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quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A imprensa, para que serve?


Por Lúcio Flávio Pinto
Conta a lenda que certa vez Assis Chateaubriand telefonou para o editorialista do Diário de S. Paulo, encomendando um artigo sobre Jesus Cristo para a sexta-feira santa. Na bucha, perguntou o solícito escriba:
– A favor ou contra?
É fato incontestável que Edmundo Bittencourt mandou expurgar do Correio da Manhã o nome do escritor mulato (o “outro lado” de Machado de Assis) Lima Barreto, ao ver-se retratado (e ironizado) emRecordações do escrivão Isaías Caminha, hoje um clássico da literatura brasileira e uma das mais confiáveis referências sobre a redação de um jornal dessa época.
Também o presidente Arthur Bernardes foi interditado das páginas do Correio, o mais importante jornal da república durante pelo menos meio século. Já O Estado de S. Paulo passou a tratar o governador (e eterno candidato a presidente) Ademar de Barros somente por A. de Barros.
Demonstração em contrário
Exemplos do abuso do direito de informar? Certamente. Nem por isso, entretanto, pode-se dizer que os “barões da imprensa” reescreveram como quiseram a história do seu tempo, ou a apagaram, conforme seus caprichos, veleidades e suscetibilidades. O impulso do dono do Correio da Manhã foi típico de exercício do poder e do machismo da época, como o que o fez duelar com o também poderoso político gaúcho Pinheiro Machado. Já o veto a Bernardes foi represália ao fechamento do jornal (por longos sete meses) ordenado pelo político mineiro, que exerceu todo o seu quatriênio presidencial sob estado de sítio, na irrupção das revoltas tenentistas.
Júlio de Mesquita Filho se vingava do interventor de São Paulo, conivente com a ocupação federal do jornal, determinada por Getúlio Vargas durante a ditadura do Estado Novo, que levou a família Mesquita a se exilar. Ademar virou uma inicial, mas não sumiu do noticiário. Apenas era tema constante dos ataques do Estadão (como Maluf viria a ser também). Mal menor, principalmente em função do efeito contrário: a repulsa do grande jornal paulista às ditaduras, que levou o filho de Julinho, Júlio Neto, a romper com os militares, cujo golpe o pai apoiara (e dos quais se desligara com o AI-5).
Encarar a grande imprensa como um Partido da Imprensa Golpista não é só uma ofensa à verdade histórica: é uma forma sorrateira (e, para alguns usuários dessa definição, cínica) de estimular, ainda que subliminarmente, a censura oficial, a perseguição estatal ou a sedução pelo poder estabelecido. A esquerda cultiva a última dona do Correio da Manhã, viúva de Paulo, Niomar, como heroína. Sua resistência aos despóticos donos do poder, com a deposição de João Goulart, foi realmente admirável.
Ela demonstrou uma fibra rara naqueles dias de intolerância e obscurantismo, que induziam a covardia e a acomodação. Mas foi também de uma leviandade incrível na condução de uma instituição como o Correio. No auge do prestígio do jornal, seu redator-chefe, o controverso Costa Rego, tinha mais poder do que a grande maioria dos freqüentadores dos palácios do Catete e Guanabara, sedes da presidência da República no Rio de Janeiro. Mesmo eventuais barbaridades eram bem feitas no jornal, temido pelo conteúdo das suas páginas, onde se combinavam inteligência, força argumentativa e boa informação.
Eis o fundamento da relevância social da imprensa: não banir a história cotidiana das suas páginas. Pelo contrário, submeter-se à imposição da função da imprensa: identificar os fatos relevantes do dia a dia e não deixar de referi-los para o leitor, mesmo que a contragosto. Daí a importância da leitura das publicações periódicas. Elas podem minimizar acontecimentos e dificultar a compreensão dos fatos, mas em algum lugar esses dados estarão registrados. A leitura de um jornal com essa diretriz pode ser demorada e exigir maior preparo para sua decodificação, mas terminará por dar ao leitor melhores condições para exercer seu papel social.
Mas o que acontece quando à frente de uma organização complexa e sensível como uma empresa jornalística estão pessoas sem a menor consciência sobre a especificidade do seu negócio e a dimensão profunda do seu produto, ou sem o respeito devido à opinião pública, destinatária e razão de ser da imprensa? O Pará está entregue a essas pessoas. O comando das empresas jornalísticas não está à altura das necessidades e exigências do Estado. Num momento de altas responsabilidades, a imprensa é comandada por anões.
Os dois principais grupos jornalísticos têm interesses políticos e comerciais fortes demais. Não conseguem exercer a função de registrar, analisar e interpretar os acontecimentos sem que essa mediação esteja contaminada pela sua própria condição: de participantes desse enredo diário. Não tem a isenção e a grandeza requeridas para serem os auditores da sociedade.
Por incrível que pareça, a situação é menos grave sob o império do ex-deputado federal Jader Barbalho. Apesar das origens desse grupo de comunicação estarem confundidas pela promiscuidade no exercício do poder público e sua continuidade depender da manutenção desse domínio político, os veículos da corporação tentam até mesmo abrigar o noticiário contra o dono. Há vislumbres e sussurros de controvérsia e crítica no Diário do Pará e nas emissoras da RBA. Mesmo quando periodicamente sujeitos a recaídas censoriais e oportunistas.
Nem isso tem a possibilidade de acontecer no império dos Maioranas. Alguém já viu ou ouviu algum laivo de restrição aos donos das emissoras do grupo Liberal? Já foi possível ler a mais remota sombra de restrição aos integrantes da família, em sua exclusiva face de pessoas públicas e notórias? Quem tiver exemplos, pode apresentá-los.
O que há é abundante demonstração em contrário. Nenhum dos veículos do grupo Liberal fez a mais remota referência à ação proposta pelo Ministério Público Federal contra os irmãos Romulo e Ronaldo Maiorana. Como a ação na justiça federal não existiu para eles, a absolvição também não foi noticiada. Muito leitor deve ter ficado confuso ao constatar que a notícia saiu no rival Diário do Pará, mas não em O Liberal, que, em tese, devia até saudá-la em editorial de primeira página. Afinal, os donos do jornal não estavam se livrando, ao menos no primeiro grau de jurisdição, da ameaça de condenação, que parecia inevitável?
Anúncio pago
É verdade que o mérito da questão deixou de ser examinado pelo juiz Antonio Campelo. Sua sentença se valeu de uma formalidade, o fim do direito do Estado à punição do delito cometido, tecnicamente chamada de prescrição. Mas certamente não foi pela consciência da relatividade da extinção do processo sem consideração de mérito que nada foi publicado (situação semelhante à do prefeito Duciomar Costa, réu confesso do crime de usar diploma falso de médico, também beneficiado pela prescrição). A razão do silêncio final, coerente com o silêncio inicial, é expurgar o fato inconveniente da história. Quem for reconstituí-la pela consulta à coleção de O Liberal jamais saberá que houve esse processo. Daí tantas histórias falsas escritas por acadêmicos medíocres.
Outro exemplo, o mais recente: os veículos do grupo Liberal não fizeram qualquer registro sobre a morte do advogado, professor e jornalista Fernando Moreira de Castro Júnior. Fernando foi funcionário de O Liberal, amigo ou conhecido dos donos da empresa e pessoa de grande evidência social. Sua mulher trabalhou por muito mais tempo ainda no grupo Liberal.
Ambos eram – e Vera continua a ser – o que antigamente se chamava de confrades dos Maioranas. Mas não só não houve uma única notícia sobre o falecimento como sequer os seis colunistas sociais do jornal se dignaram a dar um adeus ao colega e, para alguns, amigo. Tudo porque ordem superior determinou silêncio total. O crime do réprobo: trabalhar no jornal do inimigo, vergastado quase todos os dias por editoriais monocórdios como o exemplo universal da corrupção, da qual os irmãos Maioranas se livraram (como o próprio Jader Barbalho em outros momentos) pela prescrição, já réus confessos. Ou pelas lacunas nas leis ou pela leniência, lentidão ou incompetência dos órgãos da sociedade incumbidos de punir os malfeitos.
O Liberalparece todo integrado por personagens como o editorialista vassalo de Assis Chateaubriand. Não há mais qualquer força de resistência às ordens emanadas do mais alto posto na hierarquia da empresa, mesmo que essas determinações atentem contra a razão de ser da imprensa ou viole dignidades pessoais, já negociadas e arquivadas no escaninho das conveniências e oportunismos.
Quem vasculhou O Liberal no dia seguinte à morte de Fernando Castro, nada encontrou sobre um fato que podia ter sido albergado em duas linhas de coluna ou num noticiário burocrático. Mas encontrou um anúncio fúnebre do Banco do Estado do Pará comunicando o falecimento – pago, naturalmente. Era só o que havia sobre aquele fato, que qualquer jornal decente não deixaria de publicar. A dignidade jornalística foi extinta no jornal de Romulo Maiorana, se é que já não está em decomposição. O caixa é o que continua funcionando.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

A globalização da ética de imprensa

Por Eugênio Bucci

O fechamento do tabloide inglês The News of the World, que vendia 2,6 milhões de exemplares, deu a largada para a principal discussão sobre ética de imprensa no mundo globalizado. A partir de agora está claríssimo: a conduta dos órgãos encarregados de informar a sociedade é uma pauta supranacional. Não é apenas o capital que viaja em segundos de um continente para outro. Não são apenas as massas trabalhadoras que migram clandestinamente para disputar empregos em terras estrangeiras. Não é apenas a indústria da diversão que alcança simultaneamente os olhares de povos distantes entre si. Agora ficou evidente: a credibilidade dos órgãos jornalísticos não é meramente um assunto doméstico, ela floresce e sucumbe na arena global.

Já veremos por quê. Antes façamos uma recapitulação sumária do que se passou.

Esse jornal, The News of the World, tinha 168 anos de idade. Desde 1969 pertencia à News Corporation, o megaconglomerado internacional, com faturamento na casa dos US$ 33 bilhões ao ano, controlado pelo australiano Rupert Murdoch. Vivia de bisbilhotagem, luxúria e algum sangue. Vivia muito bem, apesar do lento declínio em circulação, que vinha de décadas. Sua fórmula editorial ia dos aposentos da família real em Londres às estripulias transoceânicas dos astros do show business, passando por bestialidades a granel.

Há poucos anos, seus métodos “jornalísticos” passaram a ser contestados. No site da Press Complaints Commission – instituição encarregada da autorregulamentação da imprensa britânica – há queixas de escutas clandestinas contra ele. Na esfera policial também houve investigações. Um jornalista do News of the World, Clive Goodman, chegou a ser preso em 2007.

Agência de arapongas

Tudo isso não é novo, portanto. Mas até então se acreditava que os crimes registrados eram desvios individuais, casos isolados, como se diz. Agora se viu que não. Os crimes são mais sérios e muito mais numerosos. Segundo apontam as investigações, seriam mais de 4 mil os telefones grampeados pelo jornal. Estamos falando, portanto, da industrialização do grampo. Gerenciar milhares de escutas clandestinas é uma operação de monta: requer equipes treinadas, orçamentos bem planejados, estruturas próprias. Os inquéritos vão dando conta de que o News não era uma redação jornalística – era uma agência de arapongas assalariados.

Descobriu-se mais. Além de grampear celebridades – o que já constitui uma ilegalidade inaceitável, que se situa fora do campo do jornalismo –, o jornal teria invadido celulares de pessoas comuns, que não dependem do estrelato para inflar seus cachês. Grampeou parentes de soldados mortos. Grampeou até a adolescente Milly Dowler. A garota estava desaparecida – soube-se depois que já tinha sido assassinada – quando detetives contratados pelo News apagaram mensagens de seu celular, o que causou nos familiares a impressão de que ela ainda estava viva. Com isso o caso ganhou uma sobrevida – e, em consequência, a cobertura do caso, liderada pelo News of the World, também ganhou sobrevida. Lucrativa.

Essas revelações estarreceram a Inglaterra. O tabloide era um serial killer da privacidade de gente comum. Anunciantes caíram fora. Os protestos se generalizaram. Murdoch fechou o semanário, na tentativa de estancar a sangria de reputação e de salvar um objetivo maior: ele queria comprar a totalidade da BSkyB, um poderoso grupo de canais a cabo do qual já é sócio. A tentativa não deu certo. O quadro só se complicou. Andy Coulson, ex-diretor do News of the World e porta-voz de David Cameron, o primeiro-ministro britânico, até janeiro de 2011, foi preso na sexta-feira passada. Só foi liberado sob fiança. O ex-primeiro ministro Gordon Brown diz que também foi grampeado. A crise do tabloide virou uma crise no Parlamento. Políticos de correntes várias passaram a contestar em público as pretensões do dono da News Corp., a tal ponto que, ontem mesmo, Murdoch anunciou que desistiu da compra da BSkyB. Ele está acuado. Na Inglaterra e no mundo.

O Watergate de Murdoch

Aí é que entram as razões da internacionalização desse debate. O escândalo dos grampos virou notícia no mundo todo porque o conglomerado de Murdoch está no mundo todo – e se ele faz por aí o que parece ter feito em Londres, isso diz respeito a todos nós. Ontem pela manhã a Rádio CBN noticiou em primeira mão no Brasil que o senador democrata Jay Rockefeller pretende investigar o grupo de Murdoch nos Estados Unidos. Um dos jornais que mais se destacaram na cobertura dos bueiros da News Corp. – depois do diário inglês The Guardian – é o americano The New York Times, que vem sofrendo uma concorrência frontal do Wall Street Journal, comprado, em 2007, por ninguém menos que Murdoch. Na Newsweek desta semana, o jornalista Carl Bernstein – autor, ao lado de Bob Woodward, da série de reportagens sobre o escândalo de Watergate, publicadas no Washington Post, que levaram a renúncia de Richard Nixon, em 1974 – lança a pergunta que só ele pode fazer: será que esse escândalo não é o Watergate de Murdoch?

O sentimento geral foi bem sintetizado pela revista The Economist de quinta passada: “Se ficar provado que os diretores da News Corporation agiram contra a lei, eles não deveriam mais comandar nenhum jornal ou estação de TV. Deveriam estar na cadeia”. Isso vale para qualquer país. No mundo de hoje, as práticas dos tabloides ingleses viraram tema do interesse público internacional.

Sim, isso mesmo. Existe um interesse público internacional, ainda que difuso, rarefeito, pouco institucionalizado. Não são apenas o capitalismo selvagem e a especulação financeira que rasgam fronteiras. As preocupações humanitárias em geral e a ética jornalística em particular também se globalizam como valores universais. É a isso que Murdoch terá de prestar contas. E com isso ele talvez não contasse.

Fonte: Observatório da Imprensa

quinta-feira, 22 de julho de 2010

O desjejum cotidiano

Por Gilberto A. Bernardi

"Uma profissão com pouco prestígio, esquecida e desvalorizada. Alunos iludidos e jornalistas sem ética. Uma profissão que pode ser exercida em qualquer boteco de esquina"

A mesa está abarrotada de trabalho. São folhas brancas e recicladas, dicionário, um copo sujo de café e bilhetes de reuniões colados na tela do computador. E-mails para mandar e pautas a serem feitas, mas... Vejo que o trabalho de um jornalista é realmente sujo e vulgar.

A relação notícia/emprego é tão antiética que resta olhar para trás e ver que me faltou apoio para cursar Medicina. Esse mundo fantástico prometido pela mídia é manipulador, tanto quanto a faculdade que diz transformar seres mortais em formadores de opinião. Já tentou opinar fora da linha editorial? Eu já dei um de revolucionário sem causa. Resultado: fui bater na porta do concorrente – fiquei um ano e alguns meses na mesma situação de milhares de brasileiros que aumentam a lista de desempregados. Essa lista é publicada todos os meses por um colega de trabalho que nem sabe que existo, mas cumprimento-o todas as noites após ouvir o repertório de manipulação. Plim Plim.

"Ser jornalista é o máximo. Dá pra escrever e falar o que se pensa, ter acesso a lugares que os cidadãos normais não têm" – todos já pensaram isso na infância. Essa estória de que profissional da comunicação com habilitação em Jornalismo pode opinar sobre todos os assuntos só existe no conto de fadas do jornalismo independente – apenas entre nós, mas jornalismo independente é como acreditar que os políticos vão cumprir o que prometem.

"Nóis semo tudo jornalista instruído"


Para que serve um jornalista? Para informar a massa sobre o que nem ele acredita. O pior está por vir – noticiamos algo que está errado, sabemos que não está certo, mas temos a cara de pau de crer na veracidade dos fatos improcedentes. O povo, que por sua vez, é ingênuo, ri da nossa exposição e mesmo assim, nos tem como fonte segura e confiável. "Tu viu só o que a RBS noticiou hoje?", afirmam.

"E no futuro estamos nós", sentados em frente a um computador digitando palavras incomuns para compor uma notícia do cotidiano. Ficamos com os olhos esbugalhados, com dor nas costas, dentes pretos (efeitos do café), resmungões e ganhando uma miséria. Que graça tem? "Ah! mas o jornalismo é a atuação direta do social, nos faz ser mais humanos em ver a situação de pessoas que estão ou não numa condição complicada", falamos, com autoridade "mauxima" quando formandos em jornalismo. É a desgraça dos dias que virão.

É uma profissão de equilíbrio emocional. Uma questão de redundância diária. Ser jornalista é saber lidar com a escolha do regime capitalista. Noticiar as greves das diversas categorias que se opõe ao salário baixo, dar o maior apoio à manifestação, mas se esquecer que também ganha pouco e não faz nada por isso. "Nóis semo tudo jornalista instruído e com o tal do diproma na mão." Convida um colega para fazer linha de frente e discutir a questão do piso salarial. "Você tem razão, não ganhamos nada, só não te ajudo com isso por que tenho que trabalhar agora", responde com proeza o formador de opinião.

Trabalho não é reconhecido


Jornalista nem sempre escreve bem. É um profissional que "necessita" saber sobre tudo, mas não sabe nada. Na faculdade enche a boca para dizer que é jornalista e quando se forma vai ganhar entre R$ 1 e 1,5 mil e desanima. Vê que é bom ganhar dinheiro, mas que com essa profissão nunca vai morar num bairro nobre; vai ter um Gol ou um Uno 1.0 porque faz média melhor. Vai querer criticar juízes, políticos, advogados, médicos, mas vai esbarrar na lei. Na lei que a empresa para qual trabalha criou. "Sempre publicar noticias que remetam ao público coisas boas das pessoas que tragam benefício para a empresa", direciona o chefe. Aí, o jornalista se dá por conta que os quatro anos de estudo sobre a ciência da informação nada valeram. Na universidade discutem a respeito de linhas editoriais, mas não ensinam a respeito – é que quem faz o curso é o aluno (tinha esquecido de citar).

Ser jornalista é ser irônico com si próprio. É achar que goza dos erros alheios, porém o que erra sempre ganha mais que o jornalista. Ganhar é o que vale. Mundo melhor só existe na utopia dos comunistas de plantão (ser militante comunista é igual ou pior que um jornalista). Imagine um jornalista comunista? É acreditar piamente na epistemologia do sonho.

Entretanto, o jornalista deveria ser estudado por cientistas não cristãos: não existe "homem mais besta que um jornalista". No curso, diz ter atitude própria, depois de formado adota a personalidade que a empresa ordena; acredita ser superior, no fim o público se diverte com o camarada em frente às câmeras de TV (idem outros meios de comunicação) e sai falando das palhaçadas feitas no ar; as notícias impressas que demoraram horas, talvez meses, para serem publicadas, no outro dia estão enrolando salame no boteco da esquina ou limpando a entranha de um terceiro; não tem o trabalho reconhecido; a informação, por mais importante que seja, é abstrata, portanto se torna nula e o jornalista só é lembrado naquele instante: é como o BBB, só se é famoso enquanto se aparece na tela; depois de eliminado, faz alguns trabalhos para revistas de prazer (isso se tiver um corpo possível de usar em Photoshop) e em seguida é esquecido.

Basta um pouco de português e agir por instinto


Acha que é a melhor profissão do mundo por esta ser conhecida como não tendo rotina, o que é mentira: todo jornalista está sempre com um bloquinho e uma caneta na mão escrevendo meia dúzia de palavras, para depois voltar a redação e escrever a besteira colhida; acredita que jornalista bom é jornalista com formação superior, mas os meios de comunicação estão lotados de pessoas com ensino médio e que possuem uma voz agradável. Detalhe: o jornalista formado vai receber ordens de um depravado que provavelmente tem muito mais noção de comunicação do que o recém-formado (agora, sim, se comprova que o poste mija no cachorro). Na faculdade dizem que a voz não é importante, na primeira aula de rádio informam que a voz de todos os teus colegas é boa, pena que o mercado de trabalho não pensa assim. O jornalista é o único sujeito no mundo que consegue se auto-manipular.

Outros pontos chamam a atenção dessa brilhante profissão. Quando se é assessor de comunicação, os funcionários confundem jornalismo com publicidade. E é isso aí mesmo, jornalista não passa de um fofoqueiro. Um leva-e-traz de informações mesquinhas que, em momento algum, é a estrela do espetáculo – apenas é usado para levar as pessoas ao sucesso. Para levar as pessoas a ganharem muito dinheiro em cima das informações que o jornalista "fofoqueia".

Jornalista é o pior político do mundo. Numa aula, uma professora contou que discutiu com um médico. O profissional da saúde teria dito que médico é uma profissão descente, pois cura as pessoas (médico ganha muito bem e valoriza a própria profissão). A professora respondeu ao "dr." que jornalista é médico da alma. Depois disso pude entender por que rezamos tanto para as almas que estão no tal purgatório – essas almas leram muita bobagem que nós escrevemos. Agora se comprova, literalmente, que o título do livro do jornalista Carlos Dorneles, Deus é inocente, a imprensa, não, está totalmente correto. Estamos na berlinda.

Se o jornalista fosse tão inteligente quanto aparenta ser, já estaria ganhando melhor. Seria uma classe unida que defenderia acima de qualquer motivo a ética na profissão. Se o jornalista fosse ousado, invadiria o Congresso e exigiria que a profissão fosse reconhecida. Se jornalista fosse realmente crítico, olharia melhor para seu próprio eu interior.

O jornalismo pode ser um curso técnico de seis meses, no máximo. Não vejo necessidade de se estudar quatro anos para tal profissão. Uma carreira que, em pleno século 21, ainda está em estudo no Congresso nacional para ser aprovada como uma ciência que necessita de ensino superior para poder praticar... É ridículo. Para ser jornalista basta saber um pouco de português, ter noções de lead e agir por instinto.

Fonte: Observatório da Imprensa