Por Eugênio Bucci
Eu tinha acabado de concluir a graduação na ECA quando li O que é Biblioteca, escrito pelo meu professor Luís Milanesi. Um livro pequeno e essencial. Saiu pela Brasiliense, onde trabalhei por aqueles tempos. Eu me lembro bem do efeito que me produziu uma frase curta, que pareceu saltar da página para me bater na cara: "A imprensa no Brasil nasceu depois da censura". (O que é Biblioteca foi lançado em 1983. Tenho aqui comigo a edição de 1985, e a frase está lá, na página 29.) Dei com aquela oração de oito palavras e tive um baque. "Taí", pensei na hora. "Eis aqui um traço constitutivo na formação do Brasil." Hoje relativizo um pouco a minha primeira impressão: aprendi a duvidar dessas generalizações peremptórias e tenho mais cautela diante de conceitos por demais abrangentes como "o caráter nacional". Mesmo assim, a frase ainda faz parte das minhas lembranças, por assim dizer, fortes.
Não considero que essa contingência – a censura ter aparecido cronologicamente antes da imprensa – tenha definido um pendor autoritário, para todo o sempre, no tal "caráter brasileiro". De uma forma ou de outra, em quase todos os países, com exceção daqueles que viveram rupturas mais nítidas, como França ou os Estados Unidos, a imprensa e o poder tiveram de negociar espaços indefinidamente. Nem por isso, esses países fincaram pé na intolerância eterna. Portanto, não quero aqui absolutizar, de modo algum, essa particularidade brasileira. Nem se pode exagerar o peso da contingência de que falo agora, nem somos uma nação de intolerância contumaz. Mesmo assim...
A corte chega ao Rio
Vejamos um pouco mais de perto como foi essa história da censura que veio antes da imprensa. Sabemos que, antes de 1808, como colônia, as terras brasileiras não podiam hospedar nenhuma tipografia nem qualquer coisa que fosse parecida com isso. O panorama sofreu uma grande mudança com a vinda da corte portuguesa de Lisboa para o Rio de Janeiro, em 1808. Nos primeiros meses daquele ano, a burocracia estatal da Coroa se transplantou para as praias cariocas. Com a burocracia, veio a legislação censória. Ou seja: a censura se estabeleceu aqui antes do lançamento do diário oficial de D. João (A Gazeta do Rio de Janeiro), que surgiu em setembro de 1808, e também antes do lançamento do Correio Braziliense, que saiu do prelo um pouco antes, em junho do mesmo ano.
O Correio Braziliense é considerado o marco inaugural da nossa imprensa. A Gazeta nasceu mais tarde e, além disso, era um órgão estatal e governamental, não poderia ser classificada como veículo jornalístico. O Correio, sim, era uma voz crítica e independente. Seu editor era Hipólito da Costa, uma inteligência crítica, sem a menor dúvida. Brasileiro nascido em terras hoje uruguaias, Hipólito foi viver em Portugal e, lá, exerceu o cargo de Diretor da Junta da Imprensa Régia. Sua carreira sofreu um revés em 1802, quando ele foi preso pela Inquisição, acusado de integrar a maçonaria. Para sorte da imprensa brasileira, ele conseguiu fugir das grades e se exilar na Inglaterra em 1805. Três anos mais tarde, criou o seu jornal, que se manteve até 1822, sempre impresso em Londres.
Produto do exílio
Além da censura geral, aquela que valia para todos e que obrigava qualquer publicação a ser previamente examinada pelas autoridades antes de obter permissão para circular, o Correio foi nominalmente proibido, em especial e em definitivo. O veto específico vigorou entre 1809 e 1822. Mas, graças aos préstimos do contrabando, alcançou seus leitores nestas plagas. Muitos leitores – entre os quais, o próprio rei, que impunha a lei da censura e, no recôndito das informalidades nacionais, desobedecia a si mesmo. A ambigüidade das relações entre o poder e a imprensa, aliás, nascia aí, como marca registrada desta terra.
Creio que Alberto Dines, um estudioso da vida de Hipólito da Costa, concordará comigo se eu disser que, além de nascer depois da censura, a imprensa no Brasil também nasceu no exílio. Isso mesmo, no exílio. Se não tivesse se refugiado na Inglaterra, Hipólito teria sido preso de novo. O exílio era um pré-requisito de sua liberdade. É certo que, depois, ele se recomporia com D. João, e se pacificaria de vez com o Estado brasileiro após a proclamação da independência: quando morreu, em 1823, aos 49 anos, em Londres, tinha acabado de aceitar um posto diplomático que lhe fora oferecido pelo governo brasileiro, já sob o comando de D. Pedro I. Mas isso não muda o fato histórico: foi no exílio que, ao longo de 175 números, existiu o primeiro jornal da nossa história.
Cai bem aqui uma referência bibliográfica. Então, vamos lá. O jornalista Laurentino Gomes conta essa história em 1808 (São Paulo: Planeta, 2007, p. 136). Há muito mais em A longa viagem da biblioteca dos reis: do terremoto de Lisboa à independência do Brasil, de Lilia Moritz Schwarcz (São Paulo: Companhia das Letras, 2002). Além, é claro, da edição comemorativa dos 200 anos do Correio Brasiliense organizada por Alberto Dines para a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, em 2008.
Censuradinha básica – só para prevenir
Essas marcas de nascença – a censura que vem antes e o exílio como sede da redação – inseminaram a nossa cultura oficial. Não a determinaram, por favor: a relação aqui não é de determinação. Mas, sem dúvida, muito provavelmente, exerceram aí uma inspiração, uma influência. Desconfio que esse tipo de providência preventiva, como censurar por antecipação, passou a habitar o "piloto automático" do poder em relação ao debate público, mesmo que depois, ali, na informalidade, a autoridade se permita afrouxar um pouco o freio. Penso nisso ainda hoje, quando vejo magistrados que atendem pedidos de impor censuras prévias a órgãos jornalísticos. Na dúvida, bem, na dúvida é melhor dar ali uma censuradinha básica. Só para prevenir. Como eu já disse, não quero aqui localizar o nosso "caráter nacional", mas a permanência dessa ilusão – a de que o controle prévio sobre a manifestação das idéias seria capaz de nos abrigar em segurança e conforto – não deixa de ser um componente bem peculiar do nosso modo de viver em sociedade.
Tenho repetido – e isso me cansa um pouco, assim como há de cansar ainda mais os leitores que generosamente me acompanham – que, à esquerda e à direita, os agentes políticos desta nossa terra cultivam apaixonadamente essa ilusão. A idéia de que a comunicação social é uma ferramenta do poder – ou contra o poder – e não uma instância de diálogo entre cidadãos livres é muito profunda entre nós. Muito mais profunda do que gostamos de admitir. A obrigatoriedade de retransmissão do programa A Voz do Brasil, defendida ferrenhamente por parlamentares de esquerda e de direita, tem a ver com isso. Essa expressão, controle social dos meios de comunicação, também tem a ver com isso. Por meio dela, o velho impulso de controlar tudo volta à cena.
Amontoado de caixas pretas
Eu lembro bem – isso aconteceu um pouquinho depois da volta de D. João VI a Portugal, aconteceu ali por volta de 1980, 1990 – quando começamos a falar nesse tal de controle social dos meios de comunicação. O que é que se queria dizer com essa expressão? Era simples, claro, óbvio. Controle social dos meios de comunicação significava um regime de transparência e impessoalidade na condução dos processos de concessão de canais de rádio de televisão, pelo poder público, a particulares. Naqueles tempos, o Ministério das Comunicações era um amontoado de caixas pretas. Era impossível saber quem era dono de que concessão, por que período, com que abrangência geográfica, desde quando e até quando. Era tudo secreto. Estatal e, ao mesmo tempo, secreto. A coisa era pública, mas o controle sobre ela era inteiramente sigiloso, totalmente privatizado pelos burocratas em entendimentos promíscuos com políticos e empresários do setor (não raro, políticos e empresários do setor ao mesmo tempo). Há quem diga que pouca coisa mudou desde então. Às vezes me parece que pouca coisa mudou de fato, mas não vou agora lavar essa roupa suja uma vez mais. Sigo adiante. Estou aqui num diletantismo etimológico – não estou fazendo crítica do Ministério das Comunicações.
Naqueles tempos, falar em controle social significava afirmar o princípio de que a sociedade tinha o direito de saber e de controlar, democraticamente, os negócios de concessão, mais ou menos como a mesma sociedade controla os governantes, ao menos em parte, por meio das eleições (as eleições, nesse sentido, são uma forma de controle social sobre o exercício do poder), ou como a tramitação dos projetos de lei no Legislativo segue ritos que asseguram fiscalização e acompanhamento transparente desses projetos pelos representantes do povo e, muitas vezes, pelos cidadãos, diretamente.
Enfim, controle social queria dizer isso: controle da sociedade sobre os negócios mal explicados que se escondiam em escaninhos obscuros de um Estado opaco e labiríntico. O controle social seria a força contrária ao controle indevido da radiodifusão exercido por mãos ilegítimas e mesmo ilegais.
Pequena confusão
Mas os tempos foram mudando. Mudaram e mudaram. O sentido dessa expressão se perdeu. O significado da expressão controle social dos meios de comunicação também foi mudando, mudando, sem que a situação original contra a qual ela surgiu mudasse no mesmo ritmo. Recentemente, há quem fale em controle social querendo dizer nada menos que controle oficial sobre os conteúdos de jornais, revistas e emissoras. Isso nada mais é que censura, mas alguns passaram a entender isso aí por controle social. Dizem algo como "deixa que o governo de esquerda vai lá e faz um controle social em cima deles e aí eles vão ver o que é bom pra tosse". Ora, se controle social passou a significar controle oficial do que as pessoas dizem, em blogs ou em grandes redes nacionais de televisão, estamos todos fritos – e controlados. Mas tem gente que quer precisamente isso.
Há também aqueles que acham que controle social é uma assembléia permanente dos movimentos sociais organizados, algo por aí, ditando normas sobre o que pode e o que não pode ser veiculado nos tais dos meios de comunicação. Claro, claro, com a bênção da mão bruta do Estado que herdamos de D. João. O controle social, nesse caso, virou sinônimo de controle sindical. Onde os movimentos supostamente organizados da sociedade supostamente civil dão todas as cartas, os milhões e milhões de cidadãos desorganizados estão fritos – e controlados. Mas tem gente que quer também isso, ardentemente.
Cabe à sociedade, não ao governo
Oh, pá, já escrevi muito e estou com preguiça – e a minha preguiça, toda ela, também é culpa de D. João VI. Tudo bem: é culpa, do mesmo modo, de Macunaíma e dos ensandecidos que acreditavam na essência do caráter nacional – ou na essência da falta dele. Estou com preguiça. Mesmo assim, ainda tenho fôlego de dizer que é preciso tomar cuidado.
Controle social dos meios de comunicação pode querer dizer o oposto daquilo que já significou um dia: o oposto de transparência, o oposto de impessoalidade, o oposto de liberdade. Controle social pode querer dizer mais opacidade, mais partidarismo, mais desmandos, mais cartel, mais clientelismo e mais, muito mais patrimonialismo (com um figurino sindicaleiro). Se os tais meios de comunicação não se comportam direitinho, lá vai o governo e dá uma "democratizada" neles, preventivamente, aplica-lhes um "controle social" na veia. É uma sandice. Em nenhuma hipótese, os meios de comunicação deveriam ser da competência de governos. O mercado da radiodifusão, sim, pode ser objeto de regulamentação, por lei, e de regulação, por agências específicas, mas a presença do governo no controle de conteúdo é, em qualquer hipótese, desastrosa. Não por acaso, num texto de 1994, sobre a democracia dos meios de comunicação, eu mesmo escrevi que "não se deve esperar de um governo a mudança desse quadro" [o quadro desequilibrado de distribuição dos canais de rádio e televisão e as distorções de conteúdo que daí decorriam]. Eu dizia que a adoção de regras democráticas para o setor seria uma obra da sociedade, não do governo. E escrevi mais: "Seria uma utopia totalitária esperar isso de um governo." Pois hoje, aqui e ali, a gente vislumbra indícios de que um ou outro ainda acalentam utopias totalitárias. É tenebroso. Se controle social for isso...
Tudo é tudo e nada é nada
Mas, afinal, o que é mesmo que quer dizer essa expressão, controle social dos meios de comunicação? Não dá mais para saber. Ela foi se tornando inútil, esvaziada, morta. Cada um dá a ela o sentido que bem entende, e, quando a coisa chega nesse nível de imprecisão, a gente acaba caindo naquela filosofia de Tim Maia, na qual tudo é tudo e nada é nada.
Pelo sim pelo não, desse controle social aí, esse que quer dizer controle oficial, e também desse que quer dizer controle sindical, desse aí a democracia está fora. Um pouco de desconfiança é de bom tom. Esse discurso que posa de esquerda mesmo na boca de quadros notórios da ditadura militar – vivemos um tempo em que até José Sarney anda declarando que "a mídia se tornou inimiga das instituições representativas", ele mesmo, José Sarney, cuja família é dona de um grupo de mídia nada desprezível, nada alternativo – pende mais para a autoridade que controla do que para a sociedade que critica. É mesmo bom desconfiar quando alguns agentes políticos que saem falando muito testosteronicamente em controle social pretendam apenas intimidar os críticos. Preventivamente. Não esqueçamos que, em nossa cultura de Estado, nós abrigamos a censura antes mesmo de abrigar a imprensa.
São tempos ingratos. Ninguém mais precisa ir para o exílio para criar um jornal, é verdade. É que hoje o exílio não é geográfico: ele é simbólico.
Fonte: Observatório da Imprensa
sexta-feira, 23 de julho de 2010
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Ex-marido de Cissa Guimarães critica ação da polícia após atropelamento de filho
Por Diana Brito
O ex-marido da atriz Cissa Guimarães, Raul Mascarenhas, criticou nesta quinta-feira, após a cerimônia de cremação do corpo de seu filho Rafael Mascarenhas, 18, a ação da Polícia Militar após o atropelamento do rapaz. O jovem morreu em decorrência do acidente na madrugada de terça-feira (20). O motorista do Siena que atropelou o jovem chegou a ser abordado por policiais militares após o acidente, mas foi liberado em seguida.
Ontem, os PMs foram afastados "por haver indícios de que eles teriam atuado incorretamente na ocorrência durante a abordagem do autor do atropelamento", disse o capitão Ivan Blaz, porta-voz da PM.
"Um carro que sai de um túnel amassado daquele jeito e é liberado pela polícia... é um absurdo", afirmou Raul. "Mas a dor de perdê-lo é tão grande que isso [a investigação policial] fica em segundo plano. O resto é o resto", acrescentou o pai do rapaz.
Segundo o motorista do veículo, Rafael de Sousa Bussamra, 25, os PMs analisaram seus documentos e o orientaram a ir à 15ª DP para registrar o caso. No entanto, o rapaz alegou que preferiu ligar para o pai, que o aconselhou a ir à delegacia mais tarde, acompanhado por um advogado.
"Apesar de eu morar longe, eu falava sempre com ele [Rafael]. Fica a imagem de um anjo. Ele era uma pessoa que nunca reclamava de nada e nunca brigava de ninguém. Tocamos muitas vezes e é isso que fica", declarou Raul.
CINZAS
A irmã de Cissa Guimarães, Bali Pinheiros Guimarães, afirmou que a família ainda não decidiu onde serão jogadas as cinzas do jovem, mas destacou que deve ser no mar, uma vez que o garoto gostava de surfar.
A irmã também afirmou que a atriz "está muito devastada" e acrescentou que Cissa não está acompanhando a investigação policial. "Ela diz que não tem raiva absolutamente de ninguém e que, se pudesse, pararia a investigação."
Fonte: Folha
O ex-marido da atriz Cissa Guimarães, Raul Mascarenhas, criticou nesta quinta-feira, após a cerimônia de cremação do corpo de seu filho Rafael Mascarenhas, 18, a ação da Polícia Militar após o atropelamento do rapaz. O jovem morreu em decorrência do acidente na madrugada de terça-feira (20). O motorista do Siena que atropelou o jovem chegou a ser abordado por policiais militares após o acidente, mas foi liberado em seguida.
Ontem, os PMs foram afastados "por haver indícios de que eles teriam atuado incorretamente na ocorrência durante a abordagem do autor do atropelamento", disse o capitão Ivan Blaz, porta-voz da PM.
"Um carro que sai de um túnel amassado daquele jeito e é liberado pela polícia... é um absurdo", afirmou Raul. "Mas a dor de perdê-lo é tão grande que isso [a investigação policial] fica em segundo plano. O resto é o resto", acrescentou o pai do rapaz.
Segundo o motorista do veículo, Rafael de Sousa Bussamra, 25, os PMs analisaram seus documentos e o orientaram a ir à 15ª DP para registrar o caso. No entanto, o rapaz alegou que preferiu ligar para o pai, que o aconselhou a ir à delegacia mais tarde, acompanhado por um advogado.
"Apesar de eu morar longe, eu falava sempre com ele [Rafael]. Fica a imagem de um anjo. Ele era uma pessoa que nunca reclamava de nada e nunca brigava de ninguém. Tocamos muitas vezes e é isso que fica", declarou Raul.
CINZAS
A irmã de Cissa Guimarães, Bali Pinheiros Guimarães, afirmou que a família ainda não decidiu onde serão jogadas as cinzas do jovem, mas destacou que deve ser no mar, uma vez que o garoto gostava de surfar.
A irmã também afirmou que a atriz "está muito devastada" e acrescentou que Cissa não está acompanhando a investigação policial. "Ela diz que não tem raiva absolutamente de ninguém e que, se pudesse, pararia a investigação."
Fonte: Folha
O desjejum cotidiano
Por Gilberto A. Bernardi
"Uma profissão com pouco prestígio, esquecida e desvalorizada. Alunos iludidos e jornalistas sem ética. Uma profissão que pode ser exercida em qualquer boteco de esquina"
A mesa está abarrotada de trabalho. São folhas brancas e recicladas, dicionário, um copo sujo de café e bilhetes de reuniões colados na tela do computador. E-mails para mandar e pautas a serem feitas, mas... Vejo que o trabalho de um jornalista é realmente sujo e vulgar.
A relação notícia/emprego é tão antiética que resta olhar para trás e ver que me faltou apoio para cursar Medicina. Esse mundo fantástico prometido pela mídia é manipulador, tanto quanto a faculdade que diz transformar seres mortais em formadores de opinião. Já tentou opinar fora da linha editorial? Eu já dei um de revolucionário sem causa. Resultado: fui bater na porta do concorrente – fiquei um ano e alguns meses na mesma situação de milhares de brasileiros que aumentam a lista de desempregados. Essa lista é publicada todos os meses por um colega de trabalho que nem sabe que existo, mas cumprimento-o todas as noites após ouvir o repertório de manipulação. Plim Plim.
"Ser jornalista é o máximo. Dá pra escrever e falar o que se pensa, ter acesso a lugares que os cidadãos normais não têm" – todos já pensaram isso na infância. Essa estória de que profissional da comunicação com habilitação em Jornalismo pode opinar sobre todos os assuntos só existe no conto de fadas do jornalismo independente – apenas entre nós, mas jornalismo independente é como acreditar que os políticos vão cumprir o que prometem.
"Nóis semo tudo jornalista instruído"
Para que serve um jornalista? Para informar a massa sobre o que nem ele acredita. O pior está por vir – noticiamos algo que está errado, sabemos que não está certo, mas temos a cara de pau de crer na veracidade dos fatos improcedentes. O povo, que por sua vez, é ingênuo, ri da nossa exposição e mesmo assim, nos tem como fonte segura e confiável. "Tu viu só o que a RBS noticiou hoje?", afirmam.
"E no futuro estamos nós", sentados em frente a um computador digitando palavras incomuns para compor uma notícia do cotidiano. Ficamos com os olhos esbugalhados, com dor nas costas, dentes pretos (efeitos do café), resmungões e ganhando uma miséria. Que graça tem? "Ah! mas o jornalismo é a atuação direta do social, nos faz ser mais humanos em ver a situação de pessoas que estão ou não numa condição complicada", falamos, com autoridade "mauxima" quando formandos em jornalismo. É a desgraça dos dias que virão.
É uma profissão de equilíbrio emocional. Uma questão de redundância diária. Ser jornalista é saber lidar com a escolha do regime capitalista. Noticiar as greves das diversas categorias que se opõe ao salário baixo, dar o maior apoio à manifestação, mas se esquecer que também ganha pouco e não faz nada por isso. "Nóis semo tudo jornalista instruído e com o tal do diproma na mão." Convida um colega para fazer linha de frente e discutir a questão do piso salarial. "Você tem razão, não ganhamos nada, só não te ajudo com isso por que tenho que trabalhar agora", responde com proeza o formador de opinião.
Trabalho não é reconhecido
Jornalista nem sempre escreve bem. É um profissional que "necessita" saber sobre tudo, mas não sabe nada. Na faculdade enche a boca para dizer que é jornalista e quando se forma vai ganhar entre R$ 1 e 1,5 mil e desanima. Vê que é bom ganhar dinheiro, mas que com essa profissão nunca vai morar num bairro nobre; vai ter um Gol ou um Uno 1.0 porque faz média melhor. Vai querer criticar juízes, políticos, advogados, médicos, mas vai esbarrar na lei. Na lei que a empresa para qual trabalha criou. "Sempre publicar noticias que remetam ao público coisas boas das pessoas que tragam benefício para a empresa", direciona o chefe. Aí, o jornalista se dá por conta que os quatro anos de estudo sobre a ciência da informação nada valeram. Na universidade discutem a respeito de linhas editoriais, mas não ensinam a respeito – é que quem faz o curso é o aluno (tinha esquecido de citar).
Ser jornalista é ser irônico com si próprio. É achar que goza dos erros alheios, porém o que erra sempre ganha mais que o jornalista. Ganhar é o que vale. Mundo melhor só existe na utopia dos comunistas de plantão (ser militante comunista é igual ou pior que um jornalista). Imagine um jornalista comunista? É acreditar piamente na epistemologia do sonho.
Entretanto, o jornalista deveria ser estudado por cientistas não cristãos: não existe "homem mais besta que um jornalista". No curso, diz ter atitude própria, depois de formado adota a personalidade que a empresa ordena; acredita ser superior, no fim o público se diverte com o camarada em frente às câmeras de TV (idem outros meios de comunicação) e sai falando das palhaçadas feitas no ar; as notícias impressas que demoraram horas, talvez meses, para serem publicadas, no outro dia estão enrolando salame no boteco da esquina ou limpando a entranha de um terceiro; não tem o trabalho reconhecido; a informação, por mais importante que seja, é abstrata, portanto se torna nula e o jornalista só é lembrado naquele instante: é como o BBB, só se é famoso enquanto se aparece na tela; depois de eliminado, faz alguns trabalhos para revistas de prazer (isso se tiver um corpo possível de usar em Photoshop) e em seguida é esquecido.
Basta um pouco de português e agir por instinto
Acha que é a melhor profissão do mundo por esta ser conhecida como não tendo rotina, o que é mentira: todo jornalista está sempre com um bloquinho e uma caneta na mão escrevendo meia dúzia de palavras, para depois voltar a redação e escrever a besteira colhida; acredita que jornalista bom é jornalista com formação superior, mas os meios de comunicação estão lotados de pessoas com ensino médio e que possuem uma voz agradável. Detalhe: o jornalista formado vai receber ordens de um depravado que provavelmente tem muito mais noção de comunicação do que o recém-formado (agora, sim, se comprova que o poste mija no cachorro). Na faculdade dizem que a voz não é importante, na primeira aula de rádio informam que a voz de todos os teus colegas é boa, pena que o mercado de trabalho não pensa assim. O jornalista é o único sujeito no mundo que consegue se auto-manipular.
Outros pontos chamam a atenção dessa brilhante profissão. Quando se é assessor de comunicação, os funcionários confundem jornalismo com publicidade. E é isso aí mesmo, jornalista não passa de um fofoqueiro. Um leva-e-traz de informações mesquinhas que, em momento algum, é a estrela do espetáculo – apenas é usado para levar as pessoas ao sucesso. Para levar as pessoas a ganharem muito dinheiro em cima das informações que o jornalista "fofoqueia".
Jornalista é o pior político do mundo. Numa aula, uma professora contou que discutiu com um médico. O profissional da saúde teria dito que médico é uma profissão descente, pois cura as pessoas (médico ganha muito bem e valoriza a própria profissão). A professora respondeu ao "dr." que jornalista é médico da alma. Depois disso pude entender por que rezamos tanto para as almas que estão no tal purgatório – essas almas leram muita bobagem que nós escrevemos. Agora se comprova, literalmente, que o título do livro do jornalista Carlos Dorneles, Deus é inocente, a imprensa, não, está totalmente correto. Estamos na berlinda.
Se o jornalista fosse tão inteligente quanto aparenta ser, já estaria ganhando melhor. Seria uma classe unida que defenderia acima de qualquer motivo a ética na profissão. Se o jornalista fosse ousado, invadiria o Congresso e exigiria que a profissão fosse reconhecida. Se jornalista fosse realmente crítico, olharia melhor para seu próprio eu interior.
O jornalismo pode ser um curso técnico de seis meses, no máximo. Não vejo necessidade de se estudar quatro anos para tal profissão. Uma carreira que, em pleno século 21, ainda está em estudo no Congresso nacional para ser aprovada como uma ciência que necessita de ensino superior para poder praticar... É ridículo. Para ser jornalista basta saber um pouco de português, ter noções de lead e agir por instinto.
Fonte: Observatório da Imprensa
"Uma profissão com pouco prestígio, esquecida e desvalorizada. Alunos iludidos e jornalistas sem ética. Uma profissão que pode ser exercida em qualquer boteco de esquina"
A mesa está abarrotada de trabalho. São folhas brancas e recicladas, dicionário, um copo sujo de café e bilhetes de reuniões colados na tela do computador. E-mails para mandar e pautas a serem feitas, mas... Vejo que o trabalho de um jornalista é realmente sujo e vulgar.
A relação notícia/emprego é tão antiética que resta olhar para trás e ver que me faltou apoio para cursar Medicina. Esse mundo fantástico prometido pela mídia é manipulador, tanto quanto a faculdade que diz transformar seres mortais em formadores de opinião. Já tentou opinar fora da linha editorial? Eu já dei um de revolucionário sem causa. Resultado: fui bater na porta do concorrente – fiquei um ano e alguns meses na mesma situação de milhares de brasileiros que aumentam a lista de desempregados. Essa lista é publicada todos os meses por um colega de trabalho que nem sabe que existo, mas cumprimento-o todas as noites após ouvir o repertório de manipulação. Plim Plim.
"Ser jornalista é o máximo. Dá pra escrever e falar o que se pensa, ter acesso a lugares que os cidadãos normais não têm" – todos já pensaram isso na infância. Essa estória de que profissional da comunicação com habilitação em Jornalismo pode opinar sobre todos os assuntos só existe no conto de fadas do jornalismo independente – apenas entre nós, mas jornalismo independente é como acreditar que os políticos vão cumprir o que prometem.
"Nóis semo tudo jornalista instruído"
Para que serve um jornalista? Para informar a massa sobre o que nem ele acredita. O pior está por vir – noticiamos algo que está errado, sabemos que não está certo, mas temos a cara de pau de crer na veracidade dos fatos improcedentes. O povo, que por sua vez, é ingênuo, ri da nossa exposição e mesmo assim, nos tem como fonte segura e confiável. "Tu viu só o que a RBS noticiou hoje?", afirmam.
"E no futuro estamos nós", sentados em frente a um computador digitando palavras incomuns para compor uma notícia do cotidiano. Ficamos com os olhos esbugalhados, com dor nas costas, dentes pretos (efeitos do café), resmungões e ganhando uma miséria. Que graça tem? "Ah! mas o jornalismo é a atuação direta do social, nos faz ser mais humanos em ver a situação de pessoas que estão ou não numa condição complicada", falamos, com autoridade "mauxima" quando formandos em jornalismo. É a desgraça dos dias que virão.
É uma profissão de equilíbrio emocional. Uma questão de redundância diária. Ser jornalista é saber lidar com a escolha do regime capitalista. Noticiar as greves das diversas categorias que se opõe ao salário baixo, dar o maior apoio à manifestação, mas se esquecer que também ganha pouco e não faz nada por isso. "Nóis semo tudo jornalista instruído e com o tal do diproma na mão." Convida um colega para fazer linha de frente e discutir a questão do piso salarial. "Você tem razão, não ganhamos nada, só não te ajudo com isso por que tenho que trabalhar agora", responde com proeza o formador de opinião.
Trabalho não é reconhecido
Jornalista nem sempre escreve bem. É um profissional que "necessita" saber sobre tudo, mas não sabe nada. Na faculdade enche a boca para dizer que é jornalista e quando se forma vai ganhar entre R$ 1 e 1,5 mil e desanima. Vê que é bom ganhar dinheiro, mas que com essa profissão nunca vai morar num bairro nobre; vai ter um Gol ou um Uno 1.0 porque faz média melhor. Vai querer criticar juízes, políticos, advogados, médicos, mas vai esbarrar na lei. Na lei que a empresa para qual trabalha criou. "Sempre publicar noticias que remetam ao público coisas boas das pessoas que tragam benefício para a empresa", direciona o chefe. Aí, o jornalista se dá por conta que os quatro anos de estudo sobre a ciência da informação nada valeram. Na universidade discutem a respeito de linhas editoriais, mas não ensinam a respeito – é que quem faz o curso é o aluno (tinha esquecido de citar).
Ser jornalista é ser irônico com si próprio. É achar que goza dos erros alheios, porém o que erra sempre ganha mais que o jornalista. Ganhar é o que vale. Mundo melhor só existe na utopia dos comunistas de plantão (ser militante comunista é igual ou pior que um jornalista). Imagine um jornalista comunista? É acreditar piamente na epistemologia do sonho.
Entretanto, o jornalista deveria ser estudado por cientistas não cristãos: não existe "homem mais besta que um jornalista". No curso, diz ter atitude própria, depois de formado adota a personalidade que a empresa ordena; acredita ser superior, no fim o público se diverte com o camarada em frente às câmeras de TV (idem outros meios de comunicação) e sai falando das palhaçadas feitas no ar; as notícias impressas que demoraram horas, talvez meses, para serem publicadas, no outro dia estão enrolando salame no boteco da esquina ou limpando a entranha de um terceiro; não tem o trabalho reconhecido; a informação, por mais importante que seja, é abstrata, portanto se torna nula e o jornalista só é lembrado naquele instante: é como o BBB, só se é famoso enquanto se aparece na tela; depois de eliminado, faz alguns trabalhos para revistas de prazer (isso se tiver um corpo possível de usar em Photoshop) e em seguida é esquecido.
Basta um pouco de português e agir por instinto
Acha que é a melhor profissão do mundo por esta ser conhecida como não tendo rotina, o que é mentira: todo jornalista está sempre com um bloquinho e uma caneta na mão escrevendo meia dúzia de palavras, para depois voltar a redação e escrever a besteira colhida; acredita que jornalista bom é jornalista com formação superior, mas os meios de comunicação estão lotados de pessoas com ensino médio e que possuem uma voz agradável. Detalhe: o jornalista formado vai receber ordens de um depravado que provavelmente tem muito mais noção de comunicação do que o recém-formado (agora, sim, se comprova que o poste mija no cachorro). Na faculdade dizem que a voz não é importante, na primeira aula de rádio informam que a voz de todos os teus colegas é boa, pena que o mercado de trabalho não pensa assim. O jornalista é o único sujeito no mundo que consegue se auto-manipular.
Outros pontos chamam a atenção dessa brilhante profissão. Quando se é assessor de comunicação, os funcionários confundem jornalismo com publicidade. E é isso aí mesmo, jornalista não passa de um fofoqueiro. Um leva-e-traz de informações mesquinhas que, em momento algum, é a estrela do espetáculo – apenas é usado para levar as pessoas ao sucesso. Para levar as pessoas a ganharem muito dinheiro em cima das informações que o jornalista "fofoqueia".
Jornalista é o pior político do mundo. Numa aula, uma professora contou que discutiu com um médico. O profissional da saúde teria dito que médico é uma profissão descente, pois cura as pessoas (médico ganha muito bem e valoriza a própria profissão). A professora respondeu ao "dr." que jornalista é médico da alma. Depois disso pude entender por que rezamos tanto para as almas que estão no tal purgatório – essas almas leram muita bobagem que nós escrevemos. Agora se comprova, literalmente, que o título do livro do jornalista Carlos Dorneles, Deus é inocente, a imprensa, não, está totalmente correto. Estamos na berlinda.
Se o jornalista fosse tão inteligente quanto aparenta ser, já estaria ganhando melhor. Seria uma classe unida que defenderia acima de qualquer motivo a ética na profissão. Se o jornalista fosse ousado, invadiria o Congresso e exigiria que a profissão fosse reconhecida. Se jornalista fosse realmente crítico, olharia melhor para seu próprio eu interior.
O jornalismo pode ser um curso técnico de seis meses, no máximo. Não vejo necessidade de se estudar quatro anos para tal profissão. Uma carreira que, em pleno século 21, ainda está em estudo no Congresso nacional para ser aprovada como uma ciência que necessita de ensino superior para poder praticar... É ridículo. Para ser jornalista basta saber um pouco de português, ter noções de lead e agir por instinto.
Fonte: Observatório da Imprensa
A grande imprensa e o nascimento do novo
Por Gilson Caroni Filho
Em pleno ano eleitoral de 2002, o governo submergia em sérios escândalos na área econômica. O presidente do Banco Central, Armínio Fraga, e o diretor de Política Monetária da mesma instituição, Luiz Fernando Figueiredo, eram acusados pelo presidente interino da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) de fazer lobby em favor das empresas de telefonia. Ambos teriam entregado à Câmara de Política Econômica, instância governamental, um texto preparado pela BCP, empresa que operava na banda B de telefonia celular em São Paulo. No documento eram recomendados aumentos de tarifas, mudanças contratuais beneficiando as operadoras e redução dos impostos que incidem sobre as contas dos consumidores.
Tinha mais. Havia sérias suspeitas de que técnicos de alto escalão do BNDES, do Tesouro Nacional, do Banco do Brasil e do Ministério da Fazenda fizeram uso de informações privilegiadas para compra e venda de ações do Banco do Brasil. Eram pessoas que trabalham nas mesmas instituições que desenharam o projeto de venda de 16,3% do capital do BB. O então ministro da Fazenda do governo FHC, Pedro Malan, mandou a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) investigar as acusações. O problema é que o órgão fiscalizador abriu sindicância para apurar denúncias de irregularidades de funcionários em processo de cisão nas áreas de petroquímica e de papel e celulose. Em suma, em tempos do império do cassino, o melhor a fazer era, tal como na música de Chico Buarque, "chamar o ladrão".
O que revelam os parágrafos acima? Um cenário tétrico. Um governo corrompido em setores-chave de formulação e execução de sua política econômica. O resultado lógico de instituições que se redefiniram para melhor servir ao receituário neoliberal. Não havia acidentes de percurso. A banca internacional e a degradação interna de autoridades e órgãos que se desviavam de suas funções republicanas não eram obra do acaso. A segunda era um desdobramento lógico da primeira. E não atingia apenas instâncias econômicas; levava de roldão uma imprensa que a tudo silenciava. Por convergência de princípios e por ser sócia do jogo.
Os fatos aqui relatados não são fruto de uma exaustiva investigação pessoal. Resultam da leitura de novas mídias, em complementação entre o impresso e o digital, que vieram para disputar a hegemonia no campo da produção e difusão de informação. Veículos como Caros Amigos, Carta Capital e Carta Maior, entre outros, noticiaram o que a imprensa oligarquizada tratou de jogar para debaixo do tapete. Os profissionais que militam nesses espaços, ao invés de seguirem conhecidas orientações editoriais, cumpriram, já naquele pleito, a função básica de fiscalizar os poder público e estabelecer a construção de dispositivos contra-hegemônicos.
Por excelência, sempre denunciaram as malfeitorias do consórcio demo-tucano com amparo em sólido trabalho investigativo, tarefa irrenunciável de um jornalismo preocupado em atender os interesses dos novos sujeitos emergentes e dos movimentos sociais organizados.
Hoje, passados oito anos, vemos surgir novas formas de produção comunicativa que não se deixam submeter a outro imperativo que não seja o interesse do leitor. Nadando contra a corrente de uma imprensa de mercado e antinacionalista, não recusam os princípios que fundamentam a liberdade de imprensa, assegurada em qualquer regime democrático. O pluralismo está assegurado na cobertura dos fatos, no respeito ao contraditório e nos mais variados matizes ideológicos de seus colaboradores e articulistas.
Como veículos de cidadania, não se prestam a agenciamentos de interesses escusos, a distorções da realidade, infamando, como fazem as corporações, quem consideram adversários políticos. É bela a aula de jornalismo dada por espaços que se multiplicam com o surgimento de um governo comprometido com a luta da classe trabalhadora. Que mantêm na credibilidade, independente do formato, sua identidade central. Reafirmam o que disse, já há algum tempo, o jornalista Washington Novaes: "jornalismo não é profissão a ser exercida em nome próprio", mas por delegação da sociedade, a quem legitimamente pertence a informação?
Se a imprensa tradicional está desfigurada, reduzida à condição de boletim de campanha, com fanfarras eleitorais semeadas em praticamente todas as páginas, um fazer jornalístico alternativo, próprio dos que resistem , ameaça a sua até então granítica hegemonia. As eleições de outubro talvez venham a ser o divisor de águas do campo comunicativo. Fruto da massa crítica acumulada, o novo pode enfim nascer. E virá como desconcertante reconquista do futuro.
Fonte: Centro de Mídia Independente
Em pleno ano eleitoral de 2002, o governo submergia em sérios escândalos na área econômica. O presidente do Banco Central, Armínio Fraga, e o diretor de Política Monetária da mesma instituição, Luiz Fernando Figueiredo, eram acusados pelo presidente interino da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) de fazer lobby em favor das empresas de telefonia. Ambos teriam entregado à Câmara de Política Econômica, instância governamental, um texto preparado pela BCP, empresa que operava na banda B de telefonia celular em São Paulo. No documento eram recomendados aumentos de tarifas, mudanças contratuais beneficiando as operadoras e redução dos impostos que incidem sobre as contas dos consumidores.
Tinha mais. Havia sérias suspeitas de que técnicos de alto escalão do BNDES, do Tesouro Nacional, do Banco do Brasil e do Ministério da Fazenda fizeram uso de informações privilegiadas para compra e venda de ações do Banco do Brasil. Eram pessoas que trabalham nas mesmas instituições que desenharam o projeto de venda de 16,3% do capital do BB. O então ministro da Fazenda do governo FHC, Pedro Malan, mandou a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) investigar as acusações. O problema é que o órgão fiscalizador abriu sindicância para apurar denúncias de irregularidades de funcionários em processo de cisão nas áreas de petroquímica e de papel e celulose. Em suma, em tempos do império do cassino, o melhor a fazer era, tal como na música de Chico Buarque, "chamar o ladrão".
O que revelam os parágrafos acima? Um cenário tétrico. Um governo corrompido em setores-chave de formulação e execução de sua política econômica. O resultado lógico de instituições que se redefiniram para melhor servir ao receituário neoliberal. Não havia acidentes de percurso. A banca internacional e a degradação interna de autoridades e órgãos que se desviavam de suas funções republicanas não eram obra do acaso. A segunda era um desdobramento lógico da primeira. E não atingia apenas instâncias econômicas; levava de roldão uma imprensa que a tudo silenciava. Por convergência de princípios e por ser sócia do jogo.
Os fatos aqui relatados não são fruto de uma exaustiva investigação pessoal. Resultam da leitura de novas mídias, em complementação entre o impresso e o digital, que vieram para disputar a hegemonia no campo da produção e difusão de informação. Veículos como Caros Amigos, Carta Capital e Carta Maior, entre outros, noticiaram o que a imprensa oligarquizada tratou de jogar para debaixo do tapete. Os profissionais que militam nesses espaços, ao invés de seguirem conhecidas orientações editoriais, cumpriram, já naquele pleito, a função básica de fiscalizar os poder público e estabelecer a construção de dispositivos contra-hegemônicos.
Por excelência, sempre denunciaram as malfeitorias do consórcio demo-tucano com amparo em sólido trabalho investigativo, tarefa irrenunciável de um jornalismo preocupado em atender os interesses dos novos sujeitos emergentes e dos movimentos sociais organizados.
Hoje, passados oito anos, vemos surgir novas formas de produção comunicativa que não se deixam submeter a outro imperativo que não seja o interesse do leitor. Nadando contra a corrente de uma imprensa de mercado e antinacionalista, não recusam os princípios que fundamentam a liberdade de imprensa, assegurada em qualquer regime democrático. O pluralismo está assegurado na cobertura dos fatos, no respeito ao contraditório e nos mais variados matizes ideológicos de seus colaboradores e articulistas.
Como veículos de cidadania, não se prestam a agenciamentos de interesses escusos, a distorções da realidade, infamando, como fazem as corporações, quem consideram adversários políticos. É bela a aula de jornalismo dada por espaços que se multiplicam com o surgimento de um governo comprometido com a luta da classe trabalhadora. Que mantêm na credibilidade, independente do formato, sua identidade central. Reafirmam o que disse, já há algum tempo, o jornalista Washington Novaes: "jornalismo não é profissão a ser exercida em nome próprio", mas por delegação da sociedade, a quem legitimamente pertence a informação?
Se a imprensa tradicional está desfigurada, reduzida à condição de boletim de campanha, com fanfarras eleitorais semeadas em praticamente todas as páginas, um fazer jornalístico alternativo, próprio dos que resistem , ameaça a sua até então granítica hegemonia. As eleições de outubro talvez venham a ser o divisor de águas do campo comunicativo. Fruto da massa crítica acumulada, o novo pode enfim nascer. E virá como desconcertante reconquista do futuro.
Fonte: Centro de Mídia Independente
A morte lenta de um jornal agonizante
Por Lilia Diniz
Na semana passada, o Jornal do Brasil anunciou mais um capítulo da sua lenta agonia. Após 119 anos de história, deixará de sair em papel. A partir de primeiro de setembro, manterá apenas a versão online. A notícia não chegou a ser uma surpresa. Há décadas, o jornal enfrenta uma grave crise financeira. Aquele que foi o jornal mais influente e copiado do Brasil entre as décadas de 1950 e 1970 atualmente tem uma tiragem de apenas 20 mil exemplares. O passivo acumulado é estimado em R$ 800 milhões, a maior parte em dívidas trabalhistas e fiscais.
Alberto Dines recebeu três jornalistas no estúdio do Rio de Janeiro: Ana Arruda Callado, Ricardo Noblat e Wálter de Mattos Jr. Escritora e professora universitária, Ana Arruda é doutora em Comunicação e Cultura pela UFRJ. Presidiu o Conselho Estadual de Cultura, foi vice-presidente da ABI e presidente do Conselho Administrativo. Noblat é jornalista há 43 anos, sendo 28 destes dedicados à cobertura política. Atualmente tem uma coluna semanal no jornal O Globo e mantém um blog na Internet que é um dos mais visitados no Brasil, o Blog do Noblat. Wálter de Mattos Jr. é diretor-presidente e criador do diário esportivo Lance!, o primeiro jornal nacional de esportes do país e, atualmente, o maior veículo do segmento esportivo na América Latina.
Antes do debate no estúdio, na coluna "A Mídia na Semana", Dines comentou a trágica morte do menino Wesley Gilbert Rodrigues de Andrade, atingido no peito por um tiro de fuzil dentro da escola durante uma operação da polícia militar no Rio de Janeiro (16/7). A escola de Wesley figurou em uma série de matérias publicada no mês passado pelo jornal O Globo sobre colégios em áreas de risco. "A série de reportagens ‘O x da questão’ pretendia fugir das estatísticas, dar nome e rosto às crianças que vivem na terra de ninguém. Como jornalismo foi perfeita. Como presságio foi tragicamente correto", avaliou.
Profissão romântica
Ainda antes do debate ao vivo, em editorial, Dines disse que a frieza com a qual a mídia tratou o caso do JB é o símbolo de uma transformação. "A imprensa abdicou das emoções porque aceitou transformar-se numa indústria tão transcendental quanto uma fábrica de biscoitos", censurou. Para Dines, escolhas políticas contribuíram para o declínio do jornal. "A amizade mais perniciosa foi com Delfim Netto, que estimulou o jornal a endividar-se pesadamente para financiar uma faraônica sede e os novos equipamentos. Este elefante branco atropelou o resto dos escrúpulos e entregou o jornal a um empresário que não lê jornais e detesta jornais, exceto jornais moribundos que arrenda a preço de banana", criticou.
A reportagem exibida pelo Observatório contou a história do jornal. É em meio à agitação política no país que deixava a monarquia para se tornar uma República, que Rodolfo Dantas funda o Jornal do Brasil. Defensor do antigo regime Liberal, o novo periódico é lançado em 1891. Entre os diretores do jornal nos primeiros anos constavam nomes como Joaquim Nabuco e Ruy Barbosa. Em 1905, adota uma linha editorial voltada para o noticiário do cotidiano da cidade. As dificuldades financeiras levam o JB a ocupar a primeira página só com anúncios classificados – e por esta razão ele ganha o apelido de "jornal das cozinheiras".
Em 1953, morre o Conde Pereira Carneiro e sua viúva, Maurina Dunshee de Abranches, assume a direção. Manoel Francisco do Nascimento Brito, genro e representante da condessa Pereira Carneiro, adquire novo equipamento gráfico e lança a idéia de reformulação do jornal. A partir de 1956, a forma de apresentar a notícia muda radicalmente. Saem os fios que separam as colunas de texto, diminui o espaço dos classificados e a fotografia passa a ser publicada na primeira página. O poeta Ferreira Gullar, que fez parte da equipe que reformou o jornal, contou que o Suplemento Dominical – ponto de partida das mudanças – era totalmente inovador. "Tinha uma paginação inteiramente revolucionária", relembrou.
Os anos de chumbo
Durante a ditadura militar, o Jornal do Brasil não vê no general Costa e Silva condições de impedir o endurecimento do Regime, logo comprovado com a decretação do AI-5, que mereceu total repúdio. A edição que anuncia o recrudescimento do regime, em dezembro de 1968, entra para a história da imprensa. Através de sutilezas imperceptíveis para os censores, consegue informar aos leitores que está sob severa vigilância. No início da década de 1970, JB e O Globo protagonizam uma vibrante disputa. Roberto Marinho passa a publicar O Globo também aos domingos e briga por espaço com o concorrente. Em represália, Nascimento Brito começa a sair às ruas às segundas-feiras. Logo depois, os classificados são o alvo da disputa. O JB saiu na frente mas, em 1976, O Globo derruba sua liderança no mercado de anúncios.
Os anos 1970 marcam o declínio do JB. Erros de gestão e falhas de planejamento estratégico levam a dificuldades financeiras incontornáveis. No final da década anterior, os proprietários do jornal decidem construir uma nova sede. Com a obra, a empresa endivida-se em dólar. O novo prédio é projetado para abrigar todas as marcas do grupo, incluindo o canal de televisão. "O jornal fez um empréstimo grande para terminar o prédio. Este empréstimo coincidiu exatamente com o pior momento da vida brasileira. Essa dívida passou a crescer porque o jornal, com a mudança, teve que fazer uma porção de outras despesas. E foi aí que a dívida ficou impagável porque a inflação não perdoa", explicou Wilson Figueiredo, que foi vice-presidente do JB.
Em 1973, o jornal muda-se para a nova sede. "A imponência e a dimensão daquele prédio correspondiam a um certo sentimento de grandeza inexplicado do dr. Nascimento Brito e, na verdade, aquilo não se tornou a sede do Jornal do Brasil, mas o mausoléu", disse Maurício Azêdo, ex-redator do JB e presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Wilson Figueiredo considera que naquele endereço o diário teve o seu momento de grandeza, esgotou suas possibilidades, não foi capaz de superar-se e "morreu".
Começo do fim
Nos anos 1980, o JB ainda conserva parte do vigor editorial do passado, mas as crescentes dívidas já afetam a publicação. No final da década de 1990, a empresa entra em colapso financeiro. Ex-colunista do jornal, Ancelmo Gois relembrou que este foi um período muito conturbado da economia nacional com inflação alta e diversos choques econômicos e cambiais. "Várias empresas familiares de grande porte também naufragaram naquele período", ponderou. Em 2001, o montante das dívidas gira em torno de R$ 700 milhões. Os acionistas do JB arrendam a marca para a Companhia Brasileira de Multimídia, controlada pela Docasnet, de Nelson Tanure, por cerca de R$70 milhões.
"Nessa última fase do Jornal do Brasil exercitaram naquele jornal o conceito de que informação é commodity e aí fizeram um jornal amesquinhado. Era feito dentro de um conceito onde você ia buscar informação dentro da internet. Essa informação era rala e os leitores estava acostumados a informação com densidade", avaliou Arnaldo César, ex-editor de Economia do JB. Em 2006, o diário adota o formato berliner. "O formato atual não é ruim, e até bom para um jornal novo. Mas não para um jornal que tem uma história gráfica, editorial e ética como o Jornal do Brasil. Virou um jornaleco", disse Reynaldo Jardim, um dos precursores da reforma do JB. "E feio. Não tinha nada a ver com aquele jornal que existia", completou Ferreira Gullar.
Ao final da reportagem, os entrevistados avaliaram as consequências para o mercado do Rio de Janeiro. "O leitor perde. É melhor uma cidade com muitos jornais do que com poucos jornais. Isso é melhor em qualquer circunstância, em qualquer lugar do mundo", advertiu Ancelmo Gois. "O Jornal do Brasil, ao sair do mercado de impressos e se concentrar no mercado eletrônico – e eu acho que o jornal vai fazer isso única e exclusivamente para a manutenção da marca e não para exercer um jornalismo, de fato, na internet... Esse é o buraco que o Jornal do Brasil deixou. E eu acho que existe hoje no mercado do Rio de Janeiro um espaço para uma publicação com informação qualificada", disse Arnaldo César.
Esvaziamento do Rio
O Observatório exibiu uma entrevista com Franklin Martins, ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social, que falou sobre o fim da edição impressa do JB na qualidade de jornalista. "Ele tinha as suas opiniões, muitas vezes eu não concordava com elas, mas era um jornal que não agredia o leitor querendo impor as suas opiniões. Um jornal que tratava o leitor com respeito e inteligência, e sempre dizendo a ele: ‘essa é informação que eu estou te dando, mas você pode ir além dela’", disse. Franklin Martins explicou que o Rio de Janeiro já teve uma imprensa plural e que o caso do JB é "apenas o exemplo mais dramático" do esvaziamento da mídia carioca.
"A indústria da comunicação se tornou uma indústria muito pesada, com custos muito altos", sublinhou. Por outro lado, o jornalista acredita que a digitalização e a internet abrem possibilidades para um "contra-fenômeno", uma vez que reduzem bruscamente os custos de produção de um jornal. "Dois terços dos custos de um jornal são dedicados a papel, circulação e administração correspondente a isso. Ou seja, o negócio central, o coração do negócio da imprensa, que é a redação, é responsável mais ou menos por um terço do jornal. Talvez os jornais atuais sobrevivam ainda com uma edição em papel ao lado de uma edição eletrônica, mas a tendência em longo prazo é a de se caminhar para um jornal eletrônico", disse.
A digitalização, ao baratear os custos de produção, abre possibilidades em médio prazo de surgimento de publicações eletrônicas "mais baratas que talvez não tenham que pertencer a grandes grupos". Este fenômeno está em curso em diversos países, não só no Brasil. "Talvez a gente possa voltar um pouquinho à época heróica do jornalismo, quando ele era mais plural, dava menos palpite, se preocupava mais com o leitor, em dar informação", avaliou.
Escola de jornalismo
No debate ao vivo, Ana Arruda Callado – a segunda repórter do Jornal do Brasil –lembrou que o jornal conhecido como "o jornal das cozinheiras", depois da reforma, transformou-se no "mais charmoso, importante e bem escrito do país". Ana chegou ao JB em 1958, quando ele passou a publicar fotografias na primeira página. "Era o jornal modelo deste país. Dines falou na abertura do programa em ‘profissão romântica’. Nós éramos românticos. Nós adorávamos o jornal como se fosse nosso", contou. Durante as viagens pelo JB, Ana era interpelada por repórteres de todo o país, ávidos por saber detalhes sobre os bastidores do jornal.
Ricardo Noblat, que trabalhou nas sucursais do JB no Recife e em Brasília, disse que o Jornal do Brasil era uma meta que a maioria dos jornalistas fora do eixo Rio-São Paulo aspirava. "Era a escola onde todos gostariam de trabalhar", disse. Noblat contou que nos tempos áureos o JB funcionava como um jornal, de fato, nacional. A sucursal de Recife, por exemplo, chegou a contar com seis repórteres. "O jornal procurava refletir tudo o que de importante acontecia no país. Então, não só tinha uma rede extensa de sucursais, como de correspondentes. E olha que eu estou falando em uma época em que a gente mandava matéria por telegrama ou malote", relembrou.
Para o empresário Wálter de Mattos Jr, o jornalismo em papel no Rio de Janeiro caminha para um tom monocórdico. "Você tem alguns jornais populares que cumprem um papel importante, mas nesse segmento do quality paper você ficou com um jornal. E isso limita bastante", analisou. Já em outras plataformas, como a internet, o padrão de competitividade é "extraordinariamente alto". "O Rio está muito mais pobre, mas não é de hoje. A gente está falando de um réquiem que começou a ser tocado há muito tempo", lamentou.
Fonte: Observatório da Imprensa
Na semana passada, o Jornal do Brasil anunciou mais um capítulo da sua lenta agonia. Após 119 anos de história, deixará de sair em papel. A partir de primeiro de setembro, manterá apenas a versão online. A notícia não chegou a ser uma surpresa. Há décadas, o jornal enfrenta uma grave crise financeira. Aquele que foi o jornal mais influente e copiado do Brasil entre as décadas de 1950 e 1970 atualmente tem uma tiragem de apenas 20 mil exemplares. O passivo acumulado é estimado em R$ 800 milhões, a maior parte em dívidas trabalhistas e fiscais.
Alberto Dines recebeu três jornalistas no estúdio do Rio de Janeiro: Ana Arruda Callado, Ricardo Noblat e Wálter de Mattos Jr. Escritora e professora universitária, Ana Arruda é doutora em Comunicação e Cultura pela UFRJ. Presidiu o Conselho Estadual de Cultura, foi vice-presidente da ABI e presidente do Conselho Administrativo. Noblat é jornalista há 43 anos, sendo 28 destes dedicados à cobertura política. Atualmente tem uma coluna semanal no jornal O Globo e mantém um blog na Internet que é um dos mais visitados no Brasil, o Blog do Noblat. Wálter de Mattos Jr. é diretor-presidente e criador do diário esportivo Lance!, o primeiro jornal nacional de esportes do país e, atualmente, o maior veículo do segmento esportivo na América Latina.
Antes do debate no estúdio, na coluna "A Mídia na Semana", Dines comentou a trágica morte do menino Wesley Gilbert Rodrigues de Andrade, atingido no peito por um tiro de fuzil dentro da escola durante uma operação da polícia militar no Rio de Janeiro (16/7). A escola de Wesley figurou em uma série de matérias publicada no mês passado pelo jornal O Globo sobre colégios em áreas de risco. "A série de reportagens ‘O x da questão’ pretendia fugir das estatísticas, dar nome e rosto às crianças que vivem na terra de ninguém. Como jornalismo foi perfeita. Como presságio foi tragicamente correto", avaliou.
Profissão romântica
Ainda antes do debate ao vivo, em editorial, Dines disse que a frieza com a qual a mídia tratou o caso do JB é o símbolo de uma transformação. "A imprensa abdicou das emoções porque aceitou transformar-se numa indústria tão transcendental quanto uma fábrica de biscoitos", censurou. Para Dines, escolhas políticas contribuíram para o declínio do jornal. "A amizade mais perniciosa foi com Delfim Netto, que estimulou o jornal a endividar-se pesadamente para financiar uma faraônica sede e os novos equipamentos. Este elefante branco atropelou o resto dos escrúpulos e entregou o jornal a um empresário que não lê jornais e detesta jornais, exceto jornais moribundos que arrenda a preço de banana", criticou.
A reportagem exibida pelo Observatório contou a história do jornal. É em meio à agitação política no país que deixava a monarquia para se tornar uma República, que Rodolfo Dantas funda o Jornal do Brasil. Defensor do antigo regime Liberal, o novo periódico é lançado em 1891. Entre os diretores do jornal nos primeiros anos constavam nomes como Joaquim Nabuco e Ruy Barbosa. Em 1905, adota uma linha editorial voltada para o noticiário do cotidiano da cidade. As dificuldades financeiras levam o JB a ocupar a primeira página só com anúncios classificados – e por esta razão ele ganha o apelido de "jornal das cozinheiras".
Em 1953, morre o Conde Pereira Carneiro e sua viúva, Maurina Dunshee de Abranches, assume a direção. Manoel Francisco do Nascimento Brito, genro e representante da condessa Pereira Carneiro, adquire novo equipamento gráfico e lança a idéia de reformulação do jornal. A partir de 1956, a forma de apresentar a notícia muda radicalmente. Saem os fios que separam as colunas de texto, diminui o espaço dos classificados e a fotografia passa a ser publicada na primeira página. O poeta Ferreira Gullar, que fez parte da equipe que reformou o jornal, contou que o Suplemento Dominical – ponto de partida das mudanças – era totalmente inovador. "Tinha uma paginação inteiramente revolucionária", relembrou.
Os anos de chumbo
Durante a ditadura militar, o Jornal do Brasil não vê no general Costa e Silva condições de impedir o endurecimento do Regime, logo comprovado com a decretação do AI-5, que mereceu total repúdio. A edição que anuncia o recrudescimento do regime, em dezembro de 1968, entra para a história da imprensa. Através de sutilezas imperceptíveis para os censores, consegue informar aos leitores que está sob severa vigilância. No início da década de 1970, JB e O Globo protagonizam uma vibrante disputa. Roberto Marinho passa a publicar O Globo também aos domingos e briga por espaço com o concorrente. Em represália, Nascimento Brito começa a sair às ruas às segundas-feiras. Logo depois, os classificados são o alvo da disputa. O JB saiu na frente mas, em 1976, O Globo derruba sua liderança no mercado de anúncios.
Os anos 1970 marcam o declínio do JB. Erros de gestão e falhas de planejamento estratégico levam a dificuldades financeiras incontornáveis. No final da década anterior, os proprietários do jornal decidem construir uma nova sede. Com a obra, a empresa endivida-se em dólar. O novo prédio é projetado para abrigar todas as marcas do grupo, incluindo o canal de televisão. "O jornal fez um empréstimo grande para terminar o prédio. Este empréstimo coincidiu exatamente com o pior momento da vida brasileira. Essa dívida passou a crescer porque o jornal, com a mudança, teve que fazer uma porção de outras despesas. E foi aí que a dívida ficou impagável porque a inflação não perdoa", explicou Wilson Figueiredo, que foi vice-presidente do JB.
Em 1973, o jornal muda-se para a nova sede. "A imponência e a dimensão daquele prédio correspondiam a um certo sentimento de grandeza inexplicado do dr. Nascimento Brito e, na verdade, aquilo não se tornou a sede do Jornal do Brasil, mas o mausoléu", disse Maurício Azêdo, ex-redator do JB e presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Wilson Figueiredo considera que naquele endereço o diário teve o seu momento de grandeza, esgotou suas possibilidades, não foi capaz de superar-se e "morreu".
Começo do fim
Nos anos 1980, o JB ainda conserva parte do vigor editorial do passado, mas as crescentes dívidas já afetam a publicação. No final da década de 1990, a empresa entra em colapso financeiro. Ex-colunista do jornal, Ancelmo Gois relembrou que este foi um período muito conturbado da economia nacional com inflação alta e diversos choques econômicos e cambiais. "Várias empresas familiares de grande porte também naufragaram naquele período", ponderou. Em 2001, o montante das dívidas gira em torno de R$ 700 milhões. Os acionistas do JB arrendam a marca para a Companhia Brasileira de Multimídia, controlada pela Docasnet, de Nelson Tanure, por cerca de R$70 milhões.
"Nessa última fase do Jornal do Brasil exercitaram naquele jornal o conceito de que informação é commodity e aí fizeram um jornal amesquinhado. Era feito dentro de um conceito onde você ia buscar informação dentro da internet. Essa informação era rala e os leitores estava acostumados a informação com densidade", avaliou Arnaldo César, ex-editor de Economia do JB. Em 2006, o diário adota o formato berliner. "O formato atual não é ruim, e até bom para um jornal novo. Mas não para um jornal que tem uma história gráfica, editorial e ética como o Jornal do Brasil. Virou um jornaleco", disse Reynaldo Jardim, um dos precursores da reforma do JB. "E feio. Não tinha nada a ver com aquele jornal que existia", completou Ferreira Gullar.
Ao final da reportagem, os entrevistados avaliaram as consequências para o mercado do Rio de Janeiro. "O leitor perde. É melhor uma cidade com muitos jornais do que com poucos jornais. Isso é melhor em qualquer circunstância, em qualquer lugar do mundo", advertiu Ancelmo Gois. "O Jornal do Brasil, ao sair do mercado de impressos e se concentrar no mercado eletrônico – e eu acho que o jornal vai fazer isso única e exclusivamente para a manutenção da marca e não para exercer um jornalismo, de fato, na internet... Esse é o buraco que o Jornal do Brasil deixou. E eu acho que existe hoje no mercado do Rio de Janeiro um espaço para uma publicação com informação qualificada", disse Arnaldo César.
Esvaziamento do Rio
O Observatório exibiu uma entrevista com Franklin Martins, ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social, que falou sobre o fim da edição impressa do JB na qualidade de jornalista. "Ele tinha as suas opiniões, muitas vezes eu não concordava com elas, mas era um jornal que não agredia o leitor querendo impor as suas opiniões. Um jornal que tratava o leitor com respeito e inteligência, e sempre dizendo a ele: ‘essa é informação que eu estou te dando, mas você pode ir além dela’", disse. Franklin Martins explicou que o Rio de Janeiro já teve uma imprensa plural e que o caso do JB é "apenas o exemplo mais dramático" do esvaziamento da mídia carioca.
"A indústria da comunicação se tornou uma indústria muito pesada, com custos muito altos", sublinhou. Por outro lado, o jornalista acredita que a digitalização e a internet abrem possibilidades para um "contra-fenômeno", uma vez que reduzem bruscamente os custos de produção de um jornal. "Dois terços dos custos de um jornal são dedicados a papel, circulação e administração correspondente a isso. Ou seja, o negócio central, o coração do negócio da imprensa, que é a redação, é responsável mais ou menos por um terço do jornal. Talvez os jornais atuais sobrevivam ainda com uma edição em papel ao lado de uma edição eletrônica, mas a tendência em longo prazo é a de se caminhar para um jornal eletrônico", disse.
A digitalização, ao baratear os custos de produção, abre possibilidades em médio prazo de surgimento de publicações eletrônicas "mais baratas que talvez não tenham que pertencer a grandes grupos". Este fenômeno está em curso em diversos países, não só no Brasil. "Talvez a gente possa voltar um pouquinho à época heróica do jornalismo, quando ele era mais plural, dava menos palpite, se preocupava mais com o leitor, em dar informação", avaliou.
Escola de jornalismo
No debate ao vivo, Ana Arruda Callado – a segunda repórter do Jornal do Brasil –lembrou que o jornal conhecido como "o jornal das cozinheiras", depois da reforma, transformou-se no "mais charmoso, importante e bem escrito do país". Ana chegou ao JB em 1958, quando ele passou a publicar fotografias na primeira página. "Era o jornal modelo deste país. Dines falou na abertura do programa em ‘profissão romântica’. Nós éramos românticos. Nós adorávamos o jornal como se fosse nosso", contou. Durante as viagens pelo JB, Ana era interpelada por repórteres de todo o país, ávidos por saber detalhes sobre os bastidores do jornal.
Ricardo Noblat, que trabalhou nas sucursais do JB no Recife e em Brasília, disse que o Jornal do Brasil era uma meta que a maioria dos jornalistas fora do eixo Rio-São Paulo aspirava. "Era a escola onde todos gostariam de trabalhar", disse. Noblat contou que nos tempos áureos o JB funcionava como um jornal, de fato, nacional. A sucursal de Recife, por exemplo, chegou a contar com seis repórteres. "O jornal procurava refletir tudo o que de importante acontecia no país. Então, não só tinha uma rede extensa de sucursais, como de correspondentes. E olha que eu estou falando em uma época em que a gente mandava matéria por telegrama ou malote", relembrou.
Para o empresário Wálter de Mattos Jr, o jornalismo em papel no Rio de Janeiro caminha para um tom monocórdico. "Você tem alguns jornais populares que cumprem um papel importante, mas nesse segmento do quality paper você ficou com um jornal. E isso limita bastante", analisou. Já em outras plataformas, como a internet, o padrão de competitividade é "extraordinariamente alto". "O Rio está muito mais pobre, mas não é de hoje. A gente está falando de um réquiem que começou a ser tocado há muito tempo", lamentou.
Fonte: Observatório da Imprensa
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