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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A burocratização dos debates na TV gera apatia e distanciamento do eleitor

Por Carlos Castilho

Se há uma coisa que a atual campanha eleitoral deixou bem claro, esta coisa é o desgaste dos debates pela televisão entre candidatos a presidente e a governador. A monotonia, burocratização e o excesso de regras transformaram os encontros numa espécie de performance pessoal em que o ganhador não é quem mostra mais idéias, mas quem erra menos no vídeo.

A fórmula está desgastada por culpa das emissoras de televisão e dos especialistas em marketing político que impuseram aos candidatos tantos condicionamentos que eles acabaram virando atores quase que telecomandados.

As emissoras de televisão transformaram os debates num espetáculo em que a grande preocupação é audiência. Cada uma monta o seu show e o promove como se fosse um programa de auditório. Os apresentadores parecem marionetes obrigados a seguir um script cujo conteúdo rendeu horas de reuniões entre os assessores políticos de cada candidato.

Os debates pela TV cairam na mesma armadilha criada pela Justiça Eleitoral para a propaganda eleitoral. Para resolver protestos de partidos e candidatos foram criadas tantas leis, regras e normas que a campanha eleitoral tornou-se quase invisível. O mesmo acontece agora com os debates ao vivo, nos quais as regras estão se tornando cada vez mais meticulosas e cada detalhe, inclusive os técnicos, discutidos durante horas ao longo de negociações que duram semanas.

O acúmulo de regulamentações reduz ao mínimo a espontaneidade tanto dos candidatos como dos cabos eleitorais e todos acaba parecendo funcionários burocráticos. Estamos vivendo um paradoxo: se deixamos a propaganda correr solta e eliminamos as regras no debates, a campanha torna-se imprevisível e provavelmente violenta, transmitindo insegurança, desconforto e incerteza.

A busca de ordem gerou a avalancha de regras e com isso as manifestações espontâneas acabaram se tornando cada vez mais raras. A campanha perdeu vivacidade, autenticidade e principalmente participação popular. É a conseqüência do dilema clássico entre o caos e ordem.

O caos incomoda, transmite incerteza e insegurança, mas está associado à mudança, renovação e criação. A ordem gera tranquilidade, certeza e segurança, mas tende a provocar imobilismo, rotina e burocratização pela multiplicação de normas para preservá-la .

Pelo andar da carruagem, provavelmente teremos que fazer em breve outra escolha, além de selecionar governantes: como é que desejamos viver. A regulamentação é causa e conseqüência do desenvolvimento de uma casta burocrática que sobrevive pela administração das regras, leis e normas. Ela (a casta) não tomará a iniciativa de mudar este estado de coisas porque se nutre dele. Assim, caberá aos cidadãos propor algo diferente.

Fonte: Observatório da Imprensa

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Dilma e Serra usam imagens do debate Folha/RedeTV! no horário eleitoral

Redação Folha.com

Concentrados em exibir suas performances no debate Folha/RedeTV! realizado ontem, Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) detiveram boa parte de seus programas eleitorais de hoje na TV em trocas de acusações.

Dilma continua a acusar Serra de querer privatizar a Petrobras, empresa a qual teria incentivado que o nome fosse trocado para Petrobrax.

A propaganda da candidata mostra o momento do debate em que ela falou sobre o caso Erenice afirmando que "nós investigamos, a Erenice saiu do governo. Diferente de Serra, nós investigamos".

Dilma se referia às denúncias envolvendo o ex-diretor da Dersa, Paulo Vieira Souza --conhecido como Paulo Preto. A petista afirmou que ele desviou R$ 4 milhões destinados à campanha de Serra.

Em entrevista publicada na última terça-feira (12) pela Folha, Paulo Preto afirma que Serra o conhece --diferente daquilo que o tucano havia afirmado no debate da Band, quando Dilma fez as acusações-- e, em tom de ameaça, diz que "não se larga um líder ferido na estrada a troco de nada".

No dia seguinte, Serra disse não ter lido as declarações do ex-diretor, minimizando a importância do caso, e afirmou que "a acusação contra ele é injusta" e que o engenheiro é "totalmente inocente". O programa da candidata acusa Serra de mudar de opinião de forma suspeita e de defender um culpado, destacando que Paulo Preto é investigado pela Polícia Federal, na operação Castelo de Areia.

Dilma ainda prometeu concluir obras como a Transnordestina e a Norte-sul.

PSDB

A propaganda de Serra ressalta méritos de seu governo em São Paulo e acusa Dilma de ser contra seu projeto de colocar dois professores em sala de aula.

O tucano direciona suas críticas a Lula, acusando-o de fazer mais concessões da Petrobras para empresas privadas do que FHC fez. O candidato ainda associa a valorização das ações da empresa com seu avanço nas pesquisas.

Serra ainda acusa o presidente de permitir a entrada de drogas no país, por falta de fiscalização nas fronteiras --em especial a boliviana.

É a deixa para ele propor mais centros de reabilitação e criticar os problemas da acessibilidade, prometendo criar uma rede de reabilitação chamada Zilda Arns e 154 policlínicas.

O programa declara Serra vencedor do debate baseado no grupo de 27 eleitores que avaliou o evento em tempo real a convite da Folha e da RedeTV!.

Fonte: Folha.com

sexta-feira, 30 de julho de 2010

A web ajuda ou atrapalha o debate pré-eleitoral?

Por Carlos Castilho

Faltando pouco mais de 60 dias para as eleições deste ano, o que surpreende é o baixo indice de participação do público na campanha eleitoral. A reação espontânea da maioria das pessoas é ver o pleito como uma coisa dos políticos e, secundariamente, como uma obrigação cidadã.

Trata-se de uma mudança significativa em relação a eleições recentes — e como a web é um componente novo na campanha, é inevitavel a pergunta se ela tem alguma coisa a ver com este fenômeno.

Como experiência brasileira com politica digital ainda é muito recente, precisamos recorrer a dados de outros paises para procurar uma resposta tentativa; e a primeira constatação é a de que a imprensa convencional já não é mais o único canal de comunicação entre os eleitores.

Até agora, os jornais e a televisão eram hegemônicos na mediação entre os candidatos e o público. Agora, existem os blogs, o Twitter, os videos do YouTube e as comunidades do Orkut.

A web ainda é privilégio de uma minoria de brasileiros, mas ela cresce aceleradamente em dois segmentos com influência crucial nas tendências de voto: na classe A e entre os jovens. Ao contrário dos Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha, onde o percentual de eleitores conectados à internet já passa dos 50% da população, aqui ficamos abaixo dos 25%, o que ainda é pouco significativo em termos absolutos.

Mas a classa A tem um grande poder de inhfluência na fixação da agenda dos meios de comunicação, enquanto os jovens com menos de 25 ou 30 anos formam o maior contingente dos eleitores céticos, aqueles que estão cada vez mais distantes do processo convencional de caça ao voto e que são majoritários no universo dos blogs, twits, chats, videos amadores e comunidades sociais.

As novas ferramentas de comunicação na web têm características diferenciadas em relação à imprensa convencional e devem ser levadas em conta na avaliação de sua influência sobre a campanha eleitoral.

Os blogs, twits, fóruns e comunidades são basicamente ambientes de discussão e de troca de idéias, ao contrário dos jornais e da TV, cuja função é essencialmente a de mediação entre os partidos ou candidatos e o eleitor. Enquanto o ambiente digital é, por natureza, confuso e desordenado, o papel da imprensa é o de organizar a informação.

Esta diferença, por si só, determina papéis bem diferentes na disputa eleitoral. Enquanto os blogs favorecem a diversidade, os jornais são, por limitações espaciais e técnicas, forçados a uniformizar e padronizar a realidade eleitoral para poder levá-la até o eleitor.

A web tende a funcionar como refúgio dos desiludidos, e como grande caixa de ressonância dos eleitores apáticos, enquanto a imprensa convencional serve de foro para os participantes do jogo do poder.

São duas realidades diferentes e o fato de elas existirem já é um fato novo transcendental no processo eleitoral. Ele não está mais sendo decidido apenas na mediação da imprensa tradicional, mas também no caos dos blogs e dos twits.

Quem analisa a campanha pela ótica da mídia tradicional tende a desqualificar os canais da web como agentes perturbadores da ordem. Mas acontece que são justamente os blogs, o Twitter, os vídeos amadores e as comunidades do Orkut que tornam o debate eleitoral mais próximo da realidade social, ao espelharem minimamente a diversidade social.

Fonte: Observatório da Imprensa