quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Belém é a primeira cidade da Região Norte a receber o sinal da TV digital

Redação
Convergência Digital

Cinco emissoras de televisão de Belém receberam nesta quarta-feira, 04/08, autorização do Ministério das Comunicações para transmitir sua programação em sinal digital. Os termos de consignação de canais de TV Digital foram assinados pelo ministro das Comunicações, Hélio Costa. Belém é a 17ª capital brasileira e a primeira cidade da Região Norte a receber os sinais digitais de alta definição.

A partir da consignação dos canais, as emissoras têm até 18 meses para preparar o projeto de engenharia necessário para o início das transmissões em caráter definitivo. O ministro Hélio Costa garantiu que, até o fim deste ano, todas as capitais brasileiras estarão aptas a transmitir o sinal digital, além de 30 cidades-polo.

Segundo ele, até 2014, o sistema deve estar implantado em todas as cidades, pois, em 2016 o sistema de transmissão analógico será desligado. As quatro emissoras do Pará que receberam a consignação dos canais digitais são o SBT, a Rádio e Televisão Marajoara, a Televisão Liberal e o Sistema Clube do Pará de Comunicação. Também foi assinado um protocolo de intenções com a Fundação de Telecomunicações do Pará (Funtelpa).

De acordo com o Ministério das Comunicações, 21 cidades brasileiras já transmitem a TV Digital em caráter definitivo: São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Goiânia, Porto Alegre, Curitiba, Campinas (SP), Cuiabá, Salvador, Florianópolis, Vitória, Uberlândia (MG), São José do Rio Preto (SP), Teresina, Santos (SP), Brasília, Campo Grande, Fortaleza, Recife, João Pessoa e Sorocaba (SP).


*Com informações da Agência Brasil

Fonte: Convergência Digital

Cepos estreia coluna no IHU

Grupo de pesquisa em Comunicação, Economia Política e Sociedade escreverá semanalmente para a publicação.

Larissa de Oliveira
Estagiária de jornalismo


A partir da próxima segunda-feira, 10, a revista semanal IHU On Line ganha um reforço entre seus colunistas. O grupo de pesquisa Comunicação, Economia Política e Sociedade, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Unisinos, fará em cada edição da Coluna do Cepos uma análise da mídia audiovisual brasileira com ênfase nas diretrizes do grupo.


O artigo de estreia será assinado pelo professor e pesquisador Valério Cruz Brittos que, no texto, apresentará o grupo de pesquisa, suas atividades e sua estrutura. “A ideia é que, a cada semana, um membro do grupo discuta temas próximos a sua pesquisa, o que não significa que estes temas sejam alheios à pauta social. Os 50 anos da Televisão do Rio Grande do Sul, a I Conferência Nacional de Comunicação - que acontecerá em dezembro deste ano - são exemplos de assuntos que certamente estarão presentes na coluna e que fazem parte dos estudos do Cepos”, explica.


O convite para o Cepos passar a colaborar do com a IHU On Line surgiu em maio, quando o diretor do Instituto Humanitas, Pe. Inácio Neutzling, o propôs a Brittos, que aceitou prontamente. “Será mais um espaço para dialogarmos com a sociedade”, alegra-se o pesquisador. Dentre os colaboradores da Coluna do Cepos estarão mestres, mestrandos, doutores e doutorandos do grupo de pesquisa.


A coluna terá em torno de 5.700 caracteres e procurará abordar os temas científicos de forma clara e simples para um fácil entendimento daqueles que não são estudiosos do campo da Comunicação. A revista IHU On Line (versão impressa e em site) é uma publicação do Instituto Humanitas Unisinos.



Fonte: Portal 3

Lula, Sarney e a parábola orwelliana

por Bruno Lima Rocha , cientista político

Comentário na forma de prólogo: o bruto desse texto foi redigido antes da ação de censura mediante o uso e abuso da ação patrimonialista de um desembargador da mini-república de Joaquim Roriz, Nenê Constantino (o amigo do peito e do colchão forrado de dinheiro sem origem) e José Inácio Arruda. O mesmo se dá no raciocínio de auto-preservação de Sarney, que agora anuncia sua saída em função do desgaste! Antes com Antônio Carlos Magalhães e o atual governador do DF, o ex-tucano e atual UDN da oposição (DEM), Arruda passara algo igual. Renan Calheiros usara de expediente semelhante e hoje manda ainda mais. José Ribamar, pode deixar a Presidência da Mesa da Câmara Alta, desde que nada nem ninguém encoste em um centavo de seu patrimônio privado acumulado mediante negócios de Estado. Em 2002 houve a Operação Lunús, com Serra e Itagiba na cabeça. Efeito político mediante fato midiático assegurado, Roseana fora do páreo presidencial, mas fora o caixa dois devidamente apreendido no flagrante sobre a mesa , seus bens e posses permaneceram intactos. Sarney caminha junto da filha; vai de volta para o fundo do plenário do Senado dos Caciques políticos de sempre. O país fica onde está.

Introdução:

Neste breve texto, veremos como o abandono do projeto político de reforma radical (da década de ’80) pelo maior partido eleitoral da América Latina fez com que as demais posições políticas fossem abandonadas. É um enigma da política que flerta com o paradigma de George Orwell. Nesta magistral obra, conhecida no Brasil como “A Revolução dos Bichos” (a edição que tenho é antiga, data de 1964, publicado pela Editora do Globo, em Porto Alegre; o texto original de Animal Farm, em inglês, é de 1945), afirma a transformação do ex-inimigo à imagem e semelhança do opressor de antanho. Isto se dá quando, ao se aproximar do ex-adversário, um operador se faz de espelho do antigo adversário outrora irreconciliável. Sua atualidade se dá neste exato momento, ao motivar a ovinocultura política do Planalto a balir e bradar: “Duas patas bom, quatro patas ruim!” Vejamos os porquês.

O erro de cálculo do professor de economia

A nota escrita pelo senador Aloizio Mercadante (de carreira, professor de economia licenciado da PUC-SP e da Unicamp) líder do governo no Senado, pedindo o afastamento de José Sarney da presidência da “mui leal e valorosa” câmara alta da república, fez recordar ao país que existe uma queda de braço na interna do PT. A presidência – com a eminência nada parda de José Dirceu de Oliveira e Silva bombeando por fora e detrás - explicitamente desautorizou seu líder mantendo o apoio ao senador pelo Amapá. Duas moedas estavam em jogo, tendo seu lastro calculado na projeção de curtíssimo prazo, na contagem regressiva para a corrida eleitoral.

Uma moeda é de ordem tática, visando garantir a “blindagem” do governo perante a CPI da Petrobrás. Outra, estratégica, mira no projeto eleitoral de 2010 e a complexa rede de alianças com as diversas facetas do PMDB que ocupam parcelas importantes de controle do Estado brasileiro. No final das contas, o presidente mais popular da história do país se atira nos braços dos ex-inimigos políticos e isola qualquer voz discordante. Se Sarney sair – o que deve se suceder - sai na paz e na integridade patrimonial. Na analogia que fazemos com a fazenda orwelliana, neste caso, trata-se do latifúndio político da família de Roseana, exemplo vivo de como uma cultura política de caciquismo oligárquico pode se reciclar, aliando-se a ex-esquerda e mantendo como fonte de renda o botim e espólio de parte das riquezas da sociedade de classes expropriada e nunca redistribuída pelo Estado capitalista do sub-império do Brasil.

Voltando à ladainha planaltina, a mensagem é explícita. Não importa o motivo da discrepância entre políticos petistas e seu símbolo maior, para Lula e seu núcleo duro (a instância de vinculação pessoal com o presidente e não com a legenda e menos ainda com as correntes internas), nada pode estar acima das lealdades do governo para com quem o sustenta. A banca paga e recebe, mas quem dá as cartas na Articulação Política tem suas asas mais largas do que as da legenda do presidente.

Este é um dilema clássico da política, ocorrendo quando um operador político paira acima de qualquer organicidade partidária. Por fazer cálculos próprios, este líder tende a preferir bases de apoio para a chamada “governabilidade” (um continuum de mais do mesmo, a começar pela política econômica que nada mexe nas relações estruturais da economia política brasileira) e a projeção de continuidade do mandato pelo sucessor. Quem o suceder tem de dar as garantias de em nenhum vespeiro mexer, evitando qualquer cheiro de investigação federal sobre desvios, desmandos ou roubos afins. Ou seja, há de fazer o mesmo de agora, tal e como Luiz Inácio engavetou os indícios do governo de Fernando Henrique e seus aliados, a começar pela troca da CPI do Banestado pela PEC 40/03, a famigerada “Reforma” da Previdência em 2003. Embora soe estranho, é como abrir mão das metas originais para manter uma parcela do poder do Estado, concentrado no Brasil no caixa da União e nas prerrogativas do Executivo.

Nada de novo no latifúndio chamado Brasil

No começo da fábula política, Duas Patas eram ruins e Quatro Patas era algo bom. Depois, ao se aproximar do antigo inimigo, Quatro Patas tornam-se tão boas como as Duas Patas do verdugo de antes. No final da história, a mesma se repete como farsa, na restauração dos poderes anteriores, fundindo a nova fração de classe na forma de elite dirigente com os patrões do regime vencido e que se restitui. Neste caso, é como em Brasília, “Duas Patas bom, Quatro Patas ruim!”

Nada disso é novidade na trajetória recente de Luiz Inácio. Este processo já se faz notar desde, pelo menos, a difusão da Carta ao Povo Brasileiro e a aliança com José Alencar para vice em 2002. Naquele momento, o pouco que restara do projeto político da década de ‘80 se perdeu na planície. Restaria então a aliança orgânica com as correntes internas do PT e os partidos de esquerda eleitoral. Como meta de governo, Lula e sua equipe tentariam ao menos a execução dos planos setoriais, sendo a reforma agrária e a retomada do poder de compra do salário mínimo as bandeiras históricas. Fez-se apenas um arremedo de ambas, e o temporal chegou na hora de dividir o botim de Estado. Os urubus se degladiaram sobre uma carniça gorda e viva chamada Furnas e as relações obtusas com a turma do querido adversário Aécio Neves. Valeu a máxima: “Quem com Dimas fere com Dimas será ferido”.

Ainda assim Lula provou ser duro na queda, superando tudo, desde a abertura do esquema do Mensalão e resistindo a fragmentação partidária quando do lançamento da dissidência que posteriormente formara o PSOL. Sobreviveu a Roberto Jefferson fazendo das lentes da Câmara seu tribunal do júri. A rotina da política brasileira se aproximara do ethos político dos líderes da Baixada Fluminense. Na hora de chamar a Lurdinha para matraquear, a UDN na Oposição (o DEM, então ainda PFL) com carinho e com afeto se deixara embalar pelos sonhos de calmaria do PSD tucano (PSDB), todos muito emocionados pela colher de chá de Araucária saboreado através do relatório do deputado federal José Mentor (PT-SP) durante o ano de 2003. Se o Planalto com José Dirceu e tudo aliviara na CPI do Banestado, nada mais sério ocorreria. O sistema financeiro deu o ok com Mr. Meirelles devidamente blindado pelo Supremo e tudo ficou como antes. Mesmo assim, depois do susto de 2005, Lula não quer mais passar por apertos de nenhuma ordem.

Epílogo na Fazenda do Planalto: Sarney pode sair, mas seguirá mandando

Agora vale o texto relatado abaixo pelo escritor George Orwell ao final de sua fábula política hiper-realista:


“Doze vozes gritavam cheias de ódio e eram todas iguais. Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez: mas já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco.”


Faltando exatos doze meses do início da campanha presidencial de 2010, o Planalto não vai arriscar nada. Isto implica em pagar o preço necessário para evitar que José Sarney, Renan Calheiros, Romero Jucá e Cia. não venham a se tornar uma versão peemedebista do irado petropolitano Roberto Jefferson Monteiro Francisco de 2005. Para evitar esse risco e manter altas as chances de Dilma Roussef e seu provável vice do PMDB, Lula vai pagar o preço que for preciso. Ou seja, se José Ribamar sair, vai ser por desgaste de sua imagem e no acordo com o governo. A fórceps ele não cai, inclusive porque Lula não deixa.





Bruno Lima Rocha é tem doutorado e mestrado em ciência política pela UFRGS, é jornalista graduado pela UFRJ; é professor de ciências da comunicação e pesquisador 1 da Unisinos (vinculado ao Grupo Cepos /PPG Com); suas análises se condensam no portal Estratégia & Análise (http://www.estrategiaeanalise.com.br/) o qual é editor.


Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - IHU

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Conferência de Comunicação ainda depende de recurso orçamentário

Geórgia Moraes
Os recursos orçamentários para a realização da primeira Conferência Nacional de Comunicação ainda dependem da aprovação do Congresso. O projeto de lei que libera a verba está na pauta da Comissão Mista de Orçamento. A deputada Cida Diogo (PT-RJ), presidente da subcomissão criada para acompanhar os preparativos da conferência, disse que vai se empenhar para que o projeto seja aprovado o mais rapidamente possível.

Os recursos para a conferência estão previstos no PLN 27/09, que prevê crédito suplementar de R$ 37 milhões para o Ministério das Comunicações. A proposta restabelece recursos contingenciados que seriam destinados à realização do encontro e ao programa de inclusão digital do governo.

Apoio suprapartidário – Na avaliação de Cida Diogo, não haverá obstáculos para a aprovação do projeto. “Todos os partidos, todos os setores estão envolvidos no sentido de garantir a liberação desses recursos. Tenho absoluta certeza de que não haverá dificuldade com nenhuma bancada, com nenhum representante na Câmara para garantir a recomposição desse orçamento. Esse projeto terá de ser aprovado, porque se isso não acontecer a conferência ficará inviabilizada, e nós não teremos condição de realizá-la”.

Em audiência pública realizada em junho, deputados da Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática manifestaram preocupação com o corte da verba para o encontro, reduzida de R$ 8,5 milhões para R$1,6 milhão. Os parlamentares também cobraram urgência na aprovação do regimento da conferência, que já foi adiada duas vezes. Amanhã (5), os ministros envolvidos com o evento e entidades representativas do setor têm reunião marcada para resolver essas pendências.

A conferência, que vai discutir políticas de comunicação para o País, está marcada para o mês de dezembro.

Telenovela: Inovação e competitividade no mercado brasileiro

Valério Cruz Brittos*
Andres Kalikoske**

A teledramaturgia brasileira tem sido submetida a uma constante experimentação, que sucessivamente se vincula ao desenvolvimento tecnológico, incorporado, de uma forma ou de outra, em todos os produtos da TV. Portanto, se os modernos equipamentos são os responsáveis por acionar as novas possibilidades e soluções do fazer teleficção, cabe à expertise de cada emissora e ao conjunto de elos da indústria (com sua capacidade de agregar novas fórmulas ao processo, através de erros e acertos recorrentes) responder pela dinâmica inovativa. O fato é que, ao investir em inovação, a empresa televisiva deve ser tolerante, flexível e perseverante, criando contextos adequados, no âmbito de sua programação, para a midiatização destes novos produtos.

Diversos modelos têm sido testados desde metade dos anos 90 do século 20, quando se abre a Fase da Multiplicidade da Oferta da televisão brasileira, com maior disputa entre os agentes, requerendo maior agilidade estratégica por parte dos operadores. Frente a isso, na área da teledramaturgia, há a introdução especialmente dos formatos argentinos, além dos já tradicionais mexicanos. Mas uma inovação efetiva, a ponto de reinventar o processo de realização dos produtos, só é obtida em raríssimos casos.

Sucesso de crítica, fracasso de audiência

Entende-se que, na qualidade de organizações comerciais, preocupadas com resultados de curto prazo, os veículos de TV aberta resistam à experimentação em seu conteúdo, sendo que, no Brasil – e podendo-se estender esta análise também ao cenário latino-americano –, nem mesmo os canais públicos se arriscam em tal inovação. Ao contrário, alocam-se numa posição estacionária, reproduzindo (com enormes dificuldades e resultados pífios) modelos já instaurados pelas redes comerciais.

Na visão do austríaco Joseph Schumpeter (1883-1950), um dos mais importantes economistas do século 20, a inovação ocorre não somente com a introdução de novos meios produtivos, mas também a partir do lançamento de diferentes produtos e serviços, tais como, no mercado televisivo, formas alternativas de organização, fontes diferenciadas de produção de conteúdos e estratégias que contemplem os chamados nichos de mercado, a fim de atingir públicos específicos. Sua tese surgiu na década de 1940, ainda que voltada exclusivamente ao mundo empresarial não-cultural. Mas uma vez que seja assumida por emissoras de TV, pode significar a proposição de caminhos diversificados para a realização de teleprodutos. Na visão schumpeteriana, esta prática é chamada de "destruição criadora", ou seja, reinventar a partir do que já existe. O legado de Schumpeter tem demonstrado que empresas inovadoras, que correspondem às solicitações do mercado, têm sido promovidas, enquanto grupos sem agilidade para acompanhar as mudanças são extintos.

Nesta direção, é fácil perceber que a verdadeira concorrência dá-se a partir das emissoras que lançam novos produtos, ao mesmo tempo em que retiram do ar atrações de formatos obsoletos. Recentemente, alguns exemplos neste âmbito foram testados: avanços de conteúdo e estética, diga-se de passagem, mas que nem sempre resultam em rentabilidade comercial para os canais. Após amargar falta de originalidade com o seriado nacional Força Tarefa, a Globo lançou Som & Fúria, uma co-produção com a 02 Filmes. Sucesso de crítica e fracasso de audiência, a história da companhia teatral que representa obras de William Shakespeare expressa o típico produto que, por regra, é exibido apenas na televisão paga.

Teleprodutos juvenis

Declaradamente institucional e artisticamente interessante, Som & Fúria teve 85% de suas cenas ambientadas em estúdio (ou no Teatro Municipal de São Paulo) e seu argumento, versão do original canadense Slings and Arrows, foi uma grata surpresa até mesmo para os mais pessimistas. Trata-se de um raro momento em que a TV aberta brasileira pode ser utilizada como um instrumento que ultrapassa os limites do mercadológico, levando a cultura universal aos públicos mais distantes, enquanto, simultaneamente, provoca no telespectador a capacidade de abstração e reflexão ou simples fruição da arte, na sua mais alta acepção.

Mesmo com todas as críticas passíveis de serem feitas à Globo, esta é a emissora que tem garantido os melhores momentos da televisão nacional. Por motivação mercadológica, logicamente, já que se trata de uma empresa privada, na medida em que, mesmo sem ser êxito comercial, tais produtos garantem pontos para a imagem da organização. Mas as demais redes, que também estão no mercado, praticamente ignoram este tipo de projeto, deixando de investir em reputação para apostar em iniciativas com expectativa de rentabilidade imediata.

Outro visível acerto da Globo é a microssérie destinada ao público adolescente Geral.com, que lembra o formato do premiado seriado Confissões de Adolescente. Com estética despojada e despretensiosa, levanta questões sobre a presença da tecnologia na vida dos jovens. Em meio a muita música e alguma interação através da internet, a história verídica da família Werneck – cujos irmãos e primos formam um grupo musical – é representada com boas doses de ficção e realidade. Concebido como produto de TV, não chega a estabelecer nexos entre as linguagens cinematográfica e televisiva (e nem se propõe a isso), mas seu formato renovador sugere importantes avanços para os teleprodutos juvenis.

Adaptação de folhetins clássicos

O SBT, vice-líder desde os anos 80 e que atualmente oscila entre segundo e terceiro lugares, também tenta inovar. Ainda que timidamente e dentro de suas possibilidades atuais, Vende-se um Véu de Noiva, seu carro-chefe nas novelas, recorre a belas imagens na tentativa de ser uma alternativa ao denso texto de Poder Paralelo, da Record. Até o final da produção, tomadas externas devem ocupar 75% dos capítulos, cada um orçado em R$ 180 mil. O diretor Del Rangel, responsável por estes avanços, acertou ao apostar em uma fotografia sofisticada, que se utiliza da técnica de adição de cores. Amplamente explorada pelo cinema, os habituais tons amarelados agora abusam de saturação, alterando positivamente a textura da imagem.

No vídeo, o que o telespectador tem acompanhado são escaldantes tardes de sol ou um cintilante tom azulado nas águas do mar. O áudio, em contrapartida, deixa a desejar: sua sonoridade parece eco de caverna, atrapalhando o entendimento dos diálogos. Este é um ponto que deve ser ajustado nas futuras produções da casa. Mesmo tratando-se de um produto diferenciado (especialmente para o SBT), a audiência de Vende-se um Véu de Noiva não respondeu de forma positiva, estacionando em parcos cinco pontos. Algo justificável, uma vez que o histórico da emissora é alterar o horário de seus programas sem aviso prévio. Também se soma a isso a má reputação de oito anos co-produzindo telenovelas com a Televisa, a qual insistia na adaptação de folhetins clássicos, oriundos das radionovelas latino-americanas.

Uma história trivial

Plenamente seguro de suas faculdades intelectuais, o estrategista Silvio Santos não perdeu tempo: em seu programa dominical, solicitou que os telespectadores assistam à novela. Um pedido estranhamente interessante, mas pouco curioso tratando-se do folclórico empresário e apresentador. Em tom intimativo e hilariante, seu apelo sugere que o público continue assistindo às telenovelas da concorrência, mas que também atente para a produção do SBT (e até da Record), uma vez que, em sua visão, se a teledramaturgia de outros canais não for aceita, apenas a Globo seguirá no ramo das novelas. Colocação que não deixa de ser plausível.

A Record, após investir alto em produtos diferenciados que passaram despercebidos, como a telenovela Metamorphoses – cujo primeiro capítulo foi exibido excepcionalmente num domingo e a narrativa abusou de longos planos-seqüência – e a série nacional Avassaladoras, parece conduzir com precaução suas novas empreitadas no ramo da teledramaturgia. Seguindo fielmente o padrão tecno-estético da Globo, tanto nos feitos artísticos quanto técnicos, agora une-se ao conglomerado mexicano Televisa, através de joint venture, a fim de lançar, nesta terça (04/08/2009), Bela, a Feia, sua nova novela das 20h30. Trata-se de uma versão nacional derivada do texto mexicano La Fea Mas Bella e já veiculada pelo SBT, em 2006. Este roteiro, por sua vez, baseou-se num original colombiano de grande repercussão mundial: Yo Soy Betty, la Fea, exibido duas vezes no Brasil (de 2002 a 2003 e de 2004 a 2006) pela RedeTV!, sob o título de Betty, a Feia. O maior desafio para o êxito da novela, cujos capítulos estão orçados em R$ 300 mil cada um, caberá a Gisele Joras, responsável pela adaptação brasileira. A novelista terá que mostrar toda sua versatilidade, atraindo o telespectador para uma história trivial e com desfecho previsível, cuja versão norte-americana, Ugly Betty, também está no ar na televisão brasileira, pelo SBT e canal Sony.

* Professor titular no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da UNISINOS, coordenador do Grupo de Pesquisa CEPOS (apoiado pela Ford Foundation) e doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela FACOM-UFBA. E-mail: .

** Mestrando em Ciências da Comunicação na UNISINOS, bolsista do CNPq e membro do Grupo de Pesquisa CEPOS (apoiado pela Ford Foundation). E-mail: .

Fonte: Observatório da Imprensa.