terça-feira, 2 de agosto de 2011

Acusados de fraude contra o Ecad faltam a depoimento em CPI

Por Nádia Guerlenda Cabral

Milton Coitinho, apontado como "laranja" em um esquema de fraude ao Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), faltou ao depoimento marcado nesta terça-feira, na CPI que investiga a entidade.

Sua procuradora, Bárbara de Mello Moreira, também não compareceu. Ambos alegaram motivos de saúde e se comprometeram a comparecer no dia 11 de agosto.

Milton Coitinho teria recebido R$ 127,8 mil porque assinava a autoria de composições que não eram suas. Ele era filiado à UBC (União Brasileira de Compositores), uma das seis entidades que associadas a o Ecad, são responsáveis pela arrecadação e distribuição de direitos autorais no país.

A Folha localizou Coitinho em Bagé (RS). Ele é motorista de ônibus, afirma não tocar "nem gaita" e nunca ter recebido a soma da entidade.

A diretora da UBC, Marisa Gandelman, depôs sobre o caso e afirmou que a fraude foi cometida por alguém "com expertise na documentação que regula os direitos autorais, além de profundo conhecimento do funcionamento da entidade."

Ela descartou a possibilidade de uma outra fraude ocorrer, porque agora "há um maior controle de quem se associa à UBC."

INQUÉRITO

Ontem, a Polícia Civil do Rio de Janeiro concluiu o inquérito sobre o caso e indiciou Bárbara de Mello Moreira, estudante de direito, e seu cunhado, Rafael Barbur Côrtes, ex-funcionário da UBC.

Segundo Gandelman, as investigações mostraram que o primeiro acesso ao endereço de e-mail atribuído Coitinho foi feito de dentro da própria UBC.

O senador Lindbergh Farias (PT-RJ), relator da CPI, afirmou que pretende requerer depoimento do delegado responsável pelas investigações. Ele quer ouvir, principalmente, porque não foram investigadas as denúncias de envolvimento de outros funcionários da UBC no esquema.

A comissão ouve nesta terça-feira, também, o ex-gerente jurídico do Ecad, Samuel Fahel, e representantes da ABTA (Associação Brasileira de Televisão por Assinatura)

Fonte: Folha.com

Jornalista, profissional fragilizado

Por Leneide Duarte-Plon*

É uma profissão que passa seu tempo a auscultar os outros mas ignora quase tudo de si mesma. Na França, o instituto Technologia resolveu saber mais sobre os jornalistas franceses num momento em que esses profissionais se sentem fragilizados e se questionam sobre o futuro da profissão, ameaçada pela diminuição do número de leitores de jornais e pelas receitas publicitárias cada vez mais magras.

Os analistas costumam apontar a internet como o vilão da decadência da imprensa escrita e do jornalismo tal como o conhecemos até hoje. Mas a crise é estrutural, diz um estudo francês publicado pela revista Marianne. Ao divulgar as conclusões da pesquisa do instituto Technologia, o diretor de Marianne, Denis Jeambar, se pergunta se em vez de ser o vilão da morte da imprensa, a Web não constituiria, “ao contrário, o ideal democrático da informação para todos ao alcance de um clique”. Segundo ele, o que a imprensa francesa chama de printemps arabe (primavera árabe) é a prova de que povos mais educados, e consequentemente mais bem informados, se revoltam contra ditaduras utilizando todos os meios modernos da comunicação. Assim, Al-Jazira foi um starter quase tão importante quanto o Twitter, o Facebook ou os smartphones na origem desse vento de liberdade. Sendo assim, novos meios são a melhor rima para liberdade.

A pesquisa que o instituto Technologia realizou, juntamente com o Sindicato dos Jornalistas, para avaliar o trabalho real dos jornalistas na França tinha por objetivo avaliar os laços entre democracia e qualidade de informação. Para isso, ouviu 1.070 jornalistas, que responderam aos questionários enviados aos 7 mil profissionais que possuem uma carteira de imprensa.

Princípio sagrado

A primeira constatação é que a profissão trabalha submetida a um enorme estresse. A segunda é que, graças aos novos meios como Twitter, Facebook e os smartphones, “os jornalistas não são mais os únicos a tratar as notícias e os acontecimentos podem abrir mão desses profissionais para serem divulgados”. Sendo assim, há risco real para a profissão de jornalista? Segundo os estudiosos, já estamos vivendo essa realidade em que na internet floresce o que os franceses chamam de “jornalismo cidadão”, de geração espontânea. Os jornalistas profissionais são cada vez mais criticados por conivência com as fontes, por aceitarem as pressões e as regras do jogo político, econômico e comercial das empresas em que trabalham.

Entre os jornalistas ouvidos por Technologia, os da imprensa escrita são os mais fragilizados: 62% dos profissionais da imprensa escrita veem a evolução da produção e do consumo da informação como uma ameaça; essa percepção baixa para 40% entre os profissionais de rádio e 32% entre os de televisão.

É bom lembrar que a imprensa escrita na França recebe anualmente 1,8 bilhão de euros do Estado. Se essa ajuda primordial for suprimida, muitos jornais que hoje sobrevivem com grande dificuldade simplesmente fechariam. Os números não são nada animadores: no primeiro trimestre deste ano, as vendas dos jornais diários caíram 4,5% em relação ao mesmo período de 2010. A própria Marianne, respeitada revista de esquerda, fundada por Jean-François Kahn e Maurice Szafran em 1997, nunca conseguiu ultrapassar os 50 mil exemplares semanais.

Uma das principais reclamações dos jornalistas ouvidos é a degradação das condições de trabalho pela multiplicação das tarefas em nome da racionalização dos custos. Evidentemente, os jornalistas aceitam as imposições para preservar seus empregos. “A rapidez e a emoção se tornam as regras de um jogo que nada tem a ver com a pesquisa da qualidade da informação”, escreve Denis Jeambar.

O diretor-geral de Technologia, Jean-Claude Delgènes, defende os profissionais da comunicação que, segundo ele, acabam sendo os bodes expiatórios pelo mal-estar da sociedade francesa. Para ele, os meios de comunicação são um elemento fundamental na democracia e seria muito perigoso diminuir sua importância. Marianne enfatiza que a liberdade de imprensa nunca está totalmente garantida e é consubstancial à democracia, como lembrava Victor Hugo quando escreveu: “O princípio da liberdade da imprensa não é menos essencial nem menos sagrado que o princípio do sufrágio universal; são dois lados da mesma moeda.”

“Efeito direto sobre a cidadania”

Estaria a imprensa realmente ameaçada pelas novas mídias? A resposta é “sim”. Segundo Marianne, nos Estados Unidos, pela primeira vez no mundo da edição, o número de livros digitais vendidos em 2011 ultrapassou os livros de bolso. A revista imagina que os jornais vivem a mesma ameaça.

O premiado e mundialmente célebre jornalista Bob Woodward é categórico: “Na lápide do diretor-presidente da Google deveria se escrever: `Eu matei os jornais.´” E conclui: “O sistema é obcecado pela rapidez, pela obrigação de responder a uma pseudo-impaciência do público, enquanto este mundo complexo tem necessidade de um jornalismo de grande qualidade, que exige trabalho e investigação em profundidade. Não se faz uma reportagem por telefone ou surfando na internet.”

Com as mudanças impostas ao trabalho do jornalista, Technologia detectou uma insatisfação generalizada entre os profissionais: 46% admitem não ter tempo de se recuperar entre dois períodos de trabalho particularmente difíceis; 68% pensam que têm de trabalhar mais rapidamente que antes; 73% dizem que a carga de trabalho aumentou nos últimos anos; 55% dizem que a atividade profissional tem um impacto negativo sobre a saúde e 88% dizem que ficaram estressados ou extremamente cansados por seus trabalhos nos últimos 12 meses.

Technologia conclui: “A degradação das condições de trabalho dos jornalistas tem um efeito direto sobre a maneira como os cidadãos pensam a atualidade e o bom andamento da sociedade. O enfraquecimento dos jornalistas como trabalhadores vem enfraquecendo a democracia como modelo político".

* Jornalista atuante em Paris, França.

Fonte: Observatório da Imprensa.

Planeta digital: os novos negócios de streaming

Por Valério Cruz Brittos e Bruno Bottega*

No nascente mercado de streaming de audiovisual na internet, é especialmente útil observar com atenção negócios como a Apple TV e o YouTube. As atuações de empresas extremamente diferentes, mas que, ainda assim, atuam de forma complementar num mercado de comunicação em permanente reformulação, surgem como um tema de intensa relevância. Some-se a isso a forma pela qual mecanismos tradicionais de negociação, como os direitos de propriedade intelectual e sua contraditória contribuição para renovar o poder de players tradicionais no mercado audiovisual, e tem-se um cenário instigante.

De fato, o YouTube possui extrema importância na história da convergência entre internet e televisão. Afinal, ao demonstrar de que modo é possível aproveitar os benefícios de assistir audiovisual através da rede, esse serviço foi principal fator de aprendizado do público nesta tarefa. O curioso é que o YouTube pode ser tudo, menos um sucesso comercial. Apesar de seus mais de um bilhão de acessos diários e da participação notável no cenário do audiovisual em rede, o YouTube não é uma empresa lucrativa, demonstrando que êxitos de faturamento e público podem não caminhar juntos.

Menos conhecida e mais segmentada, a Apple TV surgiu em 2007, com a intenção não de competir diretamente com o YouTube, mas de ser uma fonte própria de rendimentos a partir de serviços de outras firmas, gerando lucro para a Apple. A histórica corporação de hardware apostava num set-top box que permitisse acesso privilegiado ao iTunes Store, formando uma espécie de rede entre ambos os serviços. Na realidade, o serviço opera como uma locadora online, que aluga instantaneamente, via download, seriados e filmes por preços bastante convidativos (cerca de US$ 0,99 cada). Assim, embora não seja encarada como um produto de propriedades revolucionárias no cenário da convergência da internet com a televisão, a Apple TV é um sucesso financeiro.

Apple TV vs. TV paga

O YouTube hospeda e veicula qualquer tipo de vídeo, enquanto a Apple TV distribui apenas audiovisuais que já possuem um público definido (filmes lançados no cinema e seriados transmitidos em grandes canais televisivos). Suas diferenças são o ponto principal. Os novos negócios de streaming amador têm a obrigação de afirmar a relevância de seu conteúdo. De outro lado, os negócios de streaming de audiovisual premium possuem conteúdo relevante por si só. O principal problema do segundo grupo é recorrer a acordos que permitam utilizar material já conhecido pelo público, na verdade mais simples e convencional.

Aqui, uma contradição: se um empreendimento de internet não agrega conteúdos televisuais próximos do imaginário do público, terá dificuldade de obter sucesso financeiro no curto prazo. Se, ao contrário, a iniciativa aposta no previamente experimentado, deixa de participar de um processo de inovação que, em algum momento, deverá trazer resultados positivos econômicos, não obstante no plano do fazer comunicação desde o início traga bons dividendos. Velhos padrões ainda possuem uma intensa capacidade de sobrevivência, mas a lógica da PluriTV - esta televisão que está em todos os lugares, com maior ou menor protagonismo - prevê que, a seu modo, cada modalidade televisiva acabe construindo seu próprio modelo de financiamento, podendo haver mais de um até em uma mesma plataforma.

Tal constatação afirma-se através da - outra - velha estratégia de distribuição de conteúdo. A distribuição de um audiovisual possui etapas, formando as janelas de exibição. Um filme é lançado no cinema e posteriormente distribuem-no em DVD; depois, licenciam-no para canais de TV por assinatura e, finalmente, ele é liberado para a televisão aberta. Para o streaming, a questão tem sido delimitar o lugar de tal projeto neste antigo circuito. Serviços como a Apple TV surgem como uma alternativa, comprometendo possivelmente as próximas etapas. Existe um risco de ele canibalizar o negócio de TV paga, roubando espectadores e tornando-se uma espécie de rival.

Estratégias de controle de conteúdo

A interação eficiente entre diversos elementos é extremamente proveitosa para negócios de comunicação concentrados. Num processo de sinergia bem articulada, a transição de uma etapa de veiculação para outra dá-se sem problemas. Pode-se poupar esforços de marketing, uma vez que o grande público já conheça o produto. A digitalização - palavra-chave na convergência entre televisão e internet - permite uma reapropriação mais rápida e barata, tornando um programa mais relevante por mais tempo. Em todo este ciclo, a negociação de direitos autorais torna-se paradoxalmente importante para estes benefícios serem obtidos. Sem ela, não é possível o processo de sinergia.

A partir deste debate, é possível inferir que existe a possibilidade de visualizar os negócios de streaming como um experimento a ser internalizado por grandes corporações. Considerando a extensa consolidação das últimas décadas, vê-se que isso é extremamente viável já que, a partir daí, os negócios de streaming deixam de ser um rival dos serviços de televisão por assinatura, passando a ser um aliado. Isto conferiria ainda mais poder às grandes corporações, obtido através exatamente de velhas estratégias de controle de conteúdo.

* Valério Cruz Brittos e Bruno Bottega são, respectivamente, professor titular no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos e graduando em Comunicação Digital na mesma instituição.

Fonte: Observatório da Imprensa.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Comunicação como cooperação produtiva: entrevista com Francisco Sierra Caballero

A pouca idade de Francisco Sierra Caballero parece não ter acompanhado sua produção intelectual. Apesar de ser considerado um dos mais novos pesquisadores latinos colaboradores com o pensamento crítico no campo das TIC, ele já possui mais de 20 livros publicados e quase 40 artigos inseridos em revistas científicas, tendo ganhado renome internacional com pesquisas sobre as tendências das políticas de comunicação educativa na construção da Sociedade Global da Informação.

Sierra é professor da Universidade de Sevilha e diretor do Centro Iberoamericano de Comunicação Digital e do curso de pós-graduação em Comunicação e Desenvolvimento Local. Doutor em Ciências da Informação, o investigador espanhol é membro permanente da International Association for Media and Communication Research (IAMCR). Dentre suas principais publicações estão “Apuntes para uma Historia de la Comunicación Educativa” (2002), “Crítica de la Economía Política de la Comunicación y da Cultura” e “Políticas de Comunicación y Educación (2006)”.

Em entrevista ao Boletim de Notícias da Rede Eptic, Francisco Sierra defende a necessidade de formulação de políticas públicas de comunicação educativa e diz que o conhecimento não deve ser tratado como mercadoria, mas sim socializado. O pesquisador acredita que as TIC e suas inovações implicam mudanças nas relações sociais e que se torna necessária a construção de políticas locais e regionais de comunicação. Ele ressalta a importância das investigações da Ulepicc na construção de um novo modelo social de comunicação como cooperação produtiva e afirma que a participação da comunidade nos processos inovativos deve ser vista como planejamento de desenvolvimento e de mudança social.

EPNOTÍCIAS - Ao abordar o processo histórico da comunicação educativa em um de seus livros, o senhor aponta a comunicação, a educação e o desenvolvimento como sendo três paradigmas importantes para a concretização de um universo discursivo de liberdade do saber e do conhecimento. Como fazer uso pedagógico dos meios de informação em uma estrutura internacional oligopolizada, que promove a mercantilização do saber e do conhecimento?

Francisco Sierra - Eu acredito que são muito importantes as experiências locais no apoio à luta dos movimentos sociais, a uma socialização do conhecimento com as tecnologias da informação e da comunicação, a uma democracia participativa radical. Também é muito importante o projeto de redes interurbanas, projetos em que essas experiências locais tenham conexão com outras experiências de socialização das novas tecnologias. Quando eu falo que há uma individualização de políticas públicas é porque estes projetos estão desconectados com projetos de mobilização social para a conquista do desenvolvimento equilibrado e igualitário. É muito importante a cooperação entre territórios, a cooperação entre movimentos sociais, a cooperação entre atores, o intercâmbio e a troca de experiências profissionais.

Como atingir a universalização do conhecimento através da comunicação?

A primeira condição é que os próprios canais, os meios de comunicação sejam públicos, para a socialização e universalização do conhecimento que não seja uma mercadoria. A idéia é que a cultura e a comunicação não sejam tratadas como uma indústria, não se rendam à lei do valor, à mercadoria. É preciso trocar a lógica da mercadoria por uma lógica de serviço público, de interesse público. Na prática, isso se faz através de políticas públicas, que por sua vez, não podem ser nacionais, mas sim supranacionais, a exemplo do Mercosul e União Européia. Deve ser feito um projeto de regulação transnacional, sem esquecer as especificidades locais, pois cada região tem que se voltar para sua tradição, seu modelo de desenvolvimento e necessidades sociais.

Quais as problemáticas e benefícios da introdução dos novos sistemas de informação e de comunicação no setor educativo?

Eu destacaria dois problemas. Um deles é de adaptação em nível de inovação tecnológica. Isso é uma problemática para o sistema educativo porque a tecnologia de ponta, mas avançada, é muito cara para um sistema público, com pouco financiamento. O segundo problema é que os sistemas formais de ensino de educação superior da universidade devem reformular seu modelo de organização, seu modelo institucional. Isso traz problemas porque são instituições tradicionais, muito resistentes a mudanças organizativas. Mas é preciso reorganizar porque as TIC’s implicam em mudanças das relações sociais, da relação professor-aluno, da relação entre pesquisador e comunidade.

Como o senhor vê a relação entre as ações do Estado, das empresas privadas e das universidades?

A interação entre sistemas, ciência e tecnologia, sob o ponto de vista do desenvolvimento local, abre um debate para pensar como o pesquisador vincula seu trabalho com a comunidade, com a empresa, com o desenvolvimento territorial. Esse pensamento já tinha sido formulado nos anos 60, mas na década de 80, com a política neoliberal, foi abandonado. Agora, coloca-se novamente em discussão a relação entre desenvolvimento científico e desenvolvimento territorial. Em alguns lugares, tem sido criadas cidades do conhecimento, que integra o setor privado, universitário e público, os sistemas de ciência e tecnologias e demais atores sociais, como poderes públicos e movimentos sociais. A função é monitorar idéias e articular os vínculos. Na Espanha e União Européia, por exemplo, estamos pensando na agenda do século XXI, nas políticas culturais para o desenvolvimento local. Está muito avançada esta reflexão, mas os observatórios são escassos.

Mesmo com as tendências da rede global de informação e as contradições observadas com o discurso público liberal sobre a comunicação e democracia, o senhor acredita que se pode construir um novo modelo social de comunicação como cooperação produtiva?

É possível. O debate deve ser até 2010. Tem-se uma crítica da política pública para reformular os princípios da economia política liberal e das políticas funcionais ao capitalismo cognitivo. Por outro lado, é preciso fazer um trabalho de articulação social com as comunidades, com os cidadãos, para que sejam conscientes de como essas transformações da comunicação e do conhecimento afetam nas suas vidas, em seu cotidiano. É um trabalho de pedagogia política, pedagogia para a democracia. Vários pesquisadores chegaram à conclusão que o projeto de política de educação tem que ser para a cidadania, informação e conhecimento.

Por que a comunicação educativa é um campo estratégico para a configuração dos modelos de desenvolvimento regional?

Porque o capitalismo cognitivo depende diretamente da ciência e tecnologia. Mas é necessário haver mediação, que é a educação. A troca de conhecimento e pesquisa é uma questão positiva. Descobriu-se que a riqueza das nações depende do sujeito do trabalho, das comunidades, de sua cultura, de sua criatividade, o que os economistas ortodoxos denominavam ‘valor agregado’, da cultura de produção. Esses são os elementos que distinguem a produtividade de uma economia. A idéia central depende de como se qualifica a força de trabalho, como isso se reflete no desenvolvimento e como seriam as instâncias da ciência e tecnologia no desenvolvimento regional. É nesse processo que o papel da comunicação educativa é vital, pois promove a socialização das tecnologias da informação e a criatividade da inovação científica e tecnológica. Se os trabalhadores precisam das tecnologias da informação, deve-se educa-los sob as perspectivas de políticas públicas.

Com a globalização midiática e a conseqüente concentração dos setores da indústria cultural, acaba acontecendo um processo de reconstituição dos poderes públicos, em que o Estado cede às empresas privadas a função de administração dos serviços de interesses públicos. Quais são as alternativas de mudança da comunicação frente aos discursos liberais e qual o papel dos movimentos sociais nesse processo?

Do ponto das alternativas, nós que formamos a ULEPICC estamos trabalhando no que denominamos de agenda ULEPICC, agenda de políticas públicas, um dos objetivos fundamentais é a mudança da comunicação, partindo-se da idéia de que a comunicação é um direito humano, não uma mercadoria, e de que as políticas públicas sejam planejadas em escala global. Daí um debate importante do movimento CRIS, movimento pró direito da comunicação à sociedade da informação global. Nós da ULEPICC temos reforçado que é preciso uma mudança na comunicação com formulação de políticas públicas que não sejam planejadas em nível nacional, mas em nível supranacional. Por isso a ULEPICC é um coletivo latino, que engloba toda a América Latina, Espanha, Portugal, colegas latinos da França, Itália, Canadá, com essa missão global de que existe essa divisão internacional do trabalho cultural. Então se a cultura desses países deve posicionar-se de forma a construir políticas públicas em conjunto, políticas de cooperação internacional, se quer apurar o papel da comunicação e desenvolvimento. Os movimentos sociais também devem trabalhar politicamente a comunicação. O Fórum Social Mundial tem formulado políticas em matéria de comunicação, mas os movimentos sociais em geral, não trabalham com missões comunicativas dialógicas, participativas e democráticas, nem tampouco têm um discurso sobre o papel central da comunicação para subdivisão social e das lutas sociais. É necessário que os movimentos sociais sejam conscientes da comunicação e operem em escala regional e também em escala supranacional, com as políticas públicas dos Estados.

Em um dos seus artigos, o senhor diz que as forças políticas e sociais devem começar a definir políticas locais e regionais de comunicação. Como isso pode ser alcançado na América Latina e na União Européia, em que o livre fluxo de informação tem causado graves problemas, dentre eles a redução das taxas de produção local e dos espaços próprios de difusão audiovisual?

Evidentemente os poderes públicos locais, por si sós, não podem mudar as condições de desenvolvimento local ou regional. É preciso alianças interurbanas, inter-regionais, mas é preciso ter políticas locais porque hoje as políticas públicas são nacionais, mas não havia descentralização, e o capitalismo global obriga a descentralização. O Estado é mínimo e as esferas regionais têm papel central para fazer frente às mudanças das políticas neoliberais, às mudanças da competitividade industrial e econômica. É preciso ter uma política de comunicação e cultural para fazer estratégias inteligentes. Para se ter uma idéia, no período entre 2004 e 2006, não Europa, não houve políticas locais de comunicação nem tampouco políticas regionais. Na América Latina, pelo pouco que conheço, vê-se Estados muito centralizados. Não é o caso do Brasil, mas é o caso do México e do Chile. As entidades locais e regionais só querem competência apenas, competência para se chegar ao desenvolvimento territorial e que também formule políticas culturais para um equilíbrio e aproveitamento dos seus próprios recursos.

No caso da Internet, o problema é de brecha digital ou participação?

De participação, porque a brecha digital pressupõe que cidadão é usuário, consumidor de um bem que não é público, mas sim mercadoria. Então à indústria cultural interessa que a demanda cresça. A internet basicamente não é um problema. O importante é saber que papel tem esses cidadãos no planejamento da mudança tecnológica, da inovação tecnológica, dos usos das tecnologias da informação sobretudo para o desenvolvimento regional ou comunitário, que papel tem a produção de conteúdos, a organização dos sistemas de educação e informação e a geração do conhecimento. As políticas públicas nunca fomentam a participação. Entende-se a participação como acesso, como consumo, mas a participação deve ser vista como planejamento de desenvolvimento e de mudança social. A Unesco, quando fala de indicadores de acesso digital, está falando de participação, mas na prática não faz nenhuma política ou esforço ou projeto com participação do povo para articular comunitariamente conhecimento. As políticas de comunicação normalmente confundem acesso de informação com participação. O acesso se faz com políticas da brecha digital, diferentemente da participação, que implica aceso, formação, criação e autodeterminação, capacidade de controlar os próprios recursos, as próprias tecnologias, os próprios conhecimentos comunitários.

Como a rede de pesquisadores da ULEPICC está participando das formulações de políticas públicas para um modelo de desenvolvimento da comunicação?

Desde o ano 2000, a ULEPICC vem trabalhando com movimentos sociais, por exemplo, com o Fórum Social Mundial de Porto Alegre. Na Espanha também estamos trabalhando com a plataforma de defesa da televisão pública, com as organizações sociais. Fazemos com que as pesquisas de economia política crítica e as propostas de políticas públicas democráticas de comunicação sejam debatidas com os movimentos sociais.

Quais as contribuições das suas investigações na área?

A mais importante é o livro que publiquei em 2006, “Políticas de Comunicación y Educación”, porque, tradicionalmente, quando os pesquisadores da pedagogia ou da comunicação pensam em comunicação educativa como missão política, como uma positiva utilização das novas tecnologias para a educação, para o ensino superior e educação básica, mas não é uma questão política. O primeiro estudo global, com um traçado histórico sobre as políticas públicas de convergência entre o setor educativo e comunicativo foi este estudo que publiquei. Essa é uma contribuição importante para mudar a visão dos educadores e dos comunicólogos que frente à sociedade do espetáculo, dependem da comunicação educativa para valorizar. Há uma economia da comunicação educativa, há uma mudança nesse setor educativo pelas indústrias culturais, as quais também têm interesse na comunicação educativa. Tiveram interesse na época da televisão educativa via satélite e agora com a internet e a tele-educação. Isso é um apanhado de economia crítica e das origens da comunicação educativa como intervenção interdisciplinar.

Fonte: Observatório do Direito à Comunicação.

Beijo gay incomoda mais na TV do que na vida real

Uma pesquisa realizada pelo Data Popular constatou que as pessoas se incomodam mais em ver um beijo gay na TV do que ao vivo.

O instituto, que é especializado em estudos com a classe C e mercados emergentes, resolveu medir qual o impacto da homossexualidade na TV com clientes como Globo e Record.

A Folha teve acesso com exclusividade à pesquisa, que foi realizada em julho com 3.000 pessoas. Nela, 45% dos homens dizem que se sentem incomodados ao verem duas pessoas do mesmo sexo se beijando.

Destes, 25% se dizem “muito incomodados” com a cena na vida real. Já entre as mulheres, 41% se incomodam com gays se beijando na rua e 19% se dizem “muito incomodadas”. Quando o beijo gay é na TV, a rejeição aumenta.

A informação é da coluna Outro Canal, assinada por Keila Jimenez e publicada na Folha desta segunda-feira (1º). A íntegra da coluna está disponível para assinantes do jornal e do UOL, empresa controlada pelo Grupo Folha, que edita a Folha.

Fonte: Folha.com.