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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

MUNDO DIGITAL - Os donos da informação na era da internet

Por Arthur Cristóvão Prado

As manchetes mundiais a respeito da internet e da informação digital foram disputadas por dois rostos no ano de 2010. Um deles é o rosto jovem e coberto de sardas de Mark Zuckerberg, mais jovem bilionário do mundo, "personalidade do ano" eleita pela revista Time e dono do Facebook, empresa estimada em 50 bilhões de dólares, que obtém receita oferecendo espaço publicitário para empresas; o outro é o ligeiramente mais velho e menos sorridente de Julian Assange, australiano e pessoa pública do site WikiLeaks, inimigo de todos os diplomatas que falam demais e objeto de adoração dos defensores da informação livre. É claro que a comunidade digital não perdeu a oportunidade de ironizar a situação. Surgiu, na internet, uma imagem (que pode ser encontrada aqui) com uma foto de Julian Assange e um balão de fala que dizia: "Eu distribuo gratuitamente informação particular de empresas e eu sou um vilão." Ao lado, uma foto de Zuckerberg com a frase: "Eu vendo sua informação particular para empresas e sou o Homem do Ano." O fato de o primeiro ter sido amplamente glorificado pela mídia e corporações americanas, enquanto o segundo foi preso e considerado inimigo da diplomacia americana, abre-nos a possibilidade de uma discussão acerca dos valores que eles representam.

Não é possível dizer que um defende a privacidade ou sigilo e o outro, a transparência. Na verdade, tanto Assange quanto Zuckerberg são, ao menos oficialmente, a favor da informação livre, e acreditam que existe um movimento inevitável que levará nossa cultura a uma desvalorização da privacidade. Ao invés disso, eles têm visões opostas em relação a qual privacidade será perdida. O arauto dos WikiLeaks defende que empresas e governos liberem informação confidencial para que, de acordo com os princípios da democracia, elas possam ser fiscalizadas pelo povo. Já a desprivatização de Zuckerberg diz respeito diretamente ao indivíduo, o que é notoriamente conveniente para alguém que lucra vendendo informações pessoais. O cerne da questão, portanto, é a dicotomia que opõe as corporações ao indivíduo; a informação centralizada, àquela fragmentada.

Centralização e fragmentação da informação

Uma manifestação prática dessa oposição pode ser encontrada, de modo exemplar, na questão do software. Defensores do software livre – isto é, aquele que é distribuído gratuitamente e pode ser modificado por qualquer programador – anunciam há mais de uma década a "inevitável" queda do modelo de software proprietário – aquele praticado por empresas como Apple e Microsoft. O software livre se caracteriza por ser desenvolvido por indivíduos voluntários da comunidade. Vem daí seu apelo ideológico: se ele desse certo, a informação, ou pelo menos aquela que faz os programas funcionarem, seria criada por todos, para todos.

Mas, mesmo entre as grandes corporações, há pelo menos um grande defensor do modelo descentralizado: o Google. Isso é evidente no mercado de smartphones, no qual a empresa, criadora do sistema Android, compete com a Apple (cujo valor de mercado é de 322 bilhões de dólares, o equivalente a quase dois Googles ou cerca de 6.4 Facebooks), com o sistema operacional iOS. As duas têm modelos de negócios opostos. O Android, que é, por sinal, software livre, permite ao seu usuário criar seus próprios aplicativos, instalá-lo em qualquer celular compatível e modificar vários aspectos do sistema. O iOS só funciona em hardware fabricado pela Apple (iPhone, iPod, iPad), é software proprietário, não permite ao usuário acessar os aspectos ou modificar fundamentais do sistema e tem uma App Store, isto é, uma loja de programas, em que só entram aplicativos liberados pela empresa. Cada um dos sistemas tem seu nicho e ambos prosperam no mercado, o que parece indicar que nenhuma das duas estratégias é absoluta.

O problema da centralização contra a fragmentação da informação já afeta, há muito tempo, as discussões sobre o futuro do jornalismo. Aqueles que acreditam na inevitabilidade da fragmentação dizem que, no futuro, as grandes redes de notícias serão solapadas pelo conteúdo jornalístico gerado por usuários e publicado em blogs e redes sociais. Os centralistas acreditam que as megacorporações da mídia simplesmente migrarão para o meio da internet, ou então que novas empresas, adequadas especificamente a esse meio, surgirão, de forma semelhante ao que ocorreu com jornais impressos que migraram para a televisão e para o rádio no passado.

Donos do poder e seu monopólio

Desde o dia 2 deste mês, há um novo fator a ser levado em conta nessa discussão. Rupert Murdoch, dono da News Corp. e magnata da mídia internacional, lançou The Daily, o primeiro jornal exclusivamente dedicado ao iPad no mundo. Seu formato procura incorporar algumas das possibilidades que o formato virtual propicia, como interatividade, presença de vídeos e fotos de alta qualidade, mas ele, apesar desses recursos, é projetado para ser muito acessível a usuários casuais da internet, com menos prática. Ele não é gratuito: o preço da assinatura é de 99 centavos de dólar por semana. Com isso, Murdoch fez analistas que defendem a opinião centralista terem argumentos renovados.

Na verdade, ambos os lados são frequentemente seduzidos pelo extremismo e exageram. Sim, é verdade que o fato de um personagem importante e tradicional como Murdoch ter criado The Daily é um fato de imensa relevância, mas é inegável que a internet diminuiu o poder da grande mídia. Para atestar esse fato, basta citar, por exemplo, o próprio WikiLeaks, mas também a constatação de que muitos grandes jornais do mundo, como o New York Times, passam por graves dificuldades. A verdade é que é provável que a mudança pelo qual passa a relação entre nossa sociedade e a informação demore, ainda, muito tempo para completar-se. Qualquer pretensão de prever o resultado dessa mudança é, pelo menos, precipitada. Ainda por anos, indivíduos como Assange, tal qual o Prometeu do mito grego, lutarão para distribuir conhecimento, ainda que roubado dos poderosos que o detêm, à totalidade das pessoas. E é claro que os donos do poder – político ou econômico – confortáveis com o status quo, continuarão a defender seu monopólio da informação.

Fonte: Observatório da Imprensa

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Já falta espaço para tanta mídia

Por Nelson Hoineff

O descompasso entre o volume de informação produzida e os meios para que esse volume seja distribuído acentuou-se terrivelmente nos últimos meses. Ele foi explicitado em matéria da Folha de S.Paulo neste domingo [18/7] – "Teles se armam contra Google e Apple" – e adequadamente comentado pelo ex-ministro Juarez Quadros no mesmo jornal – "Novas mídias exigem integração e mais investimento no país".

Nada que já não viesse sendo falado há algum tempo, mas que tem um tremendo impacto sobre a construção e difusão de informação eletrônica. Para colocar de uma forma bem simples: vídeos são pesados e há cada vez mais vídeos na web. Vídeos em alta-definição são muitas vezes mais pesados e circulam também em escala muito crescente pela web. Por ali transitam desde chamadas telefônicas a games, passando por troca de arquivos, web TV, o diabo. Imagine só o consumo de banda do You Tube, para ficar em algo com que você está perfeitamente familiarizado. Quem produz ou estimula a passagem de todas essas informações? As grandes empresas de internet, como Google (que é dona do You Tube) ou Yahoo!. E por onde passa tal informação? Pelas teles: no Brasil, Telefônica, Oi, etc.

Falta de banda

A princípio, isso parece bom. As empresas de internet forçam uma demanda que leva o usuário a comprar mais banda. O problema é que, no Brasil, as teles não tem mais banda para vender. Ou por outra: a criação de mais banda implica em investimentos que não podem ser cobertos linearmente pelo aumento da demanda. Pelos números apresentados pela Folha, o break even point estaria na faixa de R$ 100 pagos às teles por usuário. Isso não chega nem perto da média praticada no país.

As teles querem, então, fisgar uma parte do lucro das empresas de internet, sob a alegação de que, sem elas – as teles –, tais companhias não teriam como fazer seus gadgets chegarem aos usuários. As empresas de internet, por sua vez, respondem diretamente ao usuário: busquem teles mais competentes.

As explosões são muito velozes e os dutos (se é que podemos chamá-los assim) ficam estreitos rapidamente. Quando um jornalão como o JB deixa o papel para ficar só na web, imagina que esse espaço seja infinito. Ele é, se colocado em face ao que é simplesmente exigido pelas informações publicadas num jornal como o JB. Mas não é, nem longinquamente, se confrontado com o que de fato circula hoje pela web.

Um quatrilhão de bytes


Lá, o buraco é mais embaixo. A discussão se dá hoje em Petabytes, o que significa mais ou menos um quatrilhão de bytes. É notável que o Faustão na web não represente uma ínfima fração desse volume – e não é porque esteja mais magro. O que está causando todo esse transtorno, ou, melhor dizendo, causando essa nova ordem, são transmissões de vídeo de toda natureza, trocas de arquivos e navegação em 3G. Mas, acima de tudo, um contingente muito diversificado de ações, classificadas simplesmente como "outros", e que estão acima até das postagens de vídeos.

A grande contradição é que evolução é inovação. Não se pode pensar na criação audiovisual, por exemplo, sem que ela esteja ligada à inovação de formas e linguagens – o que quase sempre demanda mais espaço e maior velocidade. O desenvolvimento das formas audiovisuais brasileiras – que inclui, mas nem longinquamente se limita à utilização de ferramentas como o 3D – passa pela inovação e, consequentemente, pela necessidade de mais espaço e mais agilidade na sua utilização. Temos que ser realistas: por quanto mais tempo as narrativas convencionais sobreviverão?

O usuário está indicando duas coisas: que quer se relacionar com um número muito diversificado de mídias e que precisa de espaço para isso. Alguém vai ter que pagar por esse espaço. As teles dizem que quem tem que pagar são as empresas de internet, que estimulam tanta utilização; as empresas dizem que as teles é que têm que abrir mais espaço e cobrar do usuário. E o usuário, por sua vez, tem urticária cada vez que ouve as palavras internet e pagamento na mesma frase.

Fonte: Observatório da Imprensa