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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A crise no Rio e o pastiche midiático

redação IHU

"O tráfico, no modelo que se firmou no Rio, é uma realidade em franco declínio e tende a se eclipsar, derrotado por sua irracionalidade econômica e sua incompatibilidade com as dinâmicas políticas e sociais predominantes, em nosso horizonte histórico. Incapaz, inclusive, de competir com as milícias, cuja competência está na disposição de não se prender, exclusivamente, a um único nicho de mercado, comercializando apenas drogas –mas as incluindo em sua carteira de negócios, quando conveniente", afirma Luiz Eduardo Soares, Mestre em Antropologia, doutor em ciência política com pós-doutorado em filosofia política, professor da UERJ e coordenador do curso à distância de gestão e políticas em segurança pública, na Universidade Estácio de Sá, em artigo publicado no seu blog, 25-11-2010.

Segundo ele, "discutindo a crise, a mídia reproduz o mito da polaridade polícia versus tráfico, perdendo o foco, ignorando o decisivo: como, quem, em que termos e por que meios se fará a reforma radical das polícias, no Rio, para que estas deixem de ser incubadoras de milícias, máfias, tráfico de armas e drogas, crime violento, brutalidade, corrupção? Como se refundarão as instituições policiais para que os bons profissionais sejam, afinal, valorizados e qualificados? Como serão transformadas as polícias, para que deixem de ser reativas, ingovernáveis, ineficientes na prevenção e na investigação?"

Eis o artigo.

Sempre mantive com jornalistas uma relação de respeito e cooperação. Em alguns casos, o contato profissional evoluiu para amizade. Quando as divergências são muitas e profundas, procuro compreender e buscar bases de um consenso mínimo, para que o diálogo não se inviabilize. Faço-o por ética –supondo que ninguém seja dono da verdade, muito menos eu--, na esperança de que o mesmo procedimento seja adotado pelo interlocutor. Além disso, me esforço por atender aos que me procuram, porque sei que atuam sob pressão, exaustivamente, premidos pelo tempo e por pautas urgentes. A pressa se intensifica nas crises, por motivos óbvios. Costumo dizer que só nós, da segurança pública (em meu caso, quando ocupava posições na área da gestão pública da segurança), os médicos e o pessoal da Defesa Civil, trabalhamos tanto –ou sob tanta pressão-- quanto os jornalistas.

Digo isso para explicar por que, na crise atual, tenho recusado convites para falar e colaborar com a mídia:

(1) Recebi muitos telefonemas, recados e mensagens. As chamadas são contínuas, a tal ponto que não me restou alternativa a desligar o celular. Ao todo, nesses dias, foram mais de cem pedidos de entrevistas ou declarações. Nem que eu contasse com uma equipe de secretários, teria como responder a todos e muito menos como atendê-los. Por isso, aproveito a oportunidade para desculpar-me. Creiam, não se trata de descortesia ou desapreço pelos repórteres, produtores ou entrevistadores que me procuraram.

(2) Além disso, não tenho informações de bastidor que mereçam divulgação. Por outro lado, não faria sentido jogar pelo ralo a credibilidade que construí ao longo da vida. E isso poderia acontecer se eu aceitasse aparecer na TV, no rádio ou nos jornais, glosando os discursos oficiais que estão sendo difundidos, declamando platitudes, reproduzindo o senso comum pleno de preconceitos, ou divagando em torno de especulações. A situação é muito grave e não admite leviandades. Portanto, só faria sentido falar se fosse para contribuir de modo eficaz para o entendimento mais amplo e profundo da realidade que vivemos. Como fazê-lo em alguns parcos minutos, entrecortados por intervenções de locutores e debatedores? Como fazê-lo no contexto em que todo pensamento analítico é editado, truncado, espremido –em uma palavra, banido--, para que reinem, incontrastáveis, a exaltação passional das emergências, as imagens espetaculares, os dramas individuais e a retórica paradoxalmente triunfalista do discurso oficial?

(3) Por fim, não posso mais compactuar com o ciclo sempre repetido na mídia: atenção à segurança nas crises agudas e nenhum investimento reflexivo e informativo realmente denso e consistente, na entressafra, isto é, nos intervalos entre as crises. Na crise, as perguntas recorrentes são:

(a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a explosão de violência?

(b) O que a polícia deveria fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas?

(c) Por que o governo não chama o Exército?

(d) A imagem internacional do Rio foi maculada?

(e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?

Ao longo dos últimos 25 anos, pelo menos, me tornei “as aspas” que ajudaram a legitimar inúmeras reportagens. No tópico, “especialistas”, lá estava eu, tentando, com alguns colegas, furar o bloqueio à afirmação de uma perspectiva um pouquinho menos trivial e imediatista. Muitas dessas reportagens, por sua excelente qualidade, prescindiriam de minhas aspas – nesses casos, reduzi-me a recurso ocioso, mera formalidade das regras jornalísticas. Outras, nem com todas as aspas do mundo se sustentariam. Pois bem, acho que já fui ou proporcionei aspas o suficiente. Esse código jornalístico, com as exceções de praxe, não funciona, quando o tema tratado é complexo, pouco conhecido e, por sua natureza, rebelde ao modelo de explicação corrente. Modelo que não nasceu na mídia, mas que orienta as visões aí predominantes. Particularmente, não gostaria de continuar a ser cúmplice involuntário de sua contínua reprodução.

Eis por que as perguntas mencionadas são expressivas do pobre modelo explicativo corrente e por que devem ser consideradas obstáculos ao conhecimento e réplicas de hábitos mentais refratários às mudanças inadiáveis. Respondo sem a elegância que a presença de um entrevistador exigiria. Serei, por assim dizer, curto e grosso, aproveitando-me do expediente discursivo aqui adotado, em que sou eu mesmo o formulador das questões a desconstruir. Eis as respostas, na sequência das perguntas, que repito para facilitar a leitura:

(a) O que fazer, já, imediatamente, para sustar a violência e resolver o desafio da insegurança?

Nada que se possa fazer já, imediatamente, resolverá a insegurança. Quando se está na crise, usam-se os instrumentos disponíveis e os procedimentos conhecidos para conter os sintomas e salvar o paciente. Se desejamos, de fato, resolver algum problema grave, não é possível continuar a tratar o paciente apenas quando ele já está na UTI, tomado por uma enfermidade letal, apresentando um quadro agudo. Nessa hora, parte-se para medidas extremas, de desespero, mobilizando-se o canivete e o açougueiro, sem anestesia e assepsia. Nessa hora, o cardiologista abre o tórax do moribundo na maca, no corredor. Não há como construir um novo hospital, decente, eficiente, nem para formar especialistas, nem para prevenir epidemias, nem para adotar procedimentos que evitem o agravamento da patologia. Por isso, o primeiro passo para evitar que a situação se repita é trocar a pergunta. O foco capaz de ajudar a mudar a realidade é aquele apontado por outra pergunta: o que fazer para aperfeiçoar a segurança pública, no Rio e no Brasil, evitando a violência de todos os dias, assim como sua intensificação, expressa nas sucessivas crises?

Se o entrevistador imaginário interpelar o respondente, afirmando que a sociedade exige uma resposta imediata, precisa de uma ação emergencial e não aceita nenhuma abordagem que não produza efeitos práticos imediatos, a melhor resposta seria: caro amigo, sua atitude representa, exatamente, a postura que tem impedido avanços consistentes na segurança pública. Se a sociedade, a mídia e os governos continuarem se recusando a pensar e abordar o problema em profundidade e extensão, como um fenômeno multidimensional a requerer enfrentamento sistêmico, ou seja, se prosseguirmos nos recusando, enquanto Nação, a tratar do problema na perspectiva do médio e do longo prazos, nos condenaremos às crises, cada vez mais dramáticas, para as quais não há soluções mágicas.

A melhor resposta à emergência é começar a se movimentar na direção da reconstrução das condições geradoras da situação emergencial. Quanto ao imediato, não há espaço para nada senão o disponível, acessível, conhecido, que se aplica com maior ou menor destreza, reduzindo-se danos e prolongando-se a vida em risco.

A pergunta é obtusa e obscurantista, cúmplice da ignorância e da apatia.

(b) O que as polícias fluminenses deveriam fazer para vencer, definitivamente, o tráfico de drogas?

Em primeiro lugar, deveriam parar de traficar e de associar-se aos traficantes, nos “arregos” celebrados por suas bandas podres, à luz do dia, diante de todos. Deveriam parar de negociar armas com traficantes, o que as bandas podres fazem, sistematicamente. Deveriam também parar de reproduzir o pior do tráfico, dominando, sob a forma de máfias ou milícias, territórios e populações pela força das armas, visando rendimentos criminosos obtidos por meios cruéis.

Ou seja, a polaridade referida na pergunta (polícias versus tráfico) esconde o verdadeiro problema: não existe a polaridade. Construí-la –isto é, separar bandido e polícia; distinguir crime e polícia-- teria de ser a meta mais importante e urgente de qualquer política de segurança digna desse nome. Não há nenhuma modalidade importante de ação criminal no Rio de que segmentos policiais corruptos estejam ausentes. E só por isso que ainda existe tráfico armado, assim como as milícias.

Não digo isso para ofender os policiais ou as instituições. Não generalizo. Pelo contrário, sei que há dezenas de milhares de policiais honrados e honestos, que arriscam, estóica e heroicamente, suas vidas por salários indignos. Considero-os as primeiras vítimas da degradação institucional em curso, porque os envergonha, os humilha, os ameaça e acua o convívio inevitável com milhares de colegas corrompidos, envolvidos na criminalidade, sócios ou mesmo empreendedores do crime.

Não nos iludamos: o tráfico, no modelo que se firmou no Rio, é uma realidade em franco declínio e tende a se eclipsar, derrotado por sua irracionalidade econômica e sua incompatibilidade com as dinâmicas políticas e sociais predominantes, em nosso horizonte histórico. Incapaz, inclusive, de competir com as milícias, cuja competência está na disposição de não se prender, exclusivamente, a um único nicho de mercado, comercializando apenas drogas –mas as incluindo em sua carteira de negócios, quando conveniente. O modelo do tráfico armado, sustentado em domínio territorial, é atrasado, pesado, anti-econômico: custa muito caro manter um exército, recrutar neófitos, armá-los (nada disso é necessário às milícias, posto que seus membros são policiais), mantê-los unidos e disciplinados, enfrentando revezes de todo tipo e ataques por todos os lados, vendo-se forçados a dividir ganhos com a banda podre da polícia (que atua nas milícias) e, eventualmente, com os líderes e aliados da facção. É excessivamente custoso impor-se sobre um território e uma população, sobretudo na medida que os jovens mais vulneráveis ao recrutamento comecem a vislumbrar e encontrar alternativas. Não só o velho modelo é caro, como pode ser substituído com vantagens por outro muito mais rentável e menos arriscado, adotado nos países democráticos mais avançados: a venda por delivery ou em dinâmica varejista nômade, clandestina, discreta, desarmada e pacífica. Em outras palavras, é melhor, mais fácil e lucrativo praticar o negócio das drogas ilícitas como se fosse contrabando ou pirataria do que fazer a guerra. Convenhamos, também é muito menos danoso para a sociedade, por óbvio.

(c) O Exército deveria participar?

Fazendo o trabalho policial, não, pois não existe para isso, não é treinado para isso, nem está equipado para isso. Mas deve, sim, participar. A começar cumprindo sua função de controlar os fluxos das armas no país. Isso resolveria o maior dos problemas: as armas ilegais passando, tranquilamente, de mão em mão, com as benções, a mediação e o estímulo da banda podre das polícias.

E não só o Exército. Também a Marinha, formando uma Guarda Costeira com foco no controle de armas transportadas como cargas clandestinas ou despejadas na baía e nos portos. Assim como a Aeronáutica, identificando e destruindo pistas de pouso clandestinas, controlando o espaço aéreo e apoiando a PF na fiscalização das cargas nos aeroportos.

(d) A imagem internacional do Rio foi maculada?

Claro. Mais uma vez.

(e) Conseguiremos realizar com êxito a Copa e as Olimpíadas?

Sem dúvida. Somos ótimos em eventos. Nesses momentos, aparece dinheiro, surge o “espírito cooperativo”, ações racionais e planejadas impõem-se. Nosso calcanhar de Aquiles é a rotina. Copa e Olimpíadas serão um sucesso. O problema é o dia a dia.

Palavras Finais

Traficantes se rebelam e a cidade vai à lona. Encena-se um drama sangrento, mas ultrapassado. O canto de cisne do tráfico era esperado. Haverá outros momentos análogos, no futuro, mas a tendência declinante é inarredável. E não porque existem as UPPs, mas porque correspondem a um modelo insustentável, economicamente, assim como social e politicamente. As UPPs, vale dizer mais uma vez, são um ótimo programa, que reedita com mais apoio político e fôlego administrativo o programa “Mutirões pela Paz”, que implantei com uma equipe em 1999, e que acabou soterrado pela política com “p” minúsculo, quando fui exonerado, em 2000, ainda que tenha sido ressuscitado, graças à liderança e à competência raras do ten.cel. Carballo Blanco, com o título GPAE, como reação à derrocada que se seguiu à minha saída do governo. A despeito de suas virtudes, valorizadas pela presença de Ricardo Henriques na secretaria estadual de assistência social -- um dos melhores gestores do país --, elas não terão futuro se as polícias não forem profundamente transformadas. Afinal, para tornarem-se política pública terão de incluir duas qualidades indispensáveis: escala e sustentatibilidade, ou seja, terão de ser assumidas, na esfera da segurança, pela PM. Contudo, entregar as UPPs à condução da PM seria condená-las à liquidação, dada a degradação institucional já referida.

O tráfico que ora perde poder e capacidade de reprodução só se impôs, no Rio, no modelo territorializado e sedentário em que se estabeleceu, porque sempre contou com a sociedade da polícia, vale reiterar. Quando o tráfico de drogas no modelo territorializado atinge seu ponto histórico de inflexão e começa, gradualmente, a bater em retirada, seus sócios – as bandas podres das polícias -- prosseguem fortes, firmes, empreendedores, politicamente ambiciosos, economicamente vorazes, prontos a fixar as bandeiras milicianas de sua hegemonia.

Discutindo a crise, a mídia reproduz o mito da polaridade polícia versus tráfico, perdendo o foco, ignorando o decisivo: como, quem, em que termos e por que meios se fará a reforma radical das polícias, no Rio, para que estas deixem de ser incubadoras de milícias, máfias, tráfico de armas e drogas, crime violento, brutalidade, corrupção? Como se refundarão as instituições policiais para que os bons profissionais sejam, afinal, valorizados e qualificados? Como serão transformadas as polícias, para que deixem de ser reativas, ingovernáveis, ineficientes na prevenção e na investigação?

As polícias são instituições absolutamente fundamentais para o Estado democrático de direito. Cumpre-lhes garantir, na prática, os direitos e as liberdades estipulados na Constituição. Sobretudo, cumpre-lhes proteger a vida e a estabilidade das expectativas positivas relativamente à sociabilidade cooperativa e à vigência da legalidade e da justiça. A despeito de sua importância, essas instituições não foram alcançadas em profundidade pelo processo de transição democrática, nem se modernizaram, adaptando-se às exigências da complexa sociedade brasileira contemporânea. O modelo policial foi herdado da ditadura. Ele servia à defesa do Estado autoritário e era funcional ao contexto marcado pelo arbítrio. Não serve à defesa da cidadania. A estrutura organizacional de ambas as polícias impede a gestão racional e a integração, tornando o controle impraticável e a avaliação, seguida por um monitoramento corretivo, inviável. Ineptas para identificar erros, as polícias condenam-se a repeti-los. Elas são rígidas onde teriam de ser plásticas, flexíveis e descentralizadas; e são frouxas e anárquicas, onde deveriam ser rigorosas. Cada uma delas, a PM e a Polícia Civil, são duas instituições: oficiais e não-oficiais; delegados e não-delegados.

E nesse quadro, a PEC-300 é varrida do mapa no Congresso pelos governadores, que pagam aos policiais salários insuficientes, empurrando-os ao segundo emprego na segurança privada informal e ilegal.
Uma das fontes da degradação institucional das polícias é o que denomino "gato orçamentário", esse casamento perverso entre o Estado e a ilegalidade: para evitar o colapso do orçamento público na área de segurança, as autoridades toleram o bico dos policiais em segurança privada. Ao fazê-lo, deixam de fiscalizar dinâmicas benignas (em termos, pois sempre há graves problemas daí decorrentes), nas quais policiais honestos apenas buscam sobreviver dignamente, apesar da ilegalidade de seu segundo emprego, mas também dinâmicas malignas: aquelas em que policiais corruptos provocam a insegurança para vender segurança; unem-se como pistoleiros a soldo em grupos de extermínio; e, no limite, organizam-se como máfias ou milícias, dominando pelo terror populações e territórios. Ou se resolve esse gargalo (pagando o suficiente e fiscalizando a segurança privada /banindo a informal e ilegal; ou legalizando e disciplinando, e fiscalizando o bico), ou não faz sentido buscar aprimorar as polícias.

O Jornal Nacional, nesta quinta, 25 de novembro, definiu o caos no Rio de Janeiro, salpicado de cenas de guerra e morte, pânico e desespero, como um dia histórico de vitória: o dia em que as polícias ocuparam a Vila Cruzeiro. Ou eu sofri um súbito apagão mental e me tornei um idiota contumaz e incorrigível ou os editores do JN sentiram-se autorizados a tratar milhões de telespectadores como contumazes e incorrigíveis idiotas.

Ou se começa a falar sério e levar a sério a tragédia da insegurança pública no Brasil, ou será pelo menos mais digno furtar-se a fazer coro à farsa.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos

terça-feira, 3 de agosto de 2010

NOMIC 30 anos: O que vamos comemorar?



Por Gislene Moreira Gómez*


Do aparente improvável contexto da Guerra Fria e das ditaduras emergiu o mais importante documento das Nações Unidas pela democratização da comunicação. Em 1980, Sean McBride apresentou na UNESCO o relatório que ainda hoje é a principal referência. No entanto, suas recomendações nunca foram implementadas, as políticas neoliberais aprofundaram o controle privado e visibilizaram a fragilidade democrática no tema mediático.

A novidade é que 30 anos depois, esse debate hibernado parece recuperar o fôlego graças às novas agendas de regulação mediática na América Latina. As novas leis gestadas da Argentina ao Equador parecem ter no Um Mundo, Muitas Vozes uma de suas principais justificativas. Mas quais as possibilidades desses novos marcos frente às Indústrias Culturais? Nesse aniversário, o relatório convida à reflexão. Aprender de suas debilidades pode ser a estratégia mais eficiente ao desafio da comunicação como direito.

Antecedentes

No final dos 60, a região se tornou uma das áreas prioritárias na disputa entre EUA e União Soviética. A Aliança para o Progresso mesclava investimentos econômicos e tecnológicos norte-americanos que impulsionaram os grandes conglomerados de mídia. Contrariando as pretensões estadunidenses, de Cuba ao Chile, o cenário foi permeado por lutas contestadoras que fragilizavam a consolidação do papel da ONU como garantidor da Paz Mundial.

O continente também se visibilizava pela emergência de um pensamento próprio no debate comunicacional, denunciando a dominação mediática. Vários acadêmicos regionais formaram parte do time de expertos que contribuíram ao novo paradigma.
A região emergia ainda como ator político. A Conferência de Ministros dos Países Não-Alinhados na Costa Rica foi outra chave que viabilizou a Nova Ordem Mundial da Informação (NOMIC) e o Pacto de São José, duas referências da idéia da comunicação como direito. Porém, é importante recordar que a maioria dos firmaram esses acordos progressistas representavam processos ditatoriais. Evidenciando um uso estratégico do tema, e não uma convicção ideológica.

Em 1974, a Conferência da UNESCO discutiu a regulação internacional dos meios de comunicação. A proposta foi apresentada pela União Soviética, que buscava blindar suas fronteiras dos produtos norte-americanos, e causou uma confrontação excessiva com os países ocidentais. Neste cenário, o Terceiro Mundo se aliou aos soviéticos.

Encurralado entre os titãs, o debate da comunicação rompeu os consensos da guerra fria e possibilitou criar a comissão de expertos, que em um período de três anos elaborou o polêmico McBride sobre uma intensa pressão.

O bombardeio

O resultado final foi um relatório bastante audacioso com indicação de políticas nacionais de comunicação, a necessidade de regulação do setor, e os primeiros sinais do paradigma da comunicação como direito. Explicitamente, se enfrentou com os interesses do capital privado e da hegemonia norte-americana, mas dentro dos marcos democráticos liberais de gestão internacional. As conseqüências ainda hoje são sentidas.

A Associação Internacional de Radiodifusão (AIR) e a Sociedade Interamericana de Prensa (SIP) iniciaram rapidamente uma contra ofensiva, apelando ao conhecido argumento da violação da Liberdade de Expressão, confundido com liberdade de empresa.

As mudanças no cenário geopolítico, com as guerrilhas controladas pelas ditaduras, eliminação dos governos opositores, e gradual diminuição da ameaça soviética, permitiu também a reafirmação dos Estados Unidos como ator decisivo e o recuo dos países Não-alinhados ao seu enfrentamento.

O processo culmina com as retiradas norte-americana e inglesa da Unesco e os avanços das políticas neoliberais. O informe McBride virou um tabu triste e amargo, e o avanço da concentração mediática privada não teve freios, instalando-se até mesmo no modelo europeu de televisão pública.

O que há de novo?


Hibernado por quase 30 anos, o debate da regulação mediática e das políticas pública da comunicação volta à agenda como fruto dos novos enfrentamentos na América Latina. Outra vez, a região se coloca na zona de vanguarda da discussão através de iniciativas de lei que retomam as premissas de controle estatal e de comunicação pública.

O resgate acontece em meio a uma crise neoliberal e a viradas democráticas que questionam, pela primeira vez em muito tempo, o modelo hegemônico. No entanto, esse cenário não segue os rumos da antiga polarização. O debate está em aberto e deixa brechas para a experimentação de novos formatos de políticas de comunicação e também para a emergência de novos atores, como a sociedade civil, historicamente excluída inclusive do McBride.

No entanto, todas as iniciativas de construção das novas políticas de comunicação estão no alvo das pressões dos grandes meios, que tentam renovar o argumento da liberdade de expressão. Mais uma vez, se ensaiam contra-ataques e a história ensina que essa é uma luta assimétrica.

É hora de aprender da fragilidade do modelo de democratização da comunicação no jogo de interesses políticos e econômicos que circulam o tema. Numa indústria cada vez mais submetida ao capital sem fronteiras, os avanços de políticas nacionais não serão suficientes para frear outros 30 anos de imposição hegemônica.

O chamado é à articulação de novos atores, capazes de acumular forças e gerar mecanismos de pressão frente ao cenário decisório internacional. Os embates apontam à necessidade de blocos estratégicos desde uma sociedade civil latino-americana. O aprendizado McBride parece indicar que só um pensamento crítico e renovado do direito à comunicação num contexto capitalista pode ajudar a construir esse novo modelo.

* Gislene Moreira Gómez, jornalista graduada pela UFBA, mestre em comunicação pela mesma universidade e doutoranda em ciência política pela Flacso-México; é membro do Grupo Cepos. Email: Gislene.moreira.@flacso.edu.mx



Fonte: Revista IHU Edição 337

terça-feira, 27 de julho de 2010

Pentágono começa a investigar vazamento de dados sobre Afeganistão

DA FRANCE PRESSE, EM WASHINGTON

O Exército americano abriu formalmente nesta terça-feira uma investigação criminal sobre o vazamento de 91 mil documentos secretos sobre a guerra do Afeganistão, informou o Pentágono.

A investigação foi entregue aos cuidados da mesma Divisão Criminal encarregada do dossiê de Bradley Manning, um soldado de segunda classe de 22 anos detido em maio.

Ele é suspeito de ter transmitido ao site internet Wikileaks um vídeo que mostra o ataque de um helicóptero do exército americano que causou, em 2007, a morte de dois funcionários da agência de notícias Reuters e de várias outras pessoas, em Bagdá.

O site Wikileaks, que divulgou os documentos neste domingo, é uma espécie de Wikipedia de documentos vazados. Os papéis publicados trariam inclusive evidências de crimes de guerra.

O coronel Dave Lapan, um porta-voz do Pentágono, informou que a agência vai investigar um "espectro mais amplo" em relação aos vazamentos que levaram à divulgação dos milhares de relatórios militares sobre a guerra no Afeganistão, datados de 2004 a 2009.

"A investigação em curso sobre o vazamento dos documentos a Wikileaks (...) não se concentra sobre um indivíduo em particular, é mais ampla", disse ele.

Manning está atualmente em uma prisão militar americana no Kuait.

Segundo outro porta-voz do Pentágono, Morrell, o soldado Manning é "certamente um personagem importante" em relação a este assunto, mas não quis falar sobre o possível envolvimento dele, em uma entrevista à rede de TV MSNBC nesta terça-feira.

CRIME

Ontem, o Pentágono havia classificado de "ato criminoso" e disse estar revendo os documentos para determinar o potencial estrago para as tropas americanos e de coalizão.

Lapan havia dito que o Exército deveria levar "alguns dias, senão semanas" para revisar todos os documentos e determinar o "risco potencial" para as vidas dos americanos e seus parceiros da coalizão em serviço no país.

O Pentágono já havia informado que investigaria Manning, mas que os mais recentes documentos que vazaram podem ter vindo de "qualquer pessoa que tenha acesso a informações confidenciais".

A Casa Branca, o Reino Unido e o Paquistão condenaram o vazamento dos documentos secretos, um dos maiores já registrados na história militar.

O assessor de Segurança Nacional da Casa Branca, Jim Jones, disse que a divulgação "coloca as vidas de americanos e seus aliados em risco".

INFORMAÇÕES

A divulgação de milhares de documentos secretos revelando um panorama sombrio da situação no Afeganistão colocou nesta segunda-feira a Casa Branca na defensiva, após o Pentágono anunciar que avaliará os danos causados pela publicação dessas informações.

Os 91 mil documentos sigilosos divulgados criam incerteza em meio ao Congresso americano sobre uma guerra impopular, no momento em que o presidente Barack Obama se prepara para enviar mais 30 mil solados para combater a insurgência taleban.

Os papeis trazem detalhes de alegações de que forças americanas tentaram encobrir mortes de civis, bem como a preocupação dos EUA de que o Paquistão estaria secretamente armando militantes talebans, mesmo tendo obtido bilhões de dólares de ajuda financeira americana.

A Casa Branca condenou a divulgação, dizendo que poderia ameaçar a segurança nacional e pôr em risco a vida dos americanos.

MAIS DOCUMENTOS

Em coletiva em Londres, o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, disse ontem aos jornalistas que o que já foi divulgado sobre o vazamento é "apenas o começo", e que cerca de 15 mil documentos ainda não foram publicados no site.

Ele disse ainda que "milhares" de ações americanas no Afeganistão poderiam ser investigadas devido a indícios de crimes de guerra, mas que as acusações teriam que ser comprovadas na Justiça.

Assange disse também que há evidências de acobertamento de mortes de civis, e apontou para um "suspeito" número alto de mortes que as forças dos EUA atribuem a balas perdidas.

Os documentos cobrem alguns aspectos conhecidos dos nove anos de conflito: operações das forças especiais dos EUA contra insurgentes sem julgamento, afegãos mortos por acidentes e a indignação de autoridades americanas devido à suposta cooperação do serviço de inteligência paquistanês com grupos insurgentes que atuam no Afeganistão.

Os papéis também descrevem incidentes desconhecidos anteriormente sobre mortos de civis e operações secretas contra líderes do Taleban.

Fonte: Folha.com