joga golfe.

O processo de venda durou dois meses e meio, e durante este período Graham e o resto do conselho da Washington Post Company rejeitaram potenciais compradores que, acreditavam, mudariam o perfil editorial da revista ou fariam grandes cortes na equipe. De acordo com pessoas próximas à companhia, a oferta de Harman agradou porque ele prometeu manter boa parte dos 325 funcionários. Os detalhes financeiros não foram divulgados, mas há especulações de que o magnata pagaria o valor simbólico de US$ 1 e assumiria as significativas dívidas acumuladas nos últimos anos.

Desafio

Em uma declaração da Washington Post após o anúncio de compra, Harman afirmou que a Newsweek é um "tesouro nacional" e se disse ansioso para o "grande desafio jornalístico, administrativo e tecnológico" que terá pela frente. Na redação da revista, além da sensação de alívio, também havia ansiedade no início da semana. No mesmo dia da venda, Jon Meacham, editor da Newsweek pelos últimos quatro anos, anunciou sua saída. Disse ter sido um privilégio trabalhar ali, ressaltou a "cultura criada e mantida pela família Graham", e afirmou acreditar que a revista continuará a fazer um bom trabalho.

As expectativas de Harman ainda são um mistério. "Sempre pareceu claro para mim que a pessoa que comprasse a Newsweek teria uma razão egoísta ou emocional para fazê-lo – que não seria uma decisão puramente de negócios. Porque, se você olhar para os números, simplesmente não faria sentido", resume o professor de jornalismo Charles Whitaker, da Universidade Nortwestern, citado no blog Media Decoder, do New York Times.

Erros e acertos

A Newsweek passou por uma reformulação em 2009, quando começou a apostar mais em ensaios e narrativas longas, deixando de lado as notícias quentes. Partindo da ideia de que a revista "precisa mais do que dinheiro; precisa de um novo plano", o site Politico entrevistou funcionários e ex-funcionários, além de especialistas em mídia, para descobrir o que a salvaria.

A primeira conclusão é que a reformulação do ano passado foi um erro e que, por isso, a Newsweek deveria esquecer os longos artigos de opinião e voltar às notícias. Há quem defenda que a revista deveria voltar ainda mais no tempo, para quando foi fundada, em 1933, e cumpria a simples missão de fornecer aos leitores um panorama das notícias da semana anterior. Além disso, é preciso ver a internet como prioridade – o que, segundo alguns funcionários, Meacham não fazia – e investir no potencial das redes sociais.

Há ainda quem não acredite na sobrevivência da Newsweek – ou das revistas de papel em geral – e ache que não há solução possível. "As revistas não podem ser salvas", sentencia Greg Dworkin, editor do blog político Daily Kos. "As pessoas não as leem mais". Harman, novo no setor, admite que não tem um plano concreto.


Fonte: Observatório da Imprensa

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Interpretações de um termo controverso

Por Eugênio Bucci

Eu tinha acabado de concluir a graduação na ECA quando li O que é Biblioteca, escrito pelo meu professor Luís Milanesi. Um livro pequeno e essencial. Saiu pela Brasiliense, onde trabalhei por aqueles tempos. Eu me lembro bem do efeito que me produziu uma frase curta, que pareceu saltar da página para me bater na cara: "A imprensa no Brasil nasceu depois da censura". (O que é Biblioteca foi lançado em 1983. Tenho aqui comigo a edição de 1985, e a frase está lá, na página 29.) Dei com aquela oração de oito palavras e tive um baque. "Taí", pensei na hora. "Eis aqui um traço constitutivo na formação do Brasil." Hoje relativizo um pouco a minha primeira impressão: aprendi a duvidar dessas generalizações peremptórias e tenho mais cautela diante de conceitos por demais abrangentes como "o caráter nacional". Mesmo assim, a frase ainda faz parte das minhas lembranças, por assim dizer, fortes.

Não considero que essa contingência – a censura ter aparecido cronologicamente antes da imprensa – tenha definido um pendor autoritário, para todo o sempre, no tal "caráter brasileiro". De uma forma ou de outra, em quase todos os países, com exceção daqueles que viveram rupturas mais nítidas, como França ou os Estados Unidos, a imprensa e o poder tiveram de negociar espaços indefinidamente. Nem por isso, esses países fincaram pé na intolerância eterna. Portanto, não quero aqui absolutizar, de modo algum, essa particularidade brasileira. Nem se pode exagerar o peso da contingência de que falo agora, nem somos uma nação de intolerância contumaz. Mesmo assim...

A corte chega ao Rio

Vejamos um pouco mais de perto como foi essa história da censura que veio antes da imprensa. Sabemos que, antes de 1808, como colônia, as terras brasileiras não podiam hospedar nenhuma tipografia nem qualquer coisa que fosse parecida com isso. O panorama sofreu uma grande mudança com a vinda da corte portuguesa de Lisboa para o Rio de Janeiro, em 1808. Nos primeiros meses daquele ano, a burocracia estatal da Coroa se transplantou para as praias cariocas. Com a burocracia, veio a legislação censória. Ou seja: a censura se estabeleceu aqui antes do lançamento do diário oficial de D. João (A Gazeta do Rio de Janeiro), que surgiu em setembro de 1808, e também antes do lançamento do Correio Braziliense, que saiu do prelo um pouco antes, em junho do mesmo ano.

O Correio Braziliense é considerado o marco inaugural da nossa imprensa. A Gazeta nasceu mais tarde e, além disso, era um órgão estatal e governamental, não poderia ser classificada como veículo jornalístico. O Correio, sim, era uma voz crítica e independente. Seu editor era Hipólito da Costa, uma inteligência crítica, sem a menor dúvida. Brasileiro nascido em terras hoje uruguaias, Hipólito foi viver em Portugal e, lá, exerceu o cargo de Diretor da Junta da Imprensa Régia. Sua carreira sofreu um revés em 1802, quando ele foi preso pela Inquisição, acusado de integrar a maçonaria. Para sorte da imprensa brasileira, ele conseguiu fugir das grades e se exilar na Inglaterra em 1805. Três anos mais tarde, criou o seu jornal, que se manteve até 1822, sempre impresso em Londres.

Produto do exílio

Além da censura geral, aquela que valia para todos e que obrigava qualquer publicação a ser previamente examinada pelas autoridades antes de obter permissão para circular, o Correio foi nominalmente proibido, em especial e em definitivo. O veto específico vigorou entre 1809 e 1822. Mas, graças aos préstimos do contrabando, alcançou seus leitores nestas plagas. Muitos leitores – entre os quais, o próprio rei, que impunha a lei da censura e, no recôndito das informalidades nacionais, desobedecia a si mesmo. A ambigüidade das relações entre o poder e a imprensa, aliás, nascia aí, como marca registrada desta terra.

Creio que Alberto Dines, um estudioso da vida de Hipólito da Costa, concordará comigo se eu disser que, além de nascer depois da censura, a imprensa no Brasil também nasceu no exílio. Isso mesmo, no exílio. Se não tivesse se refugiado na Inglaterra, Hipólito teria sido preso de novo. O exílio era um pré-requisito de sua liberdade. É certo que, depois, ele se recomporia com D. João, e se pacificaria de vez com o Estado brasileiro após a proclamação da independência: quando morreu, em 1823, aos 49 anos, em Londres, tinha acabado de aceitar um posto diplomático que lhe fora oferecido pelo governo brasileiro, já sob o comando de D. Pedro I. Mas isso não muda o fato histórico: foi no exílio que, ao longo de 175 números, existiu o primeiro jornal da nossa história.

Cai bem aqui uma referência bibliográfica. Então, vamos lá. O jornalista Laurentino Gomes conta essa história em 1808 (São Paulo: Planeta, 2007, p. 136). Há muito mais em A longa viagem da biblioteca dos reis: do terremoto de Lisboa à independência do Brasil, de Lilia Moritz Schwarcz (São Paulo: Companhia das Letras, 2002). Além, é claro, da edição comemorativa dos 200 anos do Correio Brasiliense organizada por Alberto Dines para a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, em 2008.

Censuradinha básica – só para prevenir

Essas marcas de nascença – a censura que vem antes e o exílio como sede da redação – inseminaram a nossa cultura oficial. Não a determinaram, por favor: a relação aqui não é de determinação. Mas, sem dúvida, muito provavelmente, exerceram aí uma inspiração, uma influência. Desconfio que esse tipo de providência preventiva, como censurar por antecipação, passou a habitar o "piloto automático" do poder em relação ao debate público, mesmo que depois, ali, na informalidade, a autoridade se permita afrouxar um pouco o freio. Penso nisso ainda hoje, quando vejo magistrados que atendem pedidos de impor censuras prévias a órgãos jornalísticos. Na dúvida, bem, na dúvida é melhor dar ali uma censuradinha básica. Só para prevenir. Como eu já disse, não quero aqui localizar o nosso "caráter nacional", mas a permanência dessa ilusão – a de que o controle prévio sobre a manifestação das idéias seria capaz de nos abrigar em segurança e conforto – não deixa de ser um componente bem peculiar do nosso modo de viver em sociedade.

Tenho repetido – e isso me cansa um pouco, assim como há de cansar ainda mais os leitores que generosamente me acompanham – que, à esquerda e à direita, os agentes políticos desta nossa terra cultivam apaixonadamente essa ilusão. A idéia de que a comunicação social é uma ferramenta do poder – ou contra o poder – e não uma instância de diálogo entre cidadãos livres é muito profunda entre nós. Muito mais profunda do que gostamos de admitir. A obrigatoriedade de retransmissão do programa A Voz do Brasil, defendida ferrenhamente por parlamentares de esquerda e de direita, tem a ver com isso. Essa expressão, controle social dos meios de comunicação, também tem a ver com isso. Por meio dela, o velho impulso de controlar tudo volta à cena.

Amontoado de caixas pretas

Eu lembro bem – isso aconteceu um pouquinho depois da volta de D. João VI a Portugal, aconteceu ali por volta de 1980, 1990 – quando começamos a falar nesse tal de controle social dos meios de comunicação. O que é que se queria dizer com essa expressão? Era simples, claro, óbvio. Controle social dos meios de comunicação significava um regime de transparência e impessoalidade na condução dos processos de concessão de canais de rádio de televisão, pelo poder público, a particulares. Naqueles tempos, o Ministério das Comunicações era um amontoado de caixas pretas. Era impossível saber quem era dono de que concessão, por que período, com que abrangência geográfica, desde quando e até quando. Era tudo secreto. Estatal e, ao mesmo tempo, secreto. A coisa era pública, mas o controle sobre ela era inteiramente sigiloso, totalmente privatizado pelos burocratas em entendimentos promíscuos com políticos e empresários do setor (não raro, políticos e empresários do setor ao mesmo tempo). Há quem diga que pouca coisa mudou desde então. Às vezes me parece que pouca coisa mudou de fato, mas não vou agora lavar essa roupa suja uma vez mais. Sigo adiante. Estou aqui num diletantismo etimológico – não estou fazendo crítica do Ministério das Comunicações.

Naqueles tempos, falar em controle social significava afirmar o princípio de que a sociedade tinha o direito de saber e de controlar, democraticamente, os negócios de concessão, mais ou menos como a mesma sociedade controla os governantes, ao menos em parte, por meio das eleições (as eleições, nesse sentido, são uma forma de controle social sobre o exercício do poder), ou como a tramitação dos projetos de lei no Legislativo segue ritos que asseguram fiscalização e acompanhamento transparente desses projetos pelos representantes do povo e, muitas vezes, pelos cidadãos, diretamente.

Enfim, controle social queria dizer isso: controle da sociedade sobre os negócios mal explicados que se escondiam em escaninhos obscuros de um Estado opaco e labiríntico. O controle social seria a força contrária ao controle indevido da radiodifusão exercido por mãos ilegítimas e mesmo ilegais.

Pequena confusão


Mas os tempos foram mudando. Mudaram e mudaram. O sentido dessa expressão se perdeu. O significado da expressão controle social dos meios de comunicação também foi mudando, mudando, sem que a situação original contra a qual ela surgiu mudasse no mesmo ritmo. Recentemente, há quem fale em controle social querendo dizer nada menos que controle oficial sobre os conteúdos de jornais, revistas e emissoras. Isso nada mais é que censura, mas alguns passaram a entender isso aí por controle social. Dizem algo como "deixa que o governo de esquerda vai lá e faz um controle social em cima deles e aí eles vão ver o que é bom pra tosse". Ora, se controle social passou a significar controle oficial do que as pessoas dizem, em blogs ou em grandes redes nacionais de televisão, estamos todos fritos – e controlados. Mas tem gente que quer precisamente isso.

Há também aqueles que acham que controle social é uma assembléia permanente dos movimentos sociais organizados, algo por aí, ditando normas sobre o que pode e o que não pode ser veiculado nos tais dos meios de comunicação. Claro, claro, com a bênção da mão bruta do Estado que herdamos de D. João. O controle social, nesse caso, virou sinônimo de controle sindical. Onde os movimentos supostamente organizados da sociedade supostamente civil dão todas as cartas, os milhões e milhões de cidadãos desorganizados estão fritos – e controlados. Mas tem gente que quer também isso, ardentemente.

Cabe à sociedade, não ao governo

Oh, pá, já escrevi muito e estou com preguiça – e a minha preguiça, toda ela, também é culpa de D. João VI. Tudo bem: é culpa, do mesmo modo, de Macunaíma e dos ensandecidos que acreditavam na essência do caráter nacional – ou na essência da falta dele. Estou com preguiça. Mesmo assim, ainda tenho fôlego de dizer que é preciso tomar cuidado.

Controle social dos meios de comunicação pode querer dizer o oposto daquilo que já significou um dia: o oposto de transparência, o oposto de impessoalidade, o oposto de liberdade. Controle social pode querer dizer mais opacidade, mais partidarismo, mais desmandos, mais cartel, mais clientelismo e mais, muito mais patrimonialismo (com um figurino sindicaleiro). Se os tais meios de comunicação não se comportam direitinho, lá vai o governo e dá uma "democratizada" neles, preventivamente, aplica-lhes um "controle social" na veia. É uma sandice. Em nenhuma hipótese, os meios de comunicação deveriam ser da competência de governos. O mercado da radiodifusão, sim, pode ser objeto de regulamentação, por lei, e de regulação, por agências específicas, mas a presença do governo no controle de conteúdo é, em qualquer hipótese, desastrosa. Não por acaso, num texto de 1994, sobre a democracia dos meios de comunicação, eu mesmo escrevi que "não se deve esperar de um governo a mudança desse quadro" [o quadro desequilibrado de distribuição dos canais de rádio e televisão e as distorções de conteúdo que daí decorriam]. Eu dizia que a adoção de regras democráticas para o setor seria uma obra da sociedade, não do governo. E escrevi mais: "Seria uma utopia totalitária esperar isso de um governo." Pois hoje, aqui e ali, a gente vislumbra indícios de que um ou outro ainda acalentam utopias totalitárias. É tenebroso. Se controle social for isso...

Tudo é tudo e nada é nada


Mas, afinal, o que é mesmo que quer dizer essa expressão, controle social dos meios de comunicação? Não dá mais para saber. Ela foi se tornando inútil, esvaziada, morta. Cada um dá a ela o sentido que bem entende, e, quando a coisa chega nesse nível de imprecisão, a gente acaba caindo naquela filosofia de Tim Maia, na qual tudo é tudo e nada é nada.

Pelo sim pelo não, desse controle social aí, esse que quer dizer controle oficial, e também desse que quer dizer controle sindical, desse aí a democracia está fora. Um pouco de desconfiança é de bom tom. Esse discurso que posa de esquerda mesmo na boca de quadros notórios da ditadura militar – vivemos um tempo em que até José Sarney anda declarando que "a mídia se tornou inimiga das instituições representativas", ele mesmo, José Sarney, cuja família é dona de um grupo de mídia nada desprezível, nada alternativo – pende mais para a autoridade que controla do que para a sociedade que critica. É mesmo bom desconfiar quando alguns agentes políticos que saem falando muito testosteronicamente em controle social pretendam apenas intimidar os críticos. Preventivamente. Não esqueçamos que, em nossa cultura de Estado, nós abrigamos a censura antes mesmo de abrigar a imprensa.

São tempos ingratos. Ninguém mais precisa ir para o exílio para criar um jornal, é verdade. É que hoje o exílio não é geográfico: ele é simbólico.

Fonte: Observatório da Imprensa

quinta-feira, 22 de julho de 2010

A morte lenta de um jornal agonizante

Por Lilia Diniz

Na semana passada, o Jornal do Brasil anunciou mais um capítulo da sua lenta agonia. Após 119 anos de história, deixará de sair em papel. A partir de primeiro de setembro, manterá apenas a versão online. A notícia não chegou a ser uma surpresa. Há décadas, o jornal enfrenta uma grave crise financeira. Aquele que foi o jornal mais influente e copiado do Brasil entre as décadas de 1950 e 1970 atualmente tem uma tiragem de apenas 20 mil exemplares. O passivo acumulado é estimado em R$ 800 milhões, a maior parte em dívidas trabalhistas e fiscais.

Alberto Dines recebeu três jornalistas no estúdio do Rio de Janeiro: Ana Arruda Callado, Ricardo Noblat e Wálter de Mattos Jr. Escritora e professora universitária, Ana Arruda é doutora em Comunicação e Cultura pela UFRJ. Presidiu o Conselho Estadual de Cultura, foi vice-presidente da ABI e presidente do Conselho Administrativo. Noblat é jornalista há 43 anos, sendo 28 destes dedicados à cobertura política. Atualmente tem uma coluna semanal no jornal O Globo e mantém um blog na Internet que é um dos mais visitados no Brasil, o Blog do Noblat. Wálter de Mattos Jr. é diretor-presidente e criador do diário esportivo Lance!, o primeiro jornal nacional de esportes do país e, atualmente, o maior veículo do segmento esportivo na América Latina.

Antes do debate no estúdio, na coluna "A Mídia na Semana", Dines comentou a trágica morte do menino Wesley Gilbert Rodrigues de Andrade, atingido no peito por um tiro de fuzil dentro da escola durante uma operação da polícia militar no Rio de Janeiro (16/7). A escola de Wesley figurou em uma série de matérias publicada no mês passado pelo jornal O Globo sobre colégios em áreas de risco. "A série de reportagens ‘O x da questão’ pretendia fugir das estatísticas, dar nome e rosto às crianças que vivem na terra de ninguém. Como jornalismo foi perfeita. Como presságio foi tragicamente correto", avaliou.

Profissão romântica


Ainda antes do debate ao vivo, em editorial, Dines disse que a frieza com a qual a mídia tratou o caso do JB é o símbolo de uma transformação. "A imprensa abdicou das emoções porque aceitou transformar-se numa indústria tão transcendental quanto uma fábrica de biscoitos", censurou. Para Dines, escolhas políticas contribuíram para o declínio do jornal. "A amizade mais perniciosa foi com Delfim Netto, que estimulou o jornal a endividar-se pesadamente para financiar uma faraônica sede e os novos equipamentos. Este elefante branco atropelou o resto dos escrúpulos e entregou o jornal a um empresário que não lê jornais e detesta jornais, exceto jornais moribundos que arrenda a preço de banana", criticou.

A reportagem exibida pelo Observatório contou a história do jornal. É em meio à agitação política no país que deixava a monarquia para se tornar uma República, que Rodolfo Dantas funda o Jornal do Brasil. Defensor do antigo regime Liberal, o novo periódico é lançado em 1891. Entre os diretores do jornal nos primeiros anos constavam nomes como Joaquim Nabuco e Ruy Barbosa. Em 1905, adota uma linha editorial voltada para o noticiário do cotidiano da cidade. As dificuldades financeiras levam o JB a ocupar a primeira página só com anúncios classificados – e por esta razão ele ganha o apelido de "jornal das cozinheiras".

Em 1953, morre o Conde Pereira Carneiro e sua viúva, Maurina Dunshee de Abranches, assume a direção. Manoel Francisco do Nascimento Brito, genro e representante da condessa Pereira Carneiro, adquire novo equipamento gráfico e lança a idéia de reformulação do jornal. A partir de 1956, a forma de apresentar a notícia muda radicalmente. Saem os fios que separam as colunas de texto, diminui o espaço dos classificados e a fotografia passa a ser publicada na primeira página. O poeta Ferreira Gullar, que fez parte da equipe que reformou o jornal, contou que o Suplemento Dominical – ponto de partida das mudanças – era totalmente inovador. "Tinha uma paginação inteiramente revolucionária", relembrou.

Os anos de chumbo

Durante a ditadura militar, o Jornal do Brasil não vê no general Costa e Silva condições de impedir o endurecimento do Regime, logo comprovado com a decretação do AI-5, que mereceu total repúdio. A edição que anuncia o recrudescimento do regime, em dezembro de 1968, entra para a história da imprensa. Através de sutilezas imperceptíveis para os censores, consegue informar aos leitores que está sob severa vigilância. No início da década de 1970, JB e O Globo protagonizam uma vibrante disputa. Roberto Marinho passa a publicar O Globo também aos domingos e briga por espaço com o concorrente. Em represália, Nascimento Brito começa a sair às ruas às segundas-feiras. Logo depois, os classificados são o alvo da disputa. O JB saiu na frente mas, em 1976, O Globo derruba sua liderança no mercado de anúncios.

Os anos 1970 marcam o declínio do JB. Erros de gestão e falhas de planejamento estratégico levam a dificuldades financeiras incontornáveis. No final da década anterior, os proprietários do jornal decidem construir uma nova sede. Com a obra, a empresa endivida-se em dólar. O novo prédio é projetado para abrigar todas as marcas do grupo, incluindo o canal de televisão. "O jornal fez um empréstimo grande para terminar o prédio. Este empréstimo coincidiu exatamente com o pior momento da vida brasileira. Essa dívida passou a crescer porque o jornal, com a mudança, teve que fazer uma porção de outras despesas. E foi aí que a dívida ficou impagável porque a inflação não perdoa", explicou Wilson Figueiredo, que foi vice-presidente do JB.
Em 1973, o jornal muda-se para a nova sede. "A imponência e a dimensão daquele prédio correspondiam a um certo sentimento de grandeza inexplicado do dr. Nascimento Brito e, na verdade, aquilo não se tornou a sede do Jornal do Brasil, mas o mausoléu", disse Maurício Azêdo, ex-redator do JB e presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Wilson Figueiredo considera que naquele endereço o diário teve o seu momento de grandeza, esgotou suas possibilidades, não foi capaz de superar-se e "morreu".

Começo do fim

Nos anos 1980, o JB ainda conserva parte do vigor editorial do passado, mas as crescentes dívidas já afetam a publicação. No final da década de 1990, a empresa entra em colapso financeiro. Ex-colunista do jornal, Ancelmo Gois relembrou que este foi um período muito conturbado da economia nacional com inflação alta e diversos choques econômicos e cambiais. "Várias empresas familiares de grande porte também naufragaram naquele período", ponderou. Em 2001, o montante das dívidas gira em torno de R$ 700 milhões. Os acionistas do JB arrendam a marca para a Companhia Brasileira de Multimídia, controlada pela Docasnet, de Nelson Tanure, por cerca de R$70 milhões.

"Nessa última fase do Jornal do Brasil exercitaram naquele jornal o conceito de que informação é commodity e aí fizeram um jornal amesquinhado. Era feito dentro de um conceito onde você ia buscar informação dentro da internet. Essa informação era rala e os leitores estava acostumados a informação com densidade", avaliou Arnaldo César, ex-editor de Economia do JB. Em 2006, o diário adota o formato berliner. "O formato atual não é ruim, e até bom para um jornal novo. Mas não para um jornal que tem uma história gráfica, editorial e ética como o Jornal do Brasil. Virou um jornaleco", disse Reynaldo Jardim, um dos precursores da reforma do JB. "E feio. Não tinha nada a ver com aquele jornal que existia", completou Ferreira Gullar.

Ao final da reportagem, os entrevistados avaliaram as consequências para o mercado do Rio de Janeiro. "O leitor perde. É melhor uma cidade com muitos jornais do que com poucos jornais. Isso é melhor em qualquer circunstância, em qualquer lugar do mundo", advertiu Ancelmo Gois. "O Jornal do Brasil, ao sair do mercado de impressos e se concentrar no mercado eletrônico – e eu acho que o jornal vai fazer isso única e exclusivamente para a manutenção da marca e não para exercer um jornalismo, de fato, na internet... Esse é o buraco que o Jornal do Brasil deixou. E eu acho que existe hoje no mercado do Rio de Janeiro um espaço para uma publicação com informação qualificada", disse Arnaldo César.

Esvaziamento do Rio

O Observatório exibiu uma entrevista com Franklin Martins, ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social, que falou sobre o fim da edição impressa do JB na qualidade de jornalista. "Ele tinha as suas opiniões, muitas vezes eu não concordava com elas, mas era um jornal que não agredia o leitor querendo impor as suas opiniões. Um jornal que tratava o leitor com respeito e inteligência, e sempre dizendo a ele: ‘essa é informação que eu estou te dando, mas você pode ir além dela’", disse. Franklin Martins explicou que o Rio de Janeiro já teve uma imprensa plural e que o caso do JB é "apenas o exemplo mais dramático" do esvaziamento da mídia carioca.

"A indústria da comunicação se tornou uma indústria muito pesada, com custos muito altos", sublinhou. Por outro lado, o jornalista acredita que a digitalização e a internet abrem possibilidades para um "contra-fenômeno", uma vez que reduzem bruscamente os custos de produção de um jornal. "Dois terços dos custos de um jornal são dedicados a papel, circulação e administração correspondente a isso. Ou seja, o negócio central, o coração do negócio da imprensa, que é a redação, é responsável mais ou menos por um terço do jornal. Talvez os jornais atuais sobrevivam ainda com uma edição em papel ao lado de uma edição eletrônica, mas a tendência em longo prazo é a de se caminhar para um jornal eletrônico", disse.

A digitalização, ao baratear os custos de produção, abre possibilidades em médio prazo de surgimento de publicações eletrônicas "mais baratas que talvez não tenham que pertencer a grandes grupos". Este fenômeno está em curso em diversos países, não só no Brasil. "Talvez a gente possa voltar um pouquinho à época heróica do jornalismo, quando ele era mais plural, dava menos palpite, se preocupava mais com o leitor, em dar informação", avaliou.

Escola de jornalismo

No debate ao vivo, Ana Arruda Callado – a segunda repórter do Jornal do Brasil –lembrou que o jornal conhecido como "o jornal das cozinheiras", depois da reforma, transformou-se no "mais charmoso, importante e bem escrito do país". Ana chegou ao JB em 1958, quando ele passou a publicar fotografias na primeira página. "Era o jornal modelo deste país. Dines falou na abertura do programa em ‘profissão romântica’. Nós éramos românticos. Nós adorávamos o jornal como se fosse nosso", contou. Durante as viagens pelo JB, Ana era interpelada por repórteres de todo o país, ávidos por saber detalhes sobre os bastidores do jornal.

Ricardo Noblat, que trabalhou nas sucursais do JB no Recife e em Brasília, disse que o Jornal do Brasil era uma meta que a maioria dos jornalistas fora do eixo Rio-São Paulo aspirava. "Era a escola onde todos gostariam de trabalhar", disse. Noblat contou que nos tempos áureos o JB funcionava como um jornal, de fato, nacional. A sucursal de Recife, por exemplo, chegou a contar com seis repórteres. "O jornal procurava refletir tudo o que de importante acontecia no país. Então, não só tinha uma rede extensa de sucursais, como de correspondentes. E olha que eu estou falando em uma época em que a gente mandava matéria por telegrama ou malote", relembrou.

Para o empresário Wálter de Mattos Jr, o jornalismo em papel no Rio de Janeiro caminha para um tom monocórdico. "Você tem alguns jornais populares que cumprem um papel importante, mas nesse segmento do quality paper você ficou com um jornal. E isso limita bastante", analisou. Já em outras plataformas, como a internet, o padrão de competitividade é "extraordinariamente alto". "O Rio está muito mais pobre, mas não é de hoje. A gente está falando de um réquiem que começou a ser tocado há muito tempo", lamentou.

Fonte: Observatório da Imprensa

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Os desafios da experimentação

Por Valério Cruz Brittos e Aléxon Gabriel João

Falar em jornalismo online é entrar numa arena complexa que perpassa a atividade jornalística em seu conjunto, na medida em que hoje é socialmente estruturante. Isso porque, atualmente, as tecnologias de informação e comunicação formam as novas bases da notícia, sendo necessário que o profissional de comunicação conheça todas as ferramentas, a fim de aplicá-las de forma correta, sem cair na vala comum da fragmentação noticiosa ou da superficialidade informativa. Mais do que isso, deve dominá-las para inovar.

Vive-se um momento de passagem de um modelo que imperou por décadas, unidirecional, vertical e centralizado, para outro, multidirecional, horizontal e descentralizado, que traz incerteza e até mesmo insegurança de modos de fazer e do papel do jornalismo num mundo de multidisseminação informativa. Se for impossível traçar um perfil do cenário da atividade jornalística a ser descortinado, pode-se visualizar a aceleração do processo de mudança de hábitos e valores que está acontecendo na prática comunicacional.

Durante muito tempo, as grandes empresas de comunicação trafegaram por um terreno sólido. As estratégias empresariais adotadas eram estáveis e traziam virtuosos dividendos a empresários, associados e grandes famílias proprietárias de megaempresas midiáticas. Há uma grande dificuldade em assumir essa transição, pois fazê-la significa admitir também suas imprevisibilidades e a fragilidade das estratégias operacionais que, mesmo quando exitosas, devem ser logo alteradas. Geram resultados econômicos mais favoráveis os grupos empresariais com maior capacidade adaptativa e de rentabilizar seus arquivos.

Qualidade, a palavra-chave

Neste quadro, a experimentação ganha novo papel, essencial em toda atividade econômica, em especial àquelas vinculadas à cultura, como o jornalismo. Isso requer superar a associação com a possibilidade de erro, que impera não só no sistema de comunicação industrial, mas também nas iniciativas alternativas, as quais, não raro, reproduzem o modelo hegemônico. Tecnologias, equipamentos e máquinas constantemente atualizam-se em tempo recorde, mas os valores individuais e coletivos levam tempo para serem mudados. Por isso a necessidade de se observar esse momento como de (mais uma) transição de modelos.

Com o avanço da internet e a proliferação de espaços midiáticos, mudanças logo geram novas mudanças. Contudo, o que não deve sofrer alteração é a qualidade do que é publicado na web. Qualidade parece ser a palavra-chave nessa era tecnológica, relativizando-se valores seculares do jornalismo, como objetividade, transparência, atualização, veracidade, imparcialidade, fidelidade e isenção, por motivações que passam por condicionamentos econômico-políticos. Mas a qualidade informativa pode surgir revigorada, ante a quantidade sem precedentes de fontes informativas que hoje podem ser acessadas.

Um mesmo fato, inúmeras interpretações


Para isso, é necessário investimento e capacidade de inovar, não o tradicional uso das tecnologias para reduzir o tamanho das redações. Ao profissional de comunicação exige-se um olhar atento e criterioso para essas mutações que, de certa forma, estão impactando o perfil do profissional e seu papel de mediador junto à sociedade. Capacitação e qualificação devem constantemente fazer parte do dia-a-dia do jornalista, o que requer formação universitária sólida, e não flexibilização geral do mercado para desenvolvimento de aventuras.

Frente às novas versões, enfoques e contextos, o que era considerado permanente está se desfazendo. É uma consequência quase irreversível que afeta, da mesma forma, outros setores da vida humana, provocada pela introdObução e sofisticação tecnológica, ainda que o plano informativo seja um dos setores mais comprometidos. Um mesmo fato pode ser transformado em notícia e difundido por diversos veículos de comunicação, tendo inúmeras interpretações. Isso além de outras construções que o fato recebe, com abordagens não-profissionais, cujo compromisso deve ser questionado, assim como o das indústrias culturais.

Fonte: Observatório da Imprensa

terça-feira, 20 de julho de 2010

O jornalismo está doente

Por José Coelho Sobrinho

Há um texto que trata de relatos jornalísticos – cuja leitura deveria ser mais difundida entre os profissionais e estudantes da área – que, ao referir-se à narrativa jornalística, afirma que a ela "faz falta o juízo, a mais exímia qualidade do intelecto, para que, por meio dele, as coisas dignas de crédito sejam separadas dos rumores infundados que se fazem correr: as leves suspeitas e as coisas e ações diárias sejam separadas das coisas públicas e daquelas que merecem ser contadas. Este juízo faltou em outros tempos, sobretudo aos monges, assim como a muitos escritores, ou seja, aos autores das crônicas, e também falta frequentemente aos redatores de periódicos quando procuram falar de banalidades e minúcias e omitem o que seria útil e fácil de ler, envernizam com documentos o que ouviram dizer por outros e, por fim, quando não têm coisas exatas, fazem passar por história as suspeitas e conjecturas dos outros".

Esse comentário, extraído de oportuna tradução de Paulo Rocha Dias, poderia ser aplicado a boa parte das coberturas jornalísticas de hoje. Entretanto, ele foi escrito em 1690 por Tobias Peucer e faz parte da primeira tese sobre jornalismo de que se tem notícia.

Os rumores infundados, os fatos que não merecem ser contados, a omissão do útil, a imprecisão dos relatos e outras impropriedades que impedem o bom jornalismo puderam ser testemunhadas por todos aqueles que acompanharam a cobertura televisiva da Copa do Mundo de futebol vencida pela Espanha. Foi possível constatar que as emissoras de televisão não preparam os seus enviados para fazer uma cobertura jornalística competente, apesar de todas as equipes se auto-intitularem de "jornalismo esportivo". Faltou pesquisa, curiosidade, empenho e coordenação à maioria delas.

Jargões sem nexo

Boa parte dos repórteres e narradores demonstrou não ter conhecimento da organização política da África do Sul e, por isso mesmo, não conseguiu identificar as suas capitais (Cidade do Cabo, Pretória e Bloemfontein). Johannesburg foi informada a milhões de espectadores brasileiros como sendo a cidade que centraliza todos os poderes políticos constituídos do país. A tardia retificação foi feita fora de contexto e, possivelmente, talvez tenha passado desapercebida.

As referências à cultura sul-africana foram lamentavelmente pobres. A maioria dos jornalistas de televisão concentrou comentários e informações em costumes locais sem contextualizar a formação dessas práticas, mas fazendo comparações indevidas com paradigmas de procedência estranha às onze etnias da África do Sul. O polígamo presidente Jacob Zuma, da etnia zulu, por exemplo, foi inspiração para muitas piadas dos comunicadores brasileiros, que ofereceram aos telespectadores uma visão distorcida da organização social e formação étnica das várias nações daquele país.

A contextualização também esteve ausente quando foram tratados os problemas sociais dos sul-africanos. Alguns profissionais parecem não ter arredado pé do hotel em que se hospedavam e do centro de imprensa. Pela exaltação ao fim do apartheid feita por alguns jornalistas, parece que negros e brancos convivem em perfeita harmonia no país; que os problemas de violência foram solucionados e que a educação é direito de todos.

Para a maioria das emissoras, principalmente para os canais abertos, o fato jornalístico relacionado à Copa do Mundo ficou restrito às partidas de futebol. Algumas matérias desses canais cumpriram a aventura de falar (superficialmente) sobre certos dados periféricos ao jogo, mas nada que viesse aprofundar o conhecimento do telespectador em relação a um mundo que não faz parte de seu horizonte.

Os equívocos desse "jornalismo esportivo" não ficaram somente na falta de conhecimento e de sensibilidade dos profissionais. Ele se agravou com a substituição de jornalistas por jogadores e ex-jogadores que foram elevados (ou rebaixados) à categoria de "comentaristas esportivos". Alguns desses novos cronistas, efetivados na função, tentam criar jargões e os repetem à exaustão: "É brincadeira"; "É um cracaço"; "Está na minha seleção"; "Deu de três dedos". A inclusão de um ou mais desses jargões nas falas ocorre, em boa parte das vezes, sem o menor nexo com o tema. Encobre a falta de repertório linguístico e raciocínio lógico.

Alguns trabalhos salvaram o jornalismo

Para valorizar a presença do ex-atleta como comentarista ou repórter foram criados codinomes que lembram a sua passagem pelos campos ou qualificam a sua atuação nessa nova função: "o craque Fulano"; "Sicrano show", "Beltrano, o completo" e outras individualizações desnecessárias à profissão. Ao contrário do que se justifica, a presença dessa nova geração em nada contribui para a cobertura jornalística do fato porque os seus comentários são redundantes à narração e à imagem, pois não extrapolam a jogada. Na falta de lances dúbios, que são os verdadeiros motivos da existência desses comentaristas durante as transmissões dos jogos, são forçadas situações para levantar hipóteses e gerar polêmicas. Essas situações tipificam as banalidades e minúcias de que falava Peucer. Em outras palavras, esse tipo de cobertura não é considerado jornalismo desde o final do século 17.

E o jornalismo, depois da Copa, não ficou impune. Alguns desses olimpianos do esporte promovidos a jornalista permanecerão na tela. Na avaliação das emissoras, eles conseguiram cooptar o público, mesmo construindo frases como: "Quando eu era jogador eu se esforçava...."; "A gente fizemos muitos treinos..." e outras construções linguísticas semelhantes.

Mas a cobertura da Copa não ficou, felizmente, restrita a essas barbáries. Em meio a toda banalização do jornalismo, surgiram algumas boas matérias. Uma entrevista feita em Orânia – uma pequena cidade habitada somente por brancos – foi emblemática como referência ao preconceito racial que ainda existe na África do Sul. O bom jornalismo também foi marcado por entrevistas com um guia do Museu do Apartheid e um membro da Igreja Reformada Holandesa, que apoiou a segregação e hoje é um dos baluartes em favor da convivência pacífica entre brancos e negros. Matérias sobre o Soweto: com lideranças comunitárias desse distrito negro; com líderes (brancos e negros) da luta contra o apartheid, ajudaram a salvar o jornalismo transmitido pela televisão durante a Copa. E foram feitas por jornalistas de profissão.

Aprovação bem-vinda

O saldo da cobertura revela que o jornalismo está enfermo. E a enfermidade parece estar agravada por uma profunda crise de identidade. Em determinados programas o doente satisfaz a máxima atribuída a César: "Ad populum panis et circensis." Em outros, transforma o "jornalista" em bufão do Império Bizantino, levando-o a usar máscaras, perucas e a imitar olimpianos. Esses "profissionais" não dominam a ética do carpinteiro a que se referiu Cláudio Abramo, portanto não sabem exatamente o papel que exercem. Por vezes parecem adotar a teoria do espelho atuando como um mediador desinteressado, mas jamais conseguirão entender a teoria do newsmaking porque não dominam a dimensão do fato jornalístico e se comportam como se fossem eles a própria notícia. A inconsistência do jornalismo praticado na cobertura da Copa pela maioria das emissoras não atendeu a qualquer dos pressupostos básicos que fundamentam a importância do jornalismo para a sociedade: o direito fundamental de ser (bem) informado e o interesse público.

Esse triste cenário indica que a aprovação, no dia 14 de julho, da exigência de diploma universitário específico para o exercício da profissão de jornalista, por uma comissão especial da Câmara dos Deputados, é bem-vinda. Em contra-partida, as escolas precisam adequar os seus programas de ensino às verdadeiras funções do jornalismo na sociedade moderna, preparando-se para formar jornalistas, e não produtores de mídia para o mercado.

Fonte: Observatório da Imprensa